Futebol, resistência e política na Era Vargas

A turma vai aprender que o jogo serviu como forma de dominação e de luta no período

POR:
Camila Camilo
A turma vai aprender que o jogo serviu como forma de dominação e de luta no período. Bruno Algarve

Quase todo mundo concorda: o futebol é o esporte nacional. Mas talvez os alunos não saibam que muitos governos na história do Brasil colaboraram para consolidar a percepção. Um dos primeiros foi Getúlio Vargas (1882-1954). O jogo, que começava a se popularizar, passou a ser usado como instrumento de propaganda e controle ideológico, de forma semelhante ao que ocorria na Itália fascista. O tema é mote da sequência didática proposta por Lucas Oliveira, professor da Escola Santi, em São Paulo.

Para explorar esse rico cenário em sala, o primeiro passo é levantar os conhecimentos da turma com perguntas como "Por que o futebol é o esporte nacional?", "O que ele tem a ver com a política?" e "Quais as relações entre governos e esporte?". Como o jogo é um tema popular, é esperado que os estudantes gostem de falar a respeito. Conduza o debate sem se concentrar nas preferências por clubes, que podem surgir, mas não são o foco. É possível que a turma reproduza a visão de que o jogo é um meio de entretenimento, e não uma faceta cultural que serve a interesses econômicos e estatais. Em seguida, peça que, em duplas, os jovens discutam e registrem suas respostas para as questões.

Convide a turma para a leitura de uma notícia publicada no Jornal do Brasil. O texto trata da cerimônia de inauguração do Estádio do Pacaembu, na capital paulista, que contou com a presença de Vargas, então chefe de Estado. "É importante que os alunos com deficiência intelectual tenham acesso ao texto no Atendimento Educacional Especializado (AEE) previamente", diz Cláudia Dantas, psicopedagoga clínica e escolar. Lembre-se que, ao utilizar uma fonte histórica como o jornal, é preciso discutir quando o material foi produzido, por quem e com que objetivo. "Os alunos precisam ter claro que se trata de uma construção, e não do relato preciso do que ocorreu", diz Aléxia Pádua Franco, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Vale lembrar que o veículo não criticava Vargas.

Indique alguns pontos que as duplas devem discutir e anotar: data, assunto, personalidades presentes no evento e as atividades que poderiam ser desenvolvidas no Pacaembu. Os jovens com deficiência intelectual poderão receber um quadro já demarcado com as informações solicitadas e um espaço a ser preenchido ao lado. O discurso de Vargas merece uma análise específica, já que contém alguns elementos do ideário da época: o futebol como um esporte nacional, a valorização da atividade física como meio de disciplinar o corpo, a função de propaganda e de exaltação do regime com a construção do estádio. É possível destacar algumas frases dele, como: "Este monumento consagrado à cultura cívica da mocidade em pleno coração da capital paulista é motivo de justo orgulho para todos os brasileiros e autoriza a aplaudir merecidamente a administração que o construiu".Também vale observar o olhar higienista das políticas da época: "Assistimos ao desfile de 10 mil atletas em cujas evoluções havia a precisão e a disciplina conjugadas no simbolismo das cores nacionais. Diante dessa demonstração de mocidade forte e vibrante, índice eugênico da raça - mocidade em que confio e que faz orgulho de ser brasileiro". As respostas de todos devem ser socializadas.

Em seguida, exiba imagens da concha acústica do Pacaembu e de cartazes de comícios oficiais. Relacione-as com a possível utilização da concha nos comícios realizados no governo Vargas. Sintetize as discussões no quadro e comente que o futebol foi incentivado pelo presidente para criar essa sensação de pertencimento, ao mesmo tempo que os comícios tinham como objetivo levar os trabalhadores a se identificar com ele, como se nota no cartaz da comemoração do dia 1º de Maio.

Futebol como resistência

O jogador Leônidas foi o primeiro a usar sua imagem para vender produtos. Conhecido por seus gols de bicicleta, o atleta foi celebrado pelo governo Vargas. Bruno Algarve
O jogador Leônidas foi o primeiro a usar sua imagem para vender produtos. Conhecido por seus gols de bicicleta, o atleta foi celebrado pelo governo Vargas

O jogo foi usado como instrumento de propaganda, mas também serviu como forma de contestação nas camadas populares, de maneira consciente ou não - e isso merece ser problematizado. Diga que ele deixou de ser predominantemente branco e passou a admitir mestiços, mais pobres. Ídolos negros, como Leônidas da Silva (1913-2004), foram alçados ao estrelato. De origem humilde, ele começou a carreira em um time de subúrbio. Ficou conhecido como Diamante Negro e foi o primeiro futebolista da história do Brasil a ser garoto-propaganda de inúmeras marcas, inclusive do chocolate de mesmo nome. Pergunte se a turma conhece o doce e informe que ele foi criado em homenagem ao jogador. Vale comentar também que o regime tentou cooptá-lo, celebrando o atleta - o mais popular de sua época - como a personificação do homem trabalhador e disciplinado que o Estado queria promover. Na verdade, ele estava longe de ser um bom exemplo para as autoridades. Embora não se opusesse de forma consciente ao governo, a resistência do jogador se manifestava por seu comportamento - que valorizava a diversão e o prazer. Para seus admiradores, ele representava a transgressão à ordem vigente, já que não aceitava os valores do Estado. Fontes podem ser apresentadas (bit.ly/reportagem-leonidas, bit.ly/biografia-leonidas e bit.ly/futebol-resistencia).

Depois dessa discussão, é hora de retomar os registros do início. Sugira a realização de uma síntese coletiva, com a produção de um quadro que compare os momentos de dominação e resistência no período. A garotada vai entender que o esporte, símbolo da brasilidade, pode ser utilizado para afirmação e contestação de um governo autoritário, como ocorreu na Era Vargas.

1 Futebol versus política Apresente o assunto e levante o que os estudantes já sabem sobre a relação entre o esporte e o governo.

2 Fontes históricas Apresente uma notícia de jornal sobre a inauguração do Pacaembu. Discuta com a turma o texto, chamando a atenção para o posicionamento do jornal e para os elementos da ideologia de Vargas. Apresente fotos e cartazes, discutindo sobre eles.

3 Resistência e opressão Apresente exemplos que mostrem que o futebol foi usado pelas camadas populares como forma de resistência. Proponha que todos produzam um quadro coletivamente sobre como é possível utilizar o futebol politicamente.

"Leônidas simbolizava as pessoas que resistiram ao regime"

Denaldo Alchorne de Souza
Denaldo Alchorne de Souza

O historiador Denaldo Alchorne de Souza é membro do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre Futebol e Modalidades Lúdicas (Ludens) e autor de O Brasil Entra em Campo! Construções e Reconstruções da Identidade Nacional (1930-1947) (Ed. Annablume). 

Por que Leônidas foi tão popular?
DENALDO ALCHORNE DE SOUZA Ele se tornou um mito graças a características como a excepcionalidade. Até hoje, atribui-se a criação do gol de bicicleta a Leônidas, o que pode não ser verdade. No primeiro jogo do Brasil na Copa de 1938, contra a Polônia, a chuteira dele estava com problemas. Ele fez um gol com os pés descalços – o único de que se tem notícia em Copas do Mundo. Depois do evento, os jornais começam a traçar uma biografia do jogador. Há uma foto do Globo Esportivo em que ele aparece na escola, com a seguinte legenda: "Nota-se que desde novo ele ia ser diferente dos outros". Isso passa a impressão de que ele estava predestinado a ser quem foi. Outra característica que define o mito, segundo a Antropologia, é a identificação. Domingos da Guia (1912-2000), um exemplo do homem disciplinado que o Estado queria promover, saía dos jogos e ia ficar com a família. Já Leônidas, dava autógrafo, conversava, cumprimentava todo mundo. Houve um concurso para saber quem era o futebolista mais popular do Rio de Janeiro e ele teve mais votos que todos os outros juntos. Depois disso, Leônidas virou garoto-propaganda. Todo empresário queria associar a imagem do ídolo ao seu produto. Ele deu nome a relógio de pulso, geladeira, rádio, chocolate...

A imagem de Leônidas foi usada pelo regime?
SOUZA O governo Vargas até tentou associar a imagem de Leônidas à figura do homem ideal, mas não conseguiu. Para a imprensa e para o Estado, ele não passava de um moleque safado, de um "preto sem vergonha". Em1938, o cronista Mário Filho (1908-1966), que escrevia no Jornal dos Esportes e em O Globo, tentou explicar o sucesso de Leônidas dizendo que ele tinha se disciplinado. Isso não era verdade. Em 1941, por exemplo, ele se envolveu em uma briga jurídica contra o Flamengo. O clube foi contratado para uma excursão por causa de Leônidas, mas ele não jogou alegando estar contundido, o que o clube negava. Em outro episódio, o governo trouxe à tona uma acusação antiga de falsidade da certidão de reservista. Na visão do Estado Novo, era demais aceitar que um esportista passasse por cima da hierarquia. Ele foi condenado pela Justiça Militar e ficou na cadeia durante oito meses. Há outros pontos polêmicos. Certa vez, Leônidas foi denunciado por roubar uma ex-amante. Ele bebia, fugia dos treinos, frequentava gafieiras e brigava constantemente com os repórteres.

O jogador não se opunha abertamente ao governo. Podemos dizer que ele resistiu ao regime, mesmo que de forma inconsciente?
SOUZA Sim, pois Leônidas simbolizava as pessoas que resistiram ao regime. Justamente o jogador mais popular foi o oposto da ideologia levantada pelo Estado Novo. Essa popularidade mostra que a identidade nacional não é criada só de cima para baixo. O Estado queria uma nação ordeira e disciplinada, mas a população se identificava com outros valores, ligados ao prazer e à diversão, que Leônidas personificava. Ele era visto como um homem do povo, alguém que tinha sido maltratado pela vida, mas que gostava de aproveitá-la mesmo assim.

Que tipo de fonte histórica ajuda a discutir esse assunto em sala?
SOUZA Recomendo as crônicas de Mário Filho. Ele é autor de uma obra obrigatória para quem se interessa pelo tema, que sugiro ao professor: O Negro no Futebol Brasileiro (344 págs., Ed. Mauá, tel. 21/ 3479-7422, 64,90 reais). Também indico as crônicas de Thomaz Mazzoni (1900-1970), outra figura importante da imprensa esportiva da época. Hoje temos acesso mais fácil a coleções de jornais pela internet. O Globo, O Estado de S. Paulo, a Folha de S.Paulo e o Jornal do Brasil têm edições antigas digitalizadas. É possível buscar a primeira página dos jornais durante a Copa do Mundo de 1938 ou as notícias sobre o Leônidas e levar para a turma analisar.

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