Drummond: um caminho sem pedras

Aproveite o Dia D - nome carinhoso dado ao aniversário de nosso poeta maior - para apresentar o poeta Carlos Drummond de Andrade a alunos de todas as idades

POR:
Caroline Ferreira
Estátua do poeta Drummond em Copacabana. Foto: Fernando Lemos
Poeta ficou celebrizado por esta estátua, na praia de Copacabana

Por iniciativa do Instituto Moreira Salles, a partir deste ano, o dia 31 de outubro - data de nascimento de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) - vai ser comemorado como o "Dia D - Dia de Drummond". Com saraus, contação de histórias, exibição de documentários e outras atividades, a celebração tem o objetivo de difundir a obra do poeta mineiro e incluir a data no calendário cultural do país. Na primeira edição do "Dia D", participam as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraty, Belo Horizonte, Itabira (onde nasceu Drummond) e Porto Alegre, além de Lisboa.

Mesmo que sua cidade não participe das comemorações, o "Dia D" é uma boa ocasião para apresentar Carlos Drummond de Andrade aos alunos e tratar de um gênero ainda pouco desenvolvido nas salas de aula: o poema. Rica em temas e formas, a produção do poeta favorece muito a abordagem em aula para todas as idades.

Abaixo, algumas sugestões de como desenvolver o trabalho nas diferentes etapas de ensino. Ao fim do texto, você encontra alguns dos poemas indicados. Veja também:

- Sequência didática sobre contos de Drummond para o 6º ano
- Sequência didática sobre poemas de Drummond para o 8º ano

Educação Infantil
O essencial: aproximar as crianças de Drummond

Nesta fase, a maioria das crianças não é alfabetizada. Por isso, é fundamental que o professor se prepare para uma leitura compartilhada. "É bom treinar a entonação, marcar as rimas e destacar a sonoridade e o ritmo", aconselha Beatriz Bontempi Gouveia, coordenadora do programa Além das Letras, do Instituto Avisa Lá. Segundo ela, as crianças da creche e da pré-escola têm plenas condições de conhecer poemas de Drummond e de vários autores brasileiros, desde que o professor adéque o conteúdo aos pequenos. "Não se deve dar uma aula sobre poema, e sim levar poesias para ler em sala com bastante interação, realizar uma leitura gostosa, como se fosse uma brincadeira", explica.

Como se trata de uma abordagem sobre um escritor específico, a sugestão é aproximar as crianças não apenas dos poemas, mas também do autor. "É interessante contar uma história sobre a vida do poeta, mostrar uma fotografia dele ou ainda uma imagem do local em que ele nasceu ou viveu", diz Beatriz.

Sugestões de poemas:
"Infância", "Festa no brejo" e "Cidadezinha qualquer" (do livro Alguma poesia, 1930, Record)

"Lembrança do mundo antigo" (do livro Sentimento do mundo, 1940, Record)

"Canção amiga" (do livro José e Outros, 1954, Record).

1° ao 5° ano
O essencial: compartilhar o gosto de ler Drummond

No ciclo Fundamental 1, as crianças têm mais autonomia na compreensão de textos. Porém, a leitura compartilhada deve continuar. "É comum o professor parar de ler para os alunos nessa fase", lamenta Beatriz, lembrando que as crianças precisam de referências de comportamento leitor - além de constante incentivo para transformar a leitura em hábito. Nesse sentido, vale expressar as emoções que se tem ao ler. "Após ler um poema de Drummond, eu posso mostrar para os alunos que me emociono, que as palavras me tocam", exemplifica Beatriz.

Do ponto de vista didático, é interessante aproveitar o estudo sobre Carlos Drummond de Andrade para aprofundar o aprendizado sobre o gênero poema. Segundo Beatriz, uma boa saída é comparar os poemas de Drummond com os de outros autores e estimular os alunos a discutirem as características textuais. São exemplos de indagações interessantes: Quais diferenças você nota entre os autores? E entre as escritas? Qual poema tem mais versos?

Sugestão de poemas:
"No meio do Caminho", "Poesia", "Poema do jornal" (do livro Alguma Poesia, 1930, Record)

"Os ombros suportam o mundo", "Mãos dadas" (do livro Sentimento do Mundo, 1940, Record)

"O lutador" (do livro José e Outros, 1954, Record).

6° ao 9° ano
O essencial: aprofundar o estudo do gênero poema e de seus temas

Durante esse período, ainda é necessário compartilhar a leitura. "O professor de Língua Portuguesa do Fundamental 2 deve ensinar os alunos a ler poemas em voz alta ou declamar. É importante que eles percebam os ritmos, o tom do texto, as falsas terminações dos versos", diz Claudio Bazzoni, selecionador do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10.
Mas é possível ir além, aproveitando-se o contato que os alunos têm com diferentes textos para aprofundar o estudo dos gêneros literários e partir para reflexões sobre as temáticas. A obra de Carlos Drummond de Andrade se apresenta como uma fonte riquíssima para esse fim. "Pode-se escolher um poema que tenha o mesmo tema de uma notícia de jornal, por exemplo, e confrontar os estilos, fazendo os estudantes perceberem o percurso usado para a construção de cada texto, ao mesmo tempo em que se provocam reflexões sobre o assunto em questão", afirma Claudio.

Sugestões de poemas:
"Sentimento do mundo", "Congresso internacional do medo" (do livro Sentimento do Mundo, 1940, Record)

"A procura de poesia passagem da noite", "Morte do leiteiro" e "Canto ao homem do povo Charlie Chaplin" (do livro A Rosa do Povo, 1945, Record)

"Desaparecimento de Luísa Porto" (do livro José e Outros, 1954, Record)

Alguns poemas fundamentais de Drummond

Cidadezinha qualquer
 
(do livro Alguma Poesia, de Carlos Drummond de Andrade, Editora Record, Rio de Janeiro)

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.


Mãos dadas
(do livro Sentimento do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade, Editora Record, Rio de Janeiro)

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.


Sentimento do mundo
(do livro Sentimento do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade, Editora Record, Rio de Janeiro)

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite.

Crédito: Carlos Drummond de Andrade (c) Grãna Drummond
www.carlosdrummond.com.br

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