Sustentabilidade: você faz, o planeta sente

Para garantir o bem-estar da humanidade, são necessárias novas maneiras de pensar e de agir. Dar o primeiro passo é essencial para que o mundo seja mais justo e o meio ambiente equilibrado. Você e a escola têm tudo a ver com isso

POR:
Beatriz Santomauro
Você faz, o planeta sente. Ilustração Alessandra Kalko. Foto Aldré Spinola e Castro

O termo sustentabilidade tem se tornado cada vez mais popular, especialmente no mundo dos negócios. Você já viu anúncios em que empresas alardeiam medidas nesse campo procurando ser vistas como instituições preocupadas com nosso planeta, não é mesmo? Mas a questão é bem mais abrangente - e tem tudo a ver com você e com a Educação. Um dos preceitos básicos da sustentabilidade é a relação entre as coisas. As ações de cada um repercutem na família e, em cadeia, na escola, no bairro, na cidade, no país e no mundo. Não se deve ver isso como um peso nas mãos de cada indivíduo e nem uma responsabilidade do governo e de grandes corporações, mas considerar que cada um de nós é participante de um sistema e deve fazer o que estiver ao seu alcance para o equilíbrio dele. Como diz o físico austríaco Fritjof Capra, autor do livro O Ponto de Mutação (Ed. Cultrix, 432 págs., 52 reais) e fundador do Centro de Ecoalfabetização, nos Estados Unidos: "A sustentabilidade não é uma propriedade individual, mas de uma teia completa de relacionamentos".

O termo começou a tomar forma em 1972, quando o economista polonês naturalizado francês Ignacy Sachs falou em ecodesenvolvimento. Já na década de 1980, o norte-americano Lester Brown, presidente do Worldwatch Institute (WWI), defendeu a importância de satisfazer às próprias necessidades sem reduzir as oportunidades das novas gerações. O tema ganhou maior repercussão, contudo, na Rio 92, a Conferência das Nações Unidas sobre Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, realizada no Rio de Janeiro.

Na época, vários segmentos da sociedade se pronunciaram a favor da ideia e pensavam em uma nova maneira de conduzir o desenvolvimento das nações, não só com o objetivo de melhorar o desempenho econômico mas também considerando que o planeta tem recursos naturais finitos. Para eles, qualquer atividade, seja de uma instituição, seja de uma pessoa, deveria respeitar três pilares: ser economicamente viável, socialmente justa e ambientalmente correta.

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Hoje, os especialistas indicam que não há um modelo único de desenvolvimento, mas que outros aspectos devem ser levados em conta, como o respeito às diversidades culturais, as políticas de longo prazo e a ética. Outro item pode ser acrescentado à lista: a mudança de atitude. "O redimensionamento dos princípios ou valores humanos é essencial para que mais pessoas vivam num ambiente harmônico e respeitoso", diz Andrée de Ridder Vieira, coordenadora geral do Instituto Supereco, em São Paulo.

As cinco escolas apresentadas nesta reportagem exemplificam bem essa diversidade ao implementar iniciativas relacionadas ao cuidado com crianças de creche e pré-escola, à resolução de conflitos, ao uso negociado do espaço, ao combate ao desperdício de merenda e à redução no valor da conta de energia elétrica. Embora elas tenham surgido em resposta a demandas específicas, os projetos resultaram em mudanças de atitude, com reflexos nos campos econômico e social, entre outros.

Professores e gestores tiveram a sensibilidade de observar a realidade, refletir sobre o que não estava funcionando bem e buscar uma solução - movimento que não termina nunca. Por isso, não basta organizar a coleta seletiva do lixo. É preciso pensar na relação entre as pessoas, compartilhar oportunidades de conhecimento e, sim, discutir sobre o cuidado com o lixo e sobre tudo o que está ao redor.

Em sala, o tema deve ser tratado de maneira transversal e relacionado aos conteúdos. E, para ser coerente, a escola deve dar o exemplo. "Se o ambiente é agradável e respeitoso, os alunos levam para casa e para a vida essa mesma exigência na maneira de ser", diz Sueli Furlan, selecionadora do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10 e docente do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP).

Especialistas do mundo inteiro estarão no Rio de Janeiro em junho para discutir o assunto durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. Novos olhares para esse emaranhado de relações podem surgir. "A sociedade, apoiada na ideia do desenvolvimento econômico, precisa ser desconstruída para ser transformada. Embora se pense na questão há mais de 40 anos, pouco se alterou na vida prática. Temos urgência de mudanças e, com a participação de todos, é mais fácil isso virar realidade", afirma a especialista em Educação Ambiental Rachel Trajber, responsável pelo setor de Educação do Instituto Marina Silva, em Brasília.

Sem acidentes com as crianças

A escola
Na creche Amália Bondesan dos Santos, da rede conveniada da prefeitura de São José dos Campos, a 102 quilômetros de São Paulo, os ambientes são organizados visando a aprendizagem e o bem-estar das crianças. A prevenção de acidentes faz parte das formações da Secretaria Municipal de Educação e das orientações da direção à equipe.
 
Problema 
Quando alguma criança se machucava na creche, os pais cobravam um cuidado maior por parte das educadoras e ficavam assustados com casos de maus tratos divulgados pela imprensa - assim como os pequenos, que desenhavam cenas de acidentes.

Ação 
A equipe pedagógica passou a mapear as ocorrências: durante o ano de 2011, houve cinco acidentes nas dependências da instituição. Em casa, foram 27, de setembro a dezembro.

Mudança de atitude 
A impressão de que os pequenos se machucavam muito na creche mudou quando se constatou que, embora permanecessem dez horas diárias ali, poucos acidentes ocorriam. "Os pais passaram a respeitar ainda mais o profissionalismo e o cuidado dos professores em relação a seus filhos", diz a diretora Clenilda Fernandes Naressi Machado.

Desdobramentos 
Ainda por fazer A escola vai organizar reuniões com os pais para que pensem nas melhores maneiras de evitar acidentes em casa. 
Mais informação No momento da matrícula, a escola divulga às famílias recém-chegadas o trabalho já realizado e o que se planeja para o período seguinte. 
Troca de experiências Faz parte da rotina dos diretores visitar outras escolas uma vez por mês, por recomendação da Secretaria de Educação, para contar como se organizam ou lidam com problemas do dia a dia. Nesses encontros, o trabalho de prevenção de acidentes será divulgado.

Para além da escola 
A atenção redobrada dos professores com relação às crianças - que se reflete na qualidade de vida das famílias - tem impactos econômicos e sociais. Com a diminuição dos atendimentos feitos pela área da Saúde, poupam-se recursos que podem ser mais bem investidos. "O cuidado é a coisa mais sustentável que existe em todos os níveis. Podemos não conseguir salvar o planeta, mas cuidar dele sim", explica Rachel Trajber, do Instituto Marina Silva.

O que vai para o prato e para o lixo

A escola 
Em 2010, a Escola Menino Deus, em Lucas do Rio Verde, a 364 quilômetros de Cuiabá, pensou no que fazer com as sobras de alimentos desperdiçados na merenda.

Problema 
A escola calculou a quantidade de comida jogada fora. As pessoas se espantaram com o resultado: eram 20 quilos diariamente. 

Ação 
A professora do 4º ano Anair Bongiovani baseou-se nessa questão para propor cálculos matemáticos - quanto uma pessoa come por dia - e ensinar a construção de gráficos e tabelas. A turma apresentou os dados aos colegas e indicou que deveriam avaliar a quantidade de alimento colocado nos pratos. Em pouco tempo, o desperdício diário diminuiu para 2 quilos.

Mudança de atitude 
Nas refeições, as crianças aprenderam a se servir considerando apenas o que vão comer. O 4º ano passou a fazer visitas regulares às outras turmas para alertar sobre as melhores atitudes em relação à alimentação. "O professor deve orientar a transformação da realidade, a construção de novos caminhos e a reorganização dos rumos", diz Anair.

Desdobramento - Chega de desperdício
Cuidado constante  Em 2011, o desperdício não foi tratado durante as aulas e os alimentos voltaram a ser jogados fora. Por isso, neste ano, Anair incluiu de novo no seu planejamento o contexto da merenda para ensinar gráficos e tabelas e as crianças voltaram a fazer a campanha com os colegas. A escola tem mais um antigo plano: construir uma composteira (para transformar o alimento descartado em adubo) e uma horta.

Para além da escola 
É essencial considerar também as consequências que os hábitos alimentares trazem para a população. "A escolha do que comer tem mais de uma implicação. Não basta substituir uma comida por outra na escola. Esse diálogo precisa ir para casa e influenciar uma rede de pessoas", explica Sérgio Esteves, diretor da AMCE Negócios Sustentáveis, na capital paulista. Para a Economia, adquirir alimentos produzidos na própria cidade impacta o desenvolvimento local. O meio ambiente se beneficia com a diminuição do percurso dos caminhões que transportam os produtos.

Para cada problema uma discussão

A escola 
A Escola Projeto Vida, na capital paulista, faz mensalmente assembleias de classe nas turmas de 6º a 9º ano. Essas reuniões são acompanhadas pela orientadora educacional e por um professor tutor. Nesses encontros, são discutidas soluções para questões apresentadas pelos alunos - como o relacionamento entre eles ou deles com professores e o estabelecimento de regras.

Problema 
Os alunos do 9º ano não estavam satisfeitos com a maneira como um dos professores apresentava as aulas expositivas. Eles diziam sentir falta de registros.

Ação 
Na assembleia, explicaram que assim os conteúdos não estavam sendo assimilados. Um aluno fez a ata do encontro e repassou a todo o corpo docente. Representantes da turma conversaram com o educador criticado, apresentando o resultado da discussão, e ouviram o que ele tinha a dizer.

Mudança de atitude 
O docente incluiu os registros nas aulas. Os alunos entenderam que devem apresentar argumentos consistentes. "Reclamar só por reclamar não faz mais parte da rotina", diz a professora de Língua Portuguesa, Elenice Rodrigues Souza e Silva.

Desdobramento
Ajustes futuros Muitos estudantes ainda têm resistência contra a decisão da maioria mesmo após votações. Nesses casos, os orientadores explicam que nem sempre todos podem ser atendidos. Aos que insistem em discutir temas que não cabem a eles decidir (como o conteúdo curricular), eles informam quem é o responsável - o professor ou a direção.

Para além da escola 
Refletir sobre o que não está correto, organizar uma argumentação coerente, ouvir a opinião dos outros e repensar valores faz parte de uma postura ética. Negociar na busca de soluções para um problema é uma atitude política, essencial em todos os momentos da vida. "Conflitos vão existir sempre. A intenção não é eliminá-los, mas aprender a resolvê-los de forma democrática", explica Rachel Trajber.

Novos hábitos, consumo menor

A escola 
A EMEB Professor Antônio Luiz Balaminutti, em Indaiatuba, a 102 quilômetros de São Paulo, é uma escola de tempo integral. Em 2011, a professora Débora Ciriaco trabalhou no contraturno a diminuição do consumo de eletricidade, enquanto no turno regular as professoras do 1º ao 5º ano trataram das diferentes fontes de energia e dos impactos de sua produção no meio ambiente.

Problema 
A escola tinha um desafio: diminuir a conta de luz em 5%.

Ação 
As turmas de 5º ano estimaram o gasto dos aparelhos eletrônicos, o consumo por hora e o tempo em que ficavam ligados e registraram diariamente a marcação do relógio de luz. Os demais alunos passaram a desligar os aparelhos sempre que possível. Com os esforços, a redução na conta foi de 38,5%. "É possível economizar sem prejudicar os trabalhos da escola", diz Débora.

Mudança de atitude 
Agora faz parte do hábito dos alunos e dos funcionários prestar atenção em tudo o que se refere à energia elétrica, o que levou à estabilização do consumo nos meses seguintes.

Desdobramentos
Na praça O relógio de luz da escola também registra o uso dos holofotes da praça em frente a ela. Porém o acendimento deles é automático. Por sugestão dos pais, foi pedido à prefeitura diminuir o tempo em que essas luzes ficavam ligadas durante o horário de verão. Naquele período, foram três horas diárias de economia sem prejuízo aos frequentadores.
Em casa Os pais também se envolveram, participando das ações da escola desde o começo do projeto. Com as informações adquiridas, mudaram os hábitos em casa, diminuindo também lá o consumo. 

Para além da escola 
"Cada iniciativa mostra a capacidade de olhar para as questões e resolvê-las com autonomia e criatividade", explica Pedro Jacobi, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais da USP. Quando cada um poupa energia - sem que para isso prejudique sua produtividade e conforto -, obtém benefícios econômicos e diminuem os impactos no ambiente, exigindo o menor uso dos recursos naturais.

Compartilhar espaços é negociar os interesses

A escola 
A escola Cooeduba, em Ubatuba, a 234 quilômetros de São Paulo, funciona há dez anos como uma cooperativa, com a participação efetiva de pais, alunos e funcionários. Possui composteiras e hortas e faz coleta seletiva de lixo, além de recolher óleo saturado. Projetos ambientais são atrelados ao ensino dos conteúdos curriculares. O planejamento conjunto e a negociação fazem parte de sua essência.

Problema 
O uso das duas quadras era motivo de disputa entre as sete turmas na hora do recreio. Sempre os mesmos conseguiam espaço para jogar, o que deixava os demais frustrados. O clima de conflito e tensão era diário.

Ação 
Em uma reunião de alunos, foi sugerida uma nova organização. Na aula de Educação Física, o professor lista quem quer jogar e qual modalidade e planeja um rodízio do uso das quadras. Cinco minutos antes do fim do recreio, o sinal toca para que a garotada tenha tempo de se preparar para o retorno às aulas.

Mudança de atitude 
Hoje, a quadra é compartilhada por todos, e os estudantes têm mais consciência em relação ao espaço do outro. "Negociar já é um costume dos nossos alunos", diz a coordenadora pedagógica Ana Carolina Corano.

Desdobramento
Vida em sociedade O bom relacionamento entre professores, alunos e funcionários chega também à comunidade. A escola organiza em seu entorno diversas atividades relacionadas aos conteúdos curriculares - como o estudo dos manguezais - e promove projetos de trabalho voluntário com os moradores da cidade.

Para além da escola
Considerar a presença e os interesses dos outros é um saber importante não só na escola mas também em toda a sociedade. "O respeito entre as pessoas deve ser um valor. E ele só faz a diferença quando for colocado em prática diariamente e resultar em um ambiente em que todos tenham qualidade de vida", diz Andrée de Ridder Vieira, do Instituto Supereco.

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