Da esperança à exaustão: pesquisa aponta as dores e alegrias de ser professor
Solitários, mas orgulhosos de sua história: estudo mapeia dificuldades e sonhos dos docentes brasileiros
PorTory Helena
30/08/2019
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Jornalismo
PorTory Helena
30/08/2019
Há muitas pesquisas no Brasil que enfocam a Educação e procuram traçar diagnósticos sobre a área. Um exemplo é o próprio Censo Escolar: realizado todos os anos pelo Inep, é o mais importante estudo estatístico educacional, que traz dados como o número de matrículas nos diferentes níveis de ensino ou a infraestrutura das escolas. Publicada em maio, a pesquisa Observatório do Professor, realizada pelo Instituto Península, procurou olhar além dos números e enfocar justamente o educador que está em sala de aula. A partir de 3 mil horas de entrevistas e encontros, o estudo se propõe a trazer um instantâneo do dia a dia e do comportamento dos professores brasileiros, centrando-se no ponto de vista deles. Assim, foi possível saber que, ainda que existam 2 milhões de professores atuando no Brasil, os educadores se sentem muito sozinhos diante dos desafios da sala de aula e que, ao mesmo tempo, se fortalecem com o afeto dos alunos e de suas famílias.
AS DORES Exaustão
Por conta dos baixos salários, muitos professores trabalham em mais de um turno, o que leva a jornadas exaustivas. Além de prejudicar o bem-estar, a situação pode afetar a qualidade das aulas.
Segundo turno
As professoras (assim como as brasileiras de outras profissões) fazem mais horas de trabalhos domésticos em média do que os homens. Esse desequilíbrio, acentuado quando se trata de mães com crianças pequenas, atrapalha no planejamento e na qualificação profissional delas.
Realidade do aluno
Sentem-se impotentes ante a falta de condições para enfrentar os problemas dos alunos.
Não sou capaz
A frustração aparece quando o aluno não consegue aprender e por não se sentirem capazes de produzir mudanças na Educação.
AS ALEGRIASEu cheguei lá
Em geral, os homens e mulheres que escolheram a docência e atuam na escola pública sentem muito orgulho da sua história de vida e do local na sociedade que alcançaram por meio do estudo, da graduação e do concurso público.
Obrigado, professora
Uma coisa que coloca um sorriso nos lábios dos professores é o carinho recebido dos alunos. Os docentes também ficam felizes ao perceber bons resultados de aprendizagem e ao receber notícias, como formaturas ou vitórias de seus estudantes.
Gratidão
Traz bastante alegria ao professor quando a direção da escola reconhece e apoia seus esforços, bem como quando as famílias dos alunos fazem o mesmo, ainda que por meio de pequenos gestos, como mandar um bilhete ou ir à reunião marcada.
OS MEDOSFalha
Mesmo fazendo o seu melhor, os docentes temem não conseguir se sobrepor aos problemas estruturais da Educação e não conseguir gerar bons resultados na aprendizagem das crianças e jovens.
Crítica
Outro medo central para os professores brasileiros captado pela pesquisa é que os alunos não consigam aprender e que, por conta disso, os docentes sejam julgados pelos pares e criticados por outros educadores como únicos responsáveis pelo fracasso escolar.
AS EXPECTATIVAS
Sem esperanças
A maioria dos educadores ouvidos pela pesquisa Observatório do Professor não tem esperança de ver melhoras nas escolas a partir de ações dos governos ou do sistema do ensino.
Eu que fiz
Os docentes entrevistados no estudo até reconhecem que aconteceram avanços na Educação brasileira, mas atribuem o progresso a seu próprio esforço e ao quanto lutaram para se formar e ocupar os espaços que hoje atuam.
Não creio
Os professores desejam que a escola se transforme em um ambiente melhor e receba investimentos em infraestrutura, mas não depositam muitas esperanças de que de fato isso vai se concretizar.
OS SONHOS
Não faço para mim
Os docentes ouvidos pela pesquisa sentem-se, em geral, realizados na carreira e satisfeitos com a vida. Cultivam sonhos muito mais para os outros do que para eles mesmos.
Eu tenho esperança
Os professores e professoras desejam viver a formatura de seus filhos e estudantes, bem como querem vê-los construindo suas vidas.
Sonhando sozinho
A solidão é muito grande para os professores, que não cultivam um sonho coletivo com os demais docentes e nem um sonho mais amplo, que abarque toda a sociedade.
Fonte: Observatório do Professor (Instituto Península)
Ilustrações: Davi Augusto
3 PERGUNTAS PARA Lia Glaz
Gerente de projetos do Instituto Península fala sobre a pesquisa Observatório do Professor
O que aprenderam sobre o professor que não estava nas estatísticas?
O que os números não trazem é as professoras dizendo que se sentem sozinhas para desempenhar o ofício. Também a ausência de espaços de troca com os colegas e a direção, tanto para compartilhar boas práticas quanto as dificuldades e, por fim, a falta de preparo que sentem diante de questões que vão além do ofício docente, como se deparar com alunos com muita vulnerabilidade.
A realidade do aluno é um desafio?
Em locais vulneráveis, essa questão é forte porque a formação do professor é teórica e idealizada. Já na escola, ele se depara com uma realidade mais bruta.
Há boas notícias?
Muitos falam sobre a realização ao ver os alunos aprendendo. É uma boa notícia, mas misturada com a percepção de que a escola não suscita o aprendizado.
Lia Glaz é formada em Administração Pública pela EAESP-FGV
Foto: Gerardo Lazzani/Divulgação
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