Esporte "de menino" ou "de menina"? Isso não existe!

Na escola, todos devem ter a experiência de vivenciar as práticas esportivas juntos, sem a distinção de gênero. Aproveite os Jogos Olímpicos de Londres, que acontecem em julho, para discutir a questão com a garotada

POR:
Gabi Portilho
Os alunos da EMEF Santa Maria aprendem golpes de judô. Foto Calil Neto. Ilustração Raphael Salimena
Os alunos da EMEF Santa Maria aprendem golpes de judô. Além de conhecer a luta, meninos e meninas provam ter capacidades semelhantes

Um recorde importante será quebrado nos Jogos Olímpicos de Londres, que acontecem em julho deste ano. E não tem nada a ver com velocidade e tempo de prova. Pela primeira vez na história, as mulheres competirão em todas as modalidades. E, para a edição de 2016, mais novidades: segundo o Comitê Olímpico Internacional (COI), todos os novos esportes incorporados aos jogos - como o rúgbi - deverão ter disputas para os dois sexos.

Realmente, a democratização das categorias é um passo em direção à superação da diferença entre gêneros (leia, abaixo, a linha do tempo que apresenta as principais conquistas das mulheres nos Jogos Olímpicos). No entanto, na maioria dos esportes, eles e elas seguem competindo separadamente - em Londres, das 33 modalidades, só duas terão provas mistas: o hipismo e o badminton.

Você deve estar se perguntando se homens e mulheres têm condições físicas de competir juntos e uns contra os outros. A resposta é sim. Segundo Marcos Neira, docente da Universidade de São Paulo (USP), o fato de eles serem tachados como mais rápidos e mais fortes que elas não corresponde a uma realidade comprovada. "Se não existissem ideias como essas, meninos e meninas seriam vistos da mesma maneira tanto na escola quanto na sociedade", explica. 

Vídeo: Lutas na Educação Física 

Plano de aula: O atletismo na Educação Física escolar


Polêmico no mundo esportivo, o assunto pode ser analisado especialmente na escola, que deve proporcionar a prática esportiva para além das competições. "A Educação Física tem de propor a discussão sobre as diferenças, levar a turma a pensar a respeito do tema e desconstruir ideias produzidas pela cultura. Às vezes, estereótipos como ‘correr é coisa de menino’ são alimentados pelos próprios educadores", afirma Neira.

As mulheres nos Jogos Olímpicos
A presença delas no maior evento esportivo foi se ampliando aos poucos. Confira algumas conquistas

As mulheres nos Jogos Olímpicos. Ilustração Raphael Salimena

1900, Paris - Atletas femininas têm participação discreta no evento e disputam somente duas modalidades: golfe e tênis

1928, Amsterdã - Elas começam a disputar as provas de atletismo. A conquista tem papel fundamental para o movimento feminista da época

1984, Los Angeles - O boom feminino no mercado de trabalho se reflete nos esportes. Elas ganham a permissão para disputar a modalidade de tiro

1996, Atlanta - Provas de mountain bike e partidas de futebol e de vôlei de praia também passam a ser disputadas por mulheres

2012, Londres - O boxe feminino estreia. O fato marca uma conquista: a partir dessa edição, todos os esportes contarão com equipes femininas

Fonte Comitê Olímpico Internacional (COI) e Comitê Olímpico Brasileiro (COB)

Até os 11 anos, o físico feminino e o masculino são parecidos

Lutar tae kwon do também fez parte das aulas na Santa Maria. Foto Calil Neto. Ilustração Raphael Salimena
Lutar tae kwon do também fez parte das aulas na Santa Maria. A experiência pôs fim ao medo das meninas e ao preconceito dos garotos

Um bom exemplo de como a prática esportiva é construída com base em discursos culturais é o futebol. Para a maioria dos brasileiros, esse ainda é um esporte reservado aos homens, a ponto de as partidas da seleção masculina serem televisionadas sempre, enquanto as da feminina raramente têm espaço. Já nos Estados Unidos, as jogadoras dominam mais a cena e os campeonatos de que participam fazem sucesso na mídia local.

No ambiente escolar, é possível verificar fatos que contradizem (pré)conceitos com raízes culturais. "Quando as turmas do 1º ao 5º ano fazem flexões de braço, muitas vezes as meninas têm resultados superiores no que diz respeito à quantidade de repetições", diz Caio Costa, formador de professores do Instituto Esporte & Educação, em São Paulo. Isso ocorre porque até 11 anos (aproximadamente), as mudanças hormonais são mínimas, o que torna o corpo masculino e o feminino muito semelhantes fisicamente do ponto de vista esportivo.

Ao desenvolver um projeto sobre lutas para as aulas de Educação Física, a professora Isabella Brasil propôs que as meninas do 1º ao 5º ano conhecessem esportes como tae kwon do e judô e também que experimentassem lutar com os meninos. No início, os alunos da EMEF Santa Maria, em Bauru, a 331 quilômetros de São Paulo, torceram o nariz. "As garotas ficaram com medo de se machucar, e os colegas afirmaram que ‘lutar era coisa para meninos’", conta.

O trabalho de Isabella tinha objetivos relacionados aos esportes envolvidos (como explorar o equilíbrio no tae kwon do), mas o ponto central era a vivência mista. Inicialmente, a educadora apresentou à turma esse e outros esportes (sumô, caratê, jiu-jítsu e capoeira) e propôs que todos experimentassem lutar em duplas formadas por um menino e uma menina. O desafio era realizar movimentos básicos de cada um. A classe aprendeu que as lutas não são atos de violência, e sim esportes que permitem aprender a lidar com a própria força e a respeitar a do outro. "As crianças perderam o medo e o preconceito", diz Isabella.

Durante as aulas práticas, não foram elaboradas regras específicas, além das oficiais. "Fazer adaptações levando em conta os gêneros é entrar no mérito das diferenças que geram, por si só, preconceitos", explica a professora. Com o tempo, os garotos não só passaram a respeitar as colegas como também as incentivaram a participar mais das aulas.

Ao avaliar a turma, Isabella concluiu que, independentemente do sexo, todos tinham capacidades bastante semelhantes na realização dos movimentos. "Muitas vezes, as meninas são menos incentivadas a praticar atividades físicas fora do contexto escolar, enquanto os garotos, mesmo em momentos de lazer, são extremamente ativos", comenta.

Desconstruindo discursos arraigados na cultura e propondo que as crianças pratiquem esportes e brinquem juntas, você ensina a turma a superar as questões de gênero e tratar o esporte como algo que proporciona saúde e lazer, mas também o exercício da cidadania.

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