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A formação profissional e pessoal

Cursos que dão direito de ensinar, pós-graduação e outras maneiras de continuar se aperfeiçoando

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NOVA ESCOLA
Formação inicial recebe críticas

A discussão é recorrente entre especialistas: tanto os cursos de Pedagogia quanto os de licenciatura colocam cada vez mais novos professores no mercado de trabalho, mas a qualidade da formação, com frequência, deixa a desejar. Para se ter uma ideia, apenas 3% dos cursos de Pedagogia foram considerados excelentes no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) em 2008, quando essa graduação foi foco de análise. Uma das deficiências mais graves desses cursos é que não ensinam a dar aula. Isso ocorre por dois motivos.
O primeiro é que a maior parte do que é ministrado na graduação não se refere diretamente à essência do trabalho docente. Com base na análise do currículo de 71 cursos de Pedagogia e licenciatura, a pesquisa Formação de Professores para o Ensino Fundamental: Instituições Formadoras e seus Currículos - realizada pela Fundação Carlos Chagas (FCC) sob encomenda da Fundação Victor Civita (FVC) em 2008 - revelou que apenas 28% das disciplinas se referiam a conhecimentos profissionais específicos, ou seja, tratavam de como e o que ensinar.
O segundo motivo: ainda que tenham um currículo mais recheado com as bases teóricas fundamentais para a docência, não é oferecido aos estudantes um contato efetivo com a prática. Isso porque a carga horária mínima de estágio exigida por lei nem sempre é cumprida da melhor forma. Por exemplo, pode faltar uma boa orientação por parte do professor da universidade responsável pelo estágio, assim como apoio na unidade. "A formação inicial tem de apresentar bem o universo da escola e levar o estudante a fazer reflexões", resume Marina Muniz Rossa Nunes, pesquisadora da FCC.

14% é o percentual de universitários do país que frequentam cursos que habilitam para atuar na área de Educação.

Fonte Censo da Educação Superior 2009.

Mais formados
De 2002 a 2009, a quantidade de estudantes que se graduaram em Pedagogia e em alguma licenciatura registraram crescimento semelhante

Fonte Censo do Ensino Superior 2009.

Quem ensina onde

Os cursos superiores que habilitam os professores da Educação Básica são os de Pedagogia e todas as licenciaturas. Mas, conforme o caminho escolhido na graduação, o iniciante irá atuar em diferentes ciclos de ensino. Confira
Pedagogia Quem conclui esse curso pode atuar como professor polivalente na Educação Infantil e nos primeiros anos do Ensino Fundamental - nesse caso, tanto com crianças quanto em turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA).
Licenciaturas Formam os chamados professores especialistas, que lecionam a disciplina da sua graduação nos anos finais do Ensino Fundamental e no Médio. Esses educadores, igualmente, podem assumir tanto classes do ensino regular quanto de EJA nesses ciclos. No caso de algumas licenciaturas, como Arte e Educação Física, atuam também no início do Fundamental, dando aulas da referida disciplina específica.


160 é o número de cursos de Pedagogia que apresentaram rendimento insuficiente no Enade 2008. O número equivale a 14% do total do país.


A seleção do que vem depois

E scolher a pós pode não ser uma tarefa simples. As possibilidades são muitas: alfabetização, EJA, gestão, psicopedagogia, inclusão... "Uma especialização pode focar os temas com os quais o professor tem mais afinidade, mas que não foram aprofundados na graduação", sugere Ana Prince, professora do curso de Pedagogia e pesquisadora da Universidade do Vale do Paraíba (Univap). O mais interessante, porém, é que tenha conexão com sua área de atuação, para produzir efeitos mais concretos na prática. Por esse motivo, o iniciante não precisa necessariamente fazer uma opção assim que terminar a graduação. A não ser que já tenha um objeto de investigação definido ou clareza sobre a área específica em que vai querer atuar, pode ser uma boa ideia esperar um período de experiência para vivenciar as dificuldades em sala de aula e encontrar os temas que o instigam a estudar mais.


As opções quando se quer mais
Sem contar o mestrado e o doutorado, três modalidades de cursos compõem o cardápio da formação continuada

Especialização São chamados assim os cursos de pós-graduação classificados como lato sensu, que têm carga horária mínima de 360 horas-aula e transformam o profissional em especialista em alguma área restrita. São mais rápidos, práticos e objetivos do que um mestrado ou um doutorado (que pertencem à categoria stricto sensu), mas não fornecem título, e sim certificado. Também não exigem a produção de uma dissertação ou de uma tese - basta uma monografia.
Aperfeiçoamento Fazem parte dessa categoria cursos ainda mais rápidos, com carga horária mínima de 180 horas-aula, que também se destinam a quem já possui um diploma de curso superior. Basicamente, visam atualizar e melhorar os conhecimentos e as técnicas profissionais.
Extensão Sempre de curta duração, os cursos dessa modalidade têm carga horária bem variável, mas o mínimo é de 30 horas-aula. Podem ser feitos por uem possui formação apenas em nível médio e são voltados para quem quer adquirir ou ampliar conhecimentos em determinados assuntos ou áreas (por exemplo, entender mais de Tecnologia da Informação).


A oferta de cursos a distância

A Universidade Aberta do Brasil (UAB) foi criada em 2006 pelo governo federal para estimular não só a formação inicial dos professores - preenchendo as lacunas mais urgentes -, como também a formação continuada. De um total de 697 cursos, pouco mais da metade se enquadra nessa segunda categoria - que se divide em três modalidades. Veja:

  • 44,2% formação inicial
  • 25,7% aperfeiçoamento
  • 19,8% especialização
  • 10,3% extensão
Fonte Pesquisa Políticas Docentes no Brasil: um Estado da Arte (Unesco /MEC), 2011

Temas em alta
Veja quais são as áreas em que há maior oferta de cursos na UAB

Fonte Pesquisa Políticas Docentes no Brasil: um Estado da Arte (Unesco /MEC), 2011

60% foi quanto cresceu a oferta de cursos de pós-graduação lato sensu a distância entre 2008 e 2010.

Fonte Ministério da Educação (MEC) e Associação Brasileira de Ensino a Distância (Abed).

4 atitudes fundamentais
Ainda que tenha uma formação universitária sólida e entre em uma escola que ofereça ótima capacitação em serviço, o professor precisa manter alguns hábitos pessoais que também contribuem para melhorar suas práticas. Veja os principais:

1 Ler muito. Não só livros pedagógicos ou relativos aos conteúdos que ensina, mas também literatura, jornais e revistas. "O docente precisa se atualizar, caso contrário, como poderá levar para as aulas fatos e discussões do momento?", pergunta Ana Prince, da Univap.
2 Ter uma agenda cultural. Ir sempre que possível ao cinema, ao teatro e a exposições possibilita que o professor se mantenha por dentro do que está sendo produzido no campo das artes e amplie sua bagagem pessoal. "Assistir a filmes que retratam a realidade dos jovens e das crianças, por exemplo, pode ajudar o professor a ter uma conversa atualizada com os alunos", afirma Tereza Perez, diretora executiva da Comunidade Educativa Cedac, em São Paulo.
3 Usar e abusar da internet. A rede dá acesso (gratuito) a múltiplas informações. Possibilita consultar revistas e artigos científicos - a plataforma Scielo (www.scielo.org), disponibilizada pelo governo federal, é um dos locais da rede em que são encontradas produções acadêmicas - ou "visitar" grandes museus do exterior. Ou, ainda, ler notícias de todo o planeta e até descobrir o que ocorre em um universo bem específico, como o do hip hop. Só é preciso saber selecionar.
4 Participar de palestras e workshops. Se a Secretaria de Educação do estado ou do município oferece uma boa programação de palestras ou um colega vive dando dicas dos workshops gratuitos, vale arranjar tempo. "Às vezes, uma palestra dá a oportunidade de pensar em questões que talvez não surgissem no dia a dia em sala de aula", diz Gisele Antunes Rocha, doutoranda em Educação na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).


Presencial ou a distância, o que vale mais?

A grande vantagem do ensino a distância é a possibilidade de atender pessoas que não podem marcar presença cotidianamente em uma sala de aula. Ele também é a solução para quem mora em uma cidade onde não há universidades. De qualquer forma, os especialistas ressaltam que o fato de pertencer a uma ou outra modalidade não deve ser a principal preocupação ao escolher uma graduação ou uma pós. "O importante é procurar uma instituição que esteja entre as que têm o melhor conceito e evitar aquelas que pensam em Educação como a venda de um serviço", ressalta Nelson Pretto, docente da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Em outras palavras, essencial é se cercar de garantias de que o curso selecionado dará mesmo uma boa formação. Os Referenciais de Qualidades para a Educação Superior a Distância, elaborados pelo Ministério da Educação (MEC), indicam o que o estudante tem direito de saber antes de se matricular:

  • Métodos de ensino da universidade.
  • Tecnologias usadas.
  • O tipo de material didático usado.
  • Os tipos de interação disponíveis.
  • Quanto tempo leva para o tutor responder às dúvidas.

Outra boa dica é verificar se a instituição está credenciada, se é reconhecida pelo ministério e se já foi fiscalizada. Para isso, basta pesquisar no site siead.mec.gov.br, que traz uma lista com todas as instituições que oferecem graduação e pós lato sensu a distância.


91,2% é o percentual de docentes que declaram ter intenção de continuar estudando sempre para melhorar sua formação.

Fonte Pesquisa As Emoções e os Valores dos Professores Brasileiros (Fundação SM e Organização dos Estados Ibero-Americanos, 2006).

69,5% é a parcela de professores que afirmaram participar frequentemente de cursos de formação continuada, em um levantamento com 3.584 entrevistados de escolas públicas e particulares de sete estados brasileiros.

Fonte Pesquisa As Emoções e os Valores dos Professores Brasileiros (Fundação SM e Organização dos Estados Ibero-Americanos, 2006).

Iniciativa pessoal conta muito

O aperfeiçoamento permanente não deve depender somente das ofertas externas, mas também de iniciativa própria. Se a escola em que trabalha tem uma coordenação pedagógica atuante, que garante uma boa formação em serviço, o professor tem mais é de comemorar e aproveitar. Se a realidade não for bem essa, porém, ele terá de arranjar vias alternativas, como cavar seus canais de troca com alguns docentes mais experientes. Se a rede em que atua oferece cursos de curta ou longa duração (alguns até de especialiação), ótimo. Ao professor, cabe apenas fazer sua parte, aderindo aos que mais interessam, ainda que não sejam obrigatórios. Se não houver essa chance, é indicado que cada um vá atrás de opções viáveis que ajudarão a melhorar suas práticas, seja uma especialização, um mestrado ou um doutorado. "A principal vantagem é que o docente estará em contato com a universidade, um lugar de geração de conhecimento. Isso já traz uma nova dimensão para questionar a prática cotidiana", diz Flávia Pereira Lima, professora de Ciências na rede pública federal em Goiânia e ganhadora do prêmio Educador Nota 10, da FVC.


O que saber para atuar em EJA

Está aí um bom exemplo de quando uma especialização pode ajudar, e muito. "Embora o curso não seja obrigatório para atuar com a EJA, esse é um segmento que tem demandas muito específicas e precisam ser desvendadas pelo professor", afirma Vera Trevisan de Souza, professora da PUC-Campinas. Para começar, é preciso entender que os mecanismos de aprendizagem de um adulto não são iguais aos de uma criança. Além disso, os alunos de EJA trabalham o dia todo, em geral têm problemas familiares a resolver e costumam entrar em sala de aula cansados, preocupados e estressados. Alguns permaneceram muito tempo fora da escola e há até aqueles que nunca estudaram e chegam com a certeza de que não são capazes de aprender. Não à toa, as taxas de evasão escolar nas turmas desse segmento são acentuadas. "Estudar teorias específicas ajuda a refletir sobre tantas dificuldades e a encontrar estratégias eficientes para ensinar nesse segmento", acrescenta Vera.


286 mil foi o total de matrículas nos cursos de Pedagogia a distância em 2009, o que garantiu à área a primeira colocação no ranking das mais procuradas entre as opções de ensino não presencial.

Fonte Censo da Educação Superior 2009.

As vantagens de fazer mestrado e doutorado

Embora seja uma medida bem-vinda, nenhum tipo de pós-graduação é exigido dos docentes da Educação Infantil, do Ensino Fundamental e do Médio. É diferente para o professor universitário. Em muitos concursos públicos para preencher vagas nas universidades federais e estaduais, o título de doutor ou, no mínimo, o de mestre são pré-requisitos. Mas há vantagens para quem atua na Educação Básica e decide fazer um mestrado. Uma delas é ampliar seus conhecimentos - não só em uma área específica de interesse, mas também em outras frentes, como na pesquisa acadêmica. Especialistas lembram que, em geral, os cursos de graduação não dão o suporte necessário para quem quer se tornar pesquisador - apesar de existir o trabalho de conclusão de curso (TCC), que mostra os primeiros passos. Fazer um mestrado (e até um doutorado depois) pode também proporcionar uma visão ainda mais ampla para avaliar as práticas em sala de aula, render um adicional de qualificação conforme o plano de carreira da rede e abrir novas perspectivas de atuação.

Palavra de especialista

"Nenhum curso forma uma pessoa totalmente pronta para enfrentar a realidade. Sempre é necessário um aprendizado quando ela inicia a carreira. Nessa fase, é importante receber apoio para construir sua identidade profissional. Os futuros professores têm pouco contato com as escolas durante a graduação e desconhecem esse universo. Quando vão para a sala de aula, não sabem como lidar com os alunos e como trabalhar com uma turma numerosa e heterogênea. Para garantir um bom preparo, eles devem, sim, interagir bastante com seus professores da universidade, para construir um profundo conhecimento teórico. Mas é fundamental se empenhar também em ter o máximo de contato com a prática nas experiências de estágio."
Marina Muniz Rossa Nunes, pesquisadora da FCC.

"Uma parte importante da formação continuada é a que acontece em serviço e toma a prática do professor como ponto de partida para a discussão e a reflexão. Por isso, é imprescindível que cada escola mantenha um trabalho de formação permanente e, com ele, ofereça apoio individual, mas, principalmente, possibilite a troca de experiência com os pares, mediada pela coordenação pedagógica. Para quem está começando, isso é primordial. Por melhor que seja a graduação, costuma ser assustador se defrontar com o contexto escolar, que é diverso, complexo e reproduz os problemas e conflitos da sociedade atual."
Vera Trevisan de Souza, professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas).

"O foco da discussão não deve ser se a modalidade a distância é melhor ou pior do que a presencial, e sim a qualidade do curso oferecido. Até porque, esse segundo grupo também está incorporando em suas aulas, e de um modo cada dia mais intenso, as tecnologias usadas pelo primeiro. E o maior problema que temos hoje atinge todos os cursos universitários, não importa a modalidade em que são oferecidos: em geral, eles não estão dando conta dos desafios contemporâneos, pois são muito distantes da realidade e excessivamente voltados ao mercado de trabalho. Precisamos de políticas educacionais que deem ênfase a uma formação mais plena do cidadão."
Nelson Pretto, professor da Faculdade de Educação da UFBA.

"Os alunos gostam do professor que domina o tema que ensina, pois têm respeito pelo conhecimento e percebem que ali está uma fonte de saber, alguém comprometido com a aprendizagem deles. Não dá para exigir que as crianças ou os adolescentes sejam responsáveis, estudiosos e participativos quando o próprio educador não tem essas características. Se ele é do tipo que chega atrasado e nunca traz nada de novo, não pode almejar alunos com um perfil diferente disso. O bom professor alimenta os estudantes com conteúdos, aulas e atividades interessantes. Eles respondem à altura."
Tereza Perez, diretora executiva da Comunidade Educativa Cedac.

"Um dos grandes problemas atuais da Educação diz respeito à metodologia levada para a sala de aula. Temos uma escola do século 21 com professores do início do século passado. Por isso, ela deixou de ser atraente para os alunos. Sem uma boa fundamentação teórica, muitos docentes, quando estão em classe, se lembram dos professores que tiveram no passado e reproduzem as mesmas práticas do tempo em que eram alunos. Nesse sentido, a pós-graduação é muito importante para qualificar o docente, mostrando a ele maneiras de montar aulas inovadoras. Todo esforço para se aprofundar nas questões didáticas e metodológicas que possam ajudar a suprir o que a formação inicial não deu é válido."
Ana Prince, professora do curso de Pedagogia e pesquisadora da Univap.

Plantão de dúvidas

Quem fez bacharelado, e não licenciatura, também pode dar aulas?
Não são poucos os professores na Educação Básica licenciados em uma disciplina, e que ensinam outra. Com frequência, lecionam duas - aquela para a qual foram formados e mais uma, como a dobradinha Geografia e História ou Matemática e Física. Isso acontece quando sobram vagas em uma determinada área, mas falta gente qualificada. Resta então abrir exceções. Pelo mesmo motivo, também podem ser convocados e admitidos os que têm diploma de bacharelado. Não é o que está previsto em lei. Se não há licenciados em Química, porém, admitir bacharéis é uma medida de emergência aceita. O conteúdo eles sabem. O problema é a falta de conhecimentos específicos sobre como ensiná-lo. Apesar de preencher a lacuna mais urgente dos docentes que não têm curso superior ser o objetivo principal dos programas do governo federal - como o Plano Nacional de Formação de Professores, lançado em 2009 -, o foco também se volta para dois outros grupos: os que não são formados na área em que ensinam e os graduados, mas não licenciados. Para os primeiros, é dada a chance de fazer uma segunda licenciatura e, para os segundos, abre-se a possibilidade de frequentar cursos de formação pedagógica complementares.

Os professores da Educação Básica das redes públicas podem se afastar do trabalho recebendo salário para fazer um mestrado ou uma especialização?
Depende da rede, pois os planos de carreira são bem diferentes uns dos outros. "Alguns colocam o direito à licença remunerada para formação e definem seus critérios", diz Juca Gil, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e colunista da revista GESTÃO ESCOLAR. Mesmo quando há tal possibilidade no sistema, os períodos permitidos, as condições e os procedimentos para obter a autorização do afastamento podem variar bastante.

Você sabia?

  • O artigo 62 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), de 1996, admite o curso de Magistério de nível médio "como formação mínima" para lecionar na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Tentativas de mudar isso estão sempre surgindo. Um projeto de lei que cria a obrigatoriedade da formação superior está hoje em tramitação.
  • As redes públicas devem seguir o que é estabelecido pela LDB para traçar o perfil geral do profissional que deseja ter em todos os níveis de seu sistema de ensino e criar suas regras de seleção, fazendo algumas adaptações. As escolas particulares, por sua vez, possuem autonomia para decidir o que exigir dos professores que entram em seus quadros.

O que aprendi

Atualização tem de ser permanente
"Para ser professor, é preciso estudar bastante e pesquisar constantemente formas de melhorar a prática. Os próprios alunos cobram isso. As crianças e os adolescentes da época em que comecei a lecionar eram mais interessados em aprender o que nós tínhamos para ensinar. Os de hoje questionam bastante por que precisam aprender alguns conteúdos. Nessas horas, podemos dar exemplos de aplicações para aquilo e, mais do que tudo, temos de explicar que eles necessitam de uma formação completa para elaborar a própria visão de mundo. Um dos principais obstáculos que enfrentei no início foi não me sentir preparada para tanta diversidade em classe. Na época não encontrei respaldo na graduação para lidar com eles. Nos livros, vemos somente a parte teórica, mas, chegando à escola, temos de desenvolver meios de dar conta de todos esses desafios. Não renego a teoria. Ao contrário, minha estratégia é buscar sempre subsídios nela para aprimorar minha didática e poder ensinar melhor."
Marcia Mariko Nagay, professora de Matemática nos anos finais do Ensino Fundamental da rede estadual de Londrina, a 390 quilômetros de Curitiba.

A prática desperta novos interesses
"Comecei a carreira lecionando na Educação Básica, quando ainda estava cursando a graduação de Letras Neolatinas. Logo no início, enfrentei uma classe de 45 alunos na faixa dos 11 anos que os outros professores chamavam de 'turma do mosquito pólvora', em função do bzzzzzzz que eles faziam. A minha vontade de ser uma boa professora, ajudando todos eles a aprender o máximo, me levou a aceitar o desafio com grande entusiasmo. Tanto que, já no ano seguinte, ganhei mais duas turmas. Minha estratégia para lidar com a indisciplina foi criar com a garotada clubinhos de aprendizagem que tinham presidente, vice-presidente, diretores de áreas, secretários etc. A ideia era que participasse o maior número possível de crianças. Daquele modo, eu conseguiria fazê-las assumir responsabilidades e se envolver de verdade no cumprimento dos códigos de conduta e dos objetivos definidos e aprovados em cada turma. Juntos, fizemos piqueniques nos fins de semana e visitas a educandários de crianças sem família, nos quais meus alunos apresentavam pequenas peças de teatro. Tudo isso me ajudou a conhecer melhor a turma, ao mesmo tempo em que despertou meu interesse por fazer uma especialização em Orientação Educacional, a fim de saber mais sobre Psicologia na área da infância e da adolescência. Hoje, acredito que, se o professor não aprende com os alunos, não tem nada a ensinar para eles."
Heloísa Lück, diretora educacional do Centro de Desenvolvimento Humano Aplicado (Cedhap), em Curitiba.

O poder da inovação
"Não concebo minha prática pedagógica sem o estudo. É ele que nos permite inovar e superar métodos tradicionais, mas que nem sempre funcionam. Isso tanto na hora de elaborar e planejar aulas, quanto no momento de ministrá-las e de pensar em processos de avaliação. Fiz licenciatura e bacharelado em Ciências Biológicas na Universidade Federal de Viçosa (UFV), depois mestrado em extensão rural também na UFV. Fora isso, cultivo o hábito de ler muito, sejam artigos científicos ou livros. Uma das motivações para meus estudos individuais é o incômodo que sinto com a forma como os conceitos são trabalhados em sala. Há muito a melhorar. Como o questionamento é fundamental em Ciências, acredito que essa é uma disciplina que pode colaborar bastante nisso. Percebo uma maior participação dos meus alunos quando apresento algo diferenciado, que os leva a pensar e os ajuda a formar conceitos. É esse o caminho. Minha segurança na hora de trabalhar vem muito daí, quando vejo que estou, de fato, contribuindo para uma formação mais qualificada das crianças."
Flávia Pereira Lima, professora de Ciências do Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação (Cepae), ligado à Universidade Federal de Goiás, e ganhadora do prêmio Educador Nota 10, da FVC.