Descobrir a própria história

Remanescentes de quilombos ainda esperam investimentos para formação de professores

POR:
Paola Gentile, Roberta Bencini

Em 1997 chegou ao Ministério da Educação uma carta de um pai kalunga, morador de um remanescente de quilombo no norte de Goiás. Ele pedia que fosse construída uma escola em sua comunidade, para que seus filhos não estivessem fadados a ler e escrever como ele. De fato, a mensagem não continha nenhuma palavra grafada corretamente e decifrá-la não foi tarefa fácil. Como no MEC não existia nenhum departamento que se ocupasse desse tipo de problema na época, foi destacada uma auxiliar técnica para visitar a área. Maria Auxiliadora Lopes iniciou esse trabalho e hoje cuida especificamente da educação quilombola.

Cerca de 2 milhões de pessoas moram em áreas remanescentes de quilombos no Brasil. Não se sabe quantos povos vindos da África ainda estão representados, por causa da miscigenação entre eles, mas sabe-se que todos são descendentes de escravos que habitavam essas áreas no dia 13 de maio de 1888, quando foi promulgada a Lei Áurea. Das 743 comunidades reconhecidas, apenas 29 têm o título definitivo da terra, documento imprescindível para a construção de uma escola pública. Também é desconhecido o número de alunos, mas sabe-se que a maioria dos adultos é analfabeta e que, assim como as crianças e os adolescentes em idade escolar, eles necessitam de um programa educacional que contemple sua história e sua cultura.

Contra a discriminação

Ainda são muitas as barreiras a vencer para implantar um ensino voltado para a realidade dos povos negros, a começar pela infra-estrutura. Muitos agrupamentos já contam com uma ou duas salas de aula, mas quase sempre em construções cobertas de palha, impossíveis de usar em dias de chuva. O elevado número de professores leigos impede que a garotada vá além da 4ª série. Quem termina essa etapa deve procurar vaga em instituições urbanas, que, além de distantes, nem sempre recebem de forma respeitosa esses alunos. A discriminação e o preconceito aparecem inclusive nos livros didáticos e no currículo, distantes do modo de vida dessas comunidades. Resultado: grande parte abandona os estudos.

Antes mesmo da LDB e dos PCN, algumas entidades ligadas ao movimento negro e à igreja católica dedicavam uma atenção especial a esses grupos. Uma delas é o Centro de Cultura Negra do Maranhão, que oferece desde 1995 cursos de formação para professores que lecionam em oito comunidades do estado.

O bom exemplo kalunga

Entre 1998 e 2001, primeiros anos do trabalho do MEC, uma equipe visitou diversas comunidades negras para fazer o levantamento de suas necessidades. Essa iniciativa deu origem ao Projeto Vida e História das Comunidades Remanescentes de Quilombos no Brasil. O primeiro projeto que virou realidade foi justamente o dos kalungas. Pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) pesquisaram a história e o modo de vida desse grupo e produziram um livro, um caderno de atividades, um encarte para o professor e uma exposição itinerante de fotografia.

O material serve de base para o aprendizado da língua nativa e da portuguesa, da Geografia, de Ciências e de Matemática, relacionando sua realidade com outros modos de vida, urbanos ou rurais. "É uma forma de inseri-los no mundo contemporâneo e de deixar explícita a pertinência de sua cultura", afirma Glória Moura, professora de Educação e Diversidade Cultural da UnB e coordenadora do estudo. "Cada uma das comunidades remanescentes de quilombos merecia um trabalho de resgate da cultura semelhante ao que foi feito com os kalungas, pois uma história de mais de 300 anos de resistência merece ser conhecida por todos", afirma Maria Auxiliadora. O Plano Plurianual 2004-2007, ainda em discussão no governo, prevê recursos para iniciativas semelhantes em outras regiões do país.

Conhecer os semelhantes

Alguns municípios recebem verba para trabalhar com comunidades de afro-descendentes. Sítio do Mato, no interior da Bahia, ganhou em 1999 recursos do Fundescola para a construção de um prédio na comunidade de Barro Vermelho, a 120 quilômetros da cidade, onde estudam 300 crianças, jovens e adultos. O material didático utilizado, por enquanto, é o mesmo que foi criado para os kalungas, mas a Universidade Federal da Bahia está formando 14 professores quilombolas do próprio agrupamento que vão ajudar no resgate da história desse grupo. Com o avanço na formação dos educadores, a escola local já oferece classes até a 6ª série. "Em dois anos pretendemos ter instalado lá o Ensino Fundamental completo", prevê Nilza Cruz, secretária municipal de Educação.

"Meu maior orgulho é ter estudado. Eu consegui sair daqui, mas fiz questão de voltar para mostrar a meus alunos que eles podem fazer a mesma coisa: voltar, para a comunidade kalunga nunca se acabar"

Wanderléia dos Santos Rosa, professora kalunga da Escola Estadual Kalunga de Monte Alegre de Goiás (GO)

Os números dos quilombos
743
comunidades
2 milhões de pessoas
Fonte: FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES

Quer saber mais?

Estratégias e Políticas de Combate à Discriminação Racial, Kabengele Munanga (org.), 304 págs., Edusp (disponível só em bibliotecas)

Internet
No site www.palmares.gov.br você encontra diversos projetos desenvolvidos junto a comunidades quilombolas, notícias e textos sobre os negros no Brasil  

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