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Projetos | Institucional | Projeto


Por: Patrick Cassimiro, Caroline Ferreira e Rosi Rico

Todos envolvidos em uma competição saudável

Torneio interclasses precisa contemplar participação da comunidade e refexão sobre cooperação

O apito soa, crianças e jovens correm, a bola quica. Parece que o campeonato se inicia no momento em que a torcida está posicionada, a arbitragem em ação e o placar mudando. Mas, antes do primeiro jogo ocorrer, há planejamento e muito trabalho para promover reflexões sobre como realizar uma competição saudável.

Para esse objetivo ser atingido, é essencial desconstruir o senso comum de que o esporte deve ser como o praticado por atletas de alto rendimento, que em geral tem características diferentes das intenções educativas, como exclusão dos menos aptos, divisão por gênero e a busca desenfreada por resultados. No lugar disso, a ideia é mostrar que se trata de uma manifestação cultural que possui metas variadas e ocorre em contextos diversos, como em momentos de lazer, nas brincadeiras de rua ou nas aulas de Educação Física. O esporte pode, portanto, ser adaptado para atender as condições da instituição de ensino - de regras, espaços, materiais, técnicas e mesmo capacidade motora dos alunos, no caso de crianças com deficiência. Caio Martins Costa, coordenador pedagógico do Instituto Esporte e Educação, em São Paulo, explica que essa perspectiva amplia as possibilidades de presença nas atividades esportivas, favorece os diferentes níveis de habilidade e valoriza modalidades menos difundidas. "Não se trata, simplesmente, de facilitar o jogo para que todos participem, e sim trazer as diferenças como elemento para a construção de práticas desafiantes, no contexto específico da escola", diz Caio.

Uma maneira de aproveitar o potencial formativo da atividade esportiva é a realização de um projeto institucional (leia no final da matéria) com a finalidade de organizar um campeonato envolvendo toda a instituição. "É fundamental a abordagem de aspectos como integração social, intercâmbio, solidariedade e congraçamento de ideias, valores e atitudes", afirma Marcos Santos Mourão, professor de Educação Física da Escola da Vila, em São Paulo. Isso ajuda na criação de uma competição saudável. "A gestão deve promover ações que evidenciem que esse processo é uma cooperação de competências, ou seja, cada um contribui com aquilo que faz de melhor", diz Marcos.

Daí a importância de, na organização, ter a participação da comunidade. Foi o que ocorreu na EE Henrique Dumont Villares, em São Paulo, e no CE Gilvan Sampaio, em Rubiataba, a 210 quilômetros de Goiânia. Os gestores conduziram a realização de torneios com a colaboração de professores, funcionários e alunos na preparação das partidas. "Construir um projeto com várias mãos favorece a troca de ideias e a criação de uma identidade forte o suficiente para manter a sustentabilidade dele", coloca Caio.

Reuniões e debates

Na escola paulista, o torneio envolveu alunos do 1º ao 5º ano em jogos de basquete, vôlei, futebol, queimada e atletismo, com equipes mistas e também nas categorias masculina e feminina. Por meio de grupos orientados por professores, os estudantes contribuíram para definir o regulamento, que incluía, para os menores, adaptação da cesta de basquete, colocada mais baixa, e a opção de vôlei câmbio, em que é permitido segurar a bola com a mão. Os mais velhos participaram da arbitragem e cada equipe indicou um menino e uma menina, que foram preparados para ajudar com as súmulas - documentos em que as ocorrências de uma partida são anotadas.

Os campeonatos interclasses da unidade goiana, feitos entre os alunos do Ensino Fundamental, são regulares e ocorrem todo fim de semestre. No último, as partidas foram de tênis de mesa, futsal, xadrez e vôlei. Durante os preparativos, a opinião dos estudantes é apresentada pelos representantes de classe, que participam das reuniões com a gestão. Se um estudante não quiser participar como jogador, ele pode ficar na torcida organizada, que também garante pontos para a equipe.

Nas duas instituições, os torneios ocupam as aulas de Educação Física. Mas o esforço vai muito além desses horários. O planejamento inclui o trabalho com os docentes sobre como promover a reflexão dos alunos sobre questões como inclusão, ética, respeito e construção participativa. "Montamos estratégias de estudo e realizamos reuniões de formação para esse projeto", afirma Nadia Moya Brocardo, coordenadora pedagógica da EE Henrique Dumont Villares.

O debate desses temas com os estudantes é feito antes do início do campeonato, com aulas expositivas e propostas de leitura. "Queremos promover as habilidades motoras e cognitivas, mas também desenvolver ações que valorizem a boa convivência e o prazer proporcionado pelo esporte", diz Irlane dos Santos, diretora em Rubiataba.

Nas duas escolas, há premiação. Em São Paulo, os troféus foram feitos pelo pai de um estudante, que é marceneiro, e finalizados pelas professoras de Arte. "Se durante o processo de realização do campeonato ficou evidenciado que o principal é a cooperação, a premiação é algo que pode e deve ser feito como uma maneira de valorizar o trabalho realizado", sugere Marcos.

 

Organização de campeonato

 

Objetivo geral

Realizar um campeonato envolvendo a escola inteira e fundamentado no trabalho em equipe.
 

Objetivos específicos

Para a equipe gestora Proporcionar condições para a realização do projeto e comunicar, de maneira clara, quais são os princípios que regem o evento.

Para os professores Abordar os aspectos formativos da prática esportiva como cooperação, solidariedade, integração social etc. Cuidar para que todos os alunos tenham a oportunidade de participar.

Para os alunos entender a diferença entre jogar com e jogar contra os colegas.

 

Tempo estimado

De um a dois meses.
 

Desenvolvimento

  • 1ª etapa | Mobilização

Converse com a comunidade sobre a realização do campeonato e estabeleça os princípios a ser valorizados, como cooperação e solidariedade. O ideal é que eles já estejam no projeto político-pedagógico (PPP) da escola. Organize encontros para ouvir as ideias dos participantes  sobre modalidades e regras. Registre o que for conversado por escrito.

  •  2ª etapa | Planejamento

Distribua funções. O objetivo é incluir até os alunos que não possam ou não queiram jogar. Mostre que o importante é participar. Uma boa opção é organizar as seguintes comissões: regulamento, que cuida da definição de aspectos gerais (objetivos do campeonato, datas, horários, locais etc.) e específicos (modalidades e regras, composição das equipes e duração das partidas); identidade visual, para criar logotipos, convites, placares, bandeiras e uniformes; divulgação, que produz fotos, informes, blogs, jornais etc.; arbitragem, que fiscaliza e aplica as regras durante os jogos (pode ser realizado por professores de educação física, pais ou alunos mais velhos); cerimonial, responsável pela abertura e pelo encerramento, o que envolve a preparação de apresentações, desfile das equipes etc.; e premiação, que elabora os tipos de prêmios a ser entregues.

  • 3ª etapa | Desenvolvimento

Reserve momentos para que as comissões desempenhem suas funções, com um professor monitorando cada uma delas. faça um checklist das providências necessárias à realização do evento (materiais, espaços, escala de funcionários, alimentação etc.) e agende uma reunião com os representantes dos grupos para se certificar que tudo está caminhando. Divulgue com antecedência para o público interno e, se for o caso, para o externo.

  •  4ª etapa | Realização

Durante os dias do campeonato, continue monitorando o trabalho das comissões. A de divulgação pode publicar em blog ou jornal fotos, relatos dos participantes e resultados das partidas. Gestores e professores também precisam anotar o que for observado para posterior análise. Na cerimônia de encerramento, podem ser distribuídos certificados de participação para todos os alunos e também ser entregues prêmios por equipes e para destaques como "artilheiro", "fair play" e "maior pontuador".

 

Avaliação

Reúna gestores e docentes para avaliar se o objetivo principal ? ter um torneio baseado na cooperação ? foi alcançado. Para isso, podem ser usados os registros feitos para divulgação e também as observações da equipe escolar. Vale consultar os estudantes sobre o que eles aprenderam por meio de uma roda de conversa ou por produção escrita.


Ilustrações: Adriel Contieri

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