Ir para o conteúdo Pular para o menú principal
ANÚNCIO
Você sabia que é possível salvar matérias para ler mais tarde? Use o botão icone ler mais tarde Ler mais tarde
icone menu

E-mail, mais um gênero para ensinar à garotada

Tal como as cartas e bilhetes, as mensagens trocadas via internet precisam ser exploradas em sala de aula. Além de analisar as características delas, é importante estimular os alunos a escrevê-las

por:
NL
Noêmia Lopes
E-mail, mais um gênero para ensinar à garotada. Ilustração: Raphael Salimena

Encaminhar os estudantes a participar de atividades da vida social que têm a ver com ler e escrever é a base do bom trabalho de produção de texto. Para isso, é fundamental que eles trabalhem com biografias, artigos, poesias, receitas, notícias, contos, fábulas, cartas, bilhetes, e-mails...

A mensagem eletrônica também deve ser estudada na escola porque faz parte do rol dos gêneros escritos, tal como os outros tipos de texto, de acordo com a definição do filósofo russo Mikhail Bakthin (1895-1975). Segundo ele, todo gênero envolve um tema (ou seja, um conteúdo que lhe é característico), um estilo (que é o tom do discurso) e uma forma composicional (organização e estrutura do texto). E mais: um gênero se constitui para atender a demandas de comunicação e expressão próprias de situações típicas de determinada esfera de atividades, pública ou privada.

Por ser um tipo textual novo, é normal que algumas pessoas questionem se o e-mail é realmente um gênero, ainda que preencha os requisitos do conceito de Bakthin. "Vivemos num mundo que muda cada vez mais rápido, e a língua não pode deixar de acompanhar esse ritmo", diz Maria Cristina Zelmanovits, pesquisadora do Centro de Estudos e Pesquisa em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), em São Paulo.

Na escola, há muito o que ser explorado. É necessário planejar aulas para esmiuçar as características marcantes e trabalhar a fundo o potencial de comunicação das mensagens eletrônicas. Afinal, elas podem ser usadas para convidar, notificar, solicitar, comprar, denunciar, relatar e noticiar, entre uma infinidade de possibilidades. "Os alunos precisam aprender a fazer bom uso da comunicação virtual, e para isso o professor deve ensinar o e-mail da mesma forma que a carta e o bilhete, por exemplo", explica Cristhiane de Souza, assessora técnico-pedagógica do Ensino Fundamental e Médio da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo.

Atividade de escrita de e-mails com propósito real

Você pode até pensar que os alunos conhecem o mundo tecnológico mais que você e que ao apresentar o e-mail vai chover no molhado. Considere, porém, que nem sempre eles usam essa ferramenta da maneira mais adequada. A professora Camila de Almeida Loureiro Ribeiro descobriu exatamente isso ao conversar com os estudantes do 5º ano do Sesi de Petrópolis, em Petrópolis, a 65 quilômetros do Rio de Janeiro.

Para eles, as mensagens eletrônicas serviam apenas para se comunicar com os amigos da classe, de forma semelhante ao que é feito por meio das redes sociais. Ninguém soube apontar outros usos, como enviar uma solicitação aos gestores da escola ou se corresponder com parentes distantes. A turma foi então desafiada a explorar os diferentes propósitos desse tipo de comunicação, e Camila ressaltou que o tom do texto pode ser mais ou menos formal, a depender do destinatário escolhido.

Outra etapa importante do trabalho foi a comparação com gêneros semelhantes. Para iniciar a discussão, Camila questionou quais instrumentos de comunicação pedem que identifiquemos quem vai receber a mensagem. Rapidamente as crianças mencionaram as cartas e os bilhetes. A educadora pediu então que elas discorressem sobre as diferenças entre os três. Uma atitude relevante, segundo Leila da Silva, também assessora técnico-pedagógica do Ensino Fundamental e Médio da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. "Apesar de todos servirem para contar algo a alguém, opinar, sugerir ou lembrar, a delimitação do assunto e a agilidade de tempo de chegada ao destinatário são características distintas entre esses gêneros."

Depois de muita conversa e análise de bons exemplos, Camila instruiu os alunos a criar endereços pessoais e também ela abriu uma conta. Era chegada a hora de produzir. As crianças escreveram para os colegas e para a professora sobre diversos assuntos - tudo previamente combinado como tarefa de casa. Antes do início das férias de julho, ficou acertado com os estudantes que eles trocariam e-mails com ela sobre os dias longe da escola logo que voltassem às aulas (leia exemplos na próxima página).

Durante a atividade, Camila reforçou a comparação com as cartas e os bilhetes, mencionando que o modo de apresentação da informação varia (no e-mail, por exemplo, é possível anexar elementos ao texto, como fotos e vídeos, e há um campo para explicitar o assunto que será abordado), bem como a estrutura (entre outras questões, além do destinatário principal, é possível incluir outros, em cópia ou em cópia oculta).

É claro que o relato sobre as férias pedido à criançada do Sesi de Petrópolis poderia ter sido feito oralmente. Mas, ao cuidar do contexto de produção, esclarecendo para quem os alunos escreveriam e com qual finalidade, a professora garantiu um propósito claro à atividade. Mais do que isso, assegurou o cumprimento de uma das funções sociais do e-mail: contar a um colega sobre um momento de lazer, passeio ou viagem.

É interessante considerar que explorar as mensagens eletrônicas pode ser uma boa oportunidade para estabelecer uma parceria com os profissionais da sala de informática. E isso não tem a ver simplesmente com programar a ida da turma até o ambiente. Na EMEF Jardim Mitsutani I - Jornalista Paulo Patarra, em São Paulo, o professor de Informática José Rosemberg fez um trabalho paralelo às aulas de Língua Portuguesa sobre a diferença entre os e-mails e as mensagens instantâneas. "Foi interessante instigar as crianças do 5º ano a pensar quando faz sentido usar abreviações, por exemplo. Elas concluíram que termos como vc (você) e tb (também) têm mais razão de ser quando empregados em mensagens rápidas. A leitura e as respostas são imediatas, o que pede agilidade na escrita. Já nos e-mails, elas não são tão necessárias", diz. Boa forma de refletir sobre essas novas formas de comunicação, sem desconsiderar a norma culta da língua.

Exemplos de trocas de e-mails

Exemplo 1

Em 30 de julho de 2012 15:56, joão pedro zocatele escreveu*:

Camila, 
Minhas férias foram muito boas, eu fui para o parque nacional da serra dos órgãos em Teresópolis. Eu conheci várias cachoeiras e riachos, foi uma caminhada muito grande mais valeu a pena!!! 
Na primeira semana, meus primos foram lá em casa, mas como estava chovendo, nós não pudemos sair para brincar! Mas, na segunda semana de férias minha prima dos Estados Unidos veio para cá e nós fomos no Cremerie para andar de pedalinho!!
Abraços, 
Pepeu

Em 30 de julho de 2012 21:33, Camila escreveu:

Pepeu,
O parque de Teresópolis é muito bonito mesmo! Alguns anos atrás eu fui lá com a minha família, mas não fiz caminhada não, só fiquei lá no início mesmo. 
Quanto tempo vocês caminharam? 
Encontrou algum animal durante o passeio? 
Com quem você foi? 
Conte mais sobre essa experiência! 

Beijos, 
Camila

Exemplo 2

Em 30 de julho de 2012 14:40, manuela befi escreveu:

Camila, 
Minha férias foram ótimas!! 
Terça fui para a casa da Haiane e Johanna, e acabei dormindo lá!! No dia seguinte quarta, brincamos muito, mas as 4 horas da tarde o transformador do poste estourou!! observação: (o portão de la é elétrico)! Fui embora de la às 7 horas. 
Na segunda-feira da segunda semana de férias fui para Búzios. Quando chegamos lá, fomos direto para a casa da minha tia Alice. Depois fomos a praia junto com minha prima de 1 ano!
No dia seguinte terça-feira acordamos cedo e fomos para a praia!! FOI MUITO SHOW!!! Nós fomos la no fundão!! Lá tinha cada onda maneira. 
Quinta-feira fiquei em casa brincando com meu irmão!! Sábado fui para a casa da Laura. Domingo aproveitei para descansar! 
Beijos e abraços Manuela

Em 30 de julho de 2012 20:40, Camila escreveu:

Manu,
Nossa!!!!!!!!!!!!!! Suas férias foram uma delícia! 
Você aproveitou bastante todos os momentos e acredito que nem tenha ficado chateada quando acabou a luz na casa da sua colega né? rs 
Você sabe nadar bem? Quem te levou lá pro "fundão" na praia? 
Adorei saber como foram suas férias... As minhas foram boas também, mas não consegui aproveitar tanto como você. 
Beijoes 
Camila

Em 30 de julho de 2012 21:00, manuela befi escreveu:

Eu sei nadar sim nado desde 5 anos e meu pai me levou no fundão. Que bom que gostou, 
bjs Manu!

* Os e-mails foram editados por questão de espaço. A grafia original foi mantida.

ANÚNCIO
LEIA MAIS