Tradição oral abre caminho para reescrever o passado

Algumas lembranças, contadas pelos mais velhos, era tudo o que os alunos tinham sobre suas origens. Andrea resgatou o passado do povo tupiniquim e fez das crianças escritores da própria história

POR:
Meire Cavalcante
Legenda: Em busca das origens: Andrea e seus alunos entrevistam os mais velhos e trazem de volta a cultura de seu povo. Foto: Ricardo Benichio
Em busca das origens: Andrea e seus alunos entrevistam os mais velhos e trazem de volta a cultura de seu povo.
Foto: Ricardo Benichio

Os alunos da Escola Municipal Pluridocente Indígena Pau-Brasil, localizada na zona rural de Aracruz (ES), recebiam, de vez em quando, a visita de alunos de escolas urbanas. Muitos dos visitantes ficavam espantados com o que viam. Ou melhor, com o que não viam. Na aldeia, as crianças e os adultos não andam com o rosto pintado e de cocar na cabeça o tempo todo, moram em casas de alvenaria e assitem à televisão. "Por não se encaixarem nos estereótipos, as crianças sofriam discriminação sem sequer saber por quê", afirma a professora Andrea Cristina Almeida. Por isso, ela elaborou seu projeto, que teve duração de um mês. Com ele, além de aprender a ler e escrever, os alunos descobriram muito sobre suas origens e os hábitos de seus antepassados e entenderam as mudanças ocorridas ao longo dos anos que resultaram num modo de vida diferente.


Passo a passo e metodologia

1. Produção escrita, pesquisa e entrevistas
O primeiro passo foi levantar, pela escrita, o que os alunos sabiam sobre a história do povo tupiniquim e também descobrir em que pé estavam suas produções. Os primeiros textos (mais parecidos com relatos orais) serviriam para nortear as atividades seguintes e para que os alunos pudessem avaliar seu progresso e comparar as diferenças entre os gêneros textuais. Para estimular o grupo, Andrea lançou um desafio que fez brilhar os olhos da criançada: "Vamos escrever um livro?" Como ela queria ensinar a estrutura do relato histórico, leu com os alunos recortes de registros de viajantes que estiveram com os tupiniquins e estudou com eles as características desse texto. Em seguida, dividiu a turma em grupos para que pesquisassem os seguintes temas: moradia, alimentação, vestuário, artesanato, agricultura e organização social e política dos antepassados. Os alunos fizeram entrevistas com as lideranças e com os moradores da aldeia, consultaram livros e mapas e confeccionaram um quadro comparativo entre o modo de vida dos tupiniquins no século 16 e no século 21. Assim, perceberam o que permaneceu e o que mudou na cultura de seu povo. Durante a coleta de informações, a professora fez com os alunos uma ficha de controle em que anotou tudo o que eles haviam aprendido. Esse material serviria para a etapa seguinte.

2. Comparação de textos e informações
Com os dados em mãos e um texto inicial, os alunos puderam fazer as primeiras comparações - tanto no que se referia ao conteúdo quanto à estrutura do texto. Logo perceberam que a primeira escrita trazia informações superficiais e estava longe de ser um relato histórico. Além disso, aprenderam as diferenças existentes entre esse tipo de texto e um conto, por exemplo. Para organizar as informações, a professora fez uma produção escrita coletiva. Os alunos refletiram sobre o que pesquisaram e construíram, juntos, o texto, tendo a professora como escriba. Na hora de colocar as idéias no papel para reescrever o primeiro texto, feito no início do projeto, as crianças já conseguiam dividir as informações de maneira correta: levantando uma situação inicial, que era o modo de vida do povo tupiniquim antes da chegada dos viajantes portugueses e os primeiros contatos; e uma situação final, que retratava os hábitos atuais das crianças e de suas famílias. Mas dessa vez o trabalho foi feito com informações bem apuradas e consistentes. O projeto não caiu na condenação dos portugueses como desagregadores da cultura do povo tupiniquim nem tampouco colocou os índios em uma postura de vítima.

Após escreverem sobre suas pesquisas, os grupos deixaram os textos à disposição dos demais colegas. Assim, todos podiam sugerir mudanças e acrescentar informações nos textos finais, que comporiam o livro. Para isso, a turma usou como referência a ficha de controle, que trazia as informações de tudo o que os estudantes haviam pesquisado. Em seguida, eles fizeram ilustrações, elaboraram o índice e a dedicatória e escreveram um texto opinativo sobre o que haviam achado do projeto, que ficaria registrado na última página da obra. Por fim, fizeram um boneco do livro e definiram o título.

3. Confecção do livro
Após escreverem sobre suas pesquisas, os grupos deixaram os textos à disposição dos demais colegas. Assim, todos podiam sugerir mudanças e acrescentar informações nos textos finais, que comporiam o livro. Para isso, a turma usou como referência a ficha de controle, que trazia as informações de tudo o que os estudantes haviam pesquisado. Em seguida, eles fizeram ilustrações, elaboraram o índice e a dedicatória e escreveram um texto opinativo sobre o que haviam achado do projeto, que ficaria registrado na última página da obra. Por fim, fizeram um boneco do livro e definiram o título. 

HISTÓRIA

Tema do trabalho
Resgate da história tupiniquim

1ª e 2ª series

Objetivos e conteúdos

Andrea queria que sua turma conhecesse melhor o modo de vida do povo tupiniquim quando da chegada dos portugueses e, dessa forma, compreendesse as mudanças e diferenças em relação à maneira como as crianças vivem atualmente. Ela estudou com os alunos alimentação, cultura, habitação e artesanato do povo em 1500; a chegada dos navegantes portugueses ao atual território brasileiro; o sincretismo cultural que resultou do encontro entre os dois povos; as características do texto de registro histórico; a comparação deste com outros gêneros; ortografia; gramática; e noções de tempo (como anterioridade, simultaneidade, posterioridade).

Avaliação
Para acompanhar o desenvolvimento da turma, Andrea utilizou a produção de textos dos alunos ao longo de todo o projeto. A comparação entre os primeiros registros e o produto final (o livro) também serviu como meio de avaliação. A professora observou ainda o envolvimento e o desempenho das crianças nas práticas de leitura, nas entrevistas, nas produções coletivas e na elaboração de estratégias de pesquisa.

Quer saber mais?

Escola Municipal Pluridocente Indígena Pau-Brasil, R. Principal, s/n, 29190-000, Aldeia Pau-Brasil, Aracruz, ES, tel. (27) 3250-1845

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