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Aprendizagem | Didática


Por: Rosi Rico

Manual da pesquisa matadora

O que o educador precisa saber para ser o mentor da turma e aplicar essa habilidade que coloca o aluno no centro da aprendizagem

Pesquisar é um procedimento de estudo comum a todas as disciplinas e presente em toda a vida escolar. Mas, devemos lembrar, ninguém nasce com essa competência. Assim, cabe ao professor orientar e promover oportunidades práticas, com grau progressivo de dificuldade, que permitam a crianças e jovens desenvolver habilidades como localizar, interpretar, selecionar, organizar e utilizar informações. 

Ao construir essa autonomia de aprendizado, mostra-se a eles que as fontes de conhecimento não são restritas. “A pesquisa é uma maneira de ampliar os recursos dos alunos para além do livro didático e do professor”, diz Lilian Bacich, fundadora da Tríade Educacional, consultoria especializada em formação de professores. Além disso, aprender a pesquisar ajuda os alunos a perceberem que ninguém é detentor único do conhecimento. “Isso colabora para uma visão democrática, pois os estudantes entendem que podem encontrar outras fontes tratando de um mesmo assunto e, talvez, com opiniões diferentes ou com um jeito de apresentar o conteúdo por outro viés”, completa. Adquirir essa percepção também colabora para o desenvolvimento da habilidade de questionar, uma vez que o aluno aprende como buscar subsídios para se contrapor a algum ponto exposto em sala de aula. 

Dominar a pesquisa como ferramenta didática pode levar a uma mudança de comportamento, colocando o estudante em uma postura ativa no próprio processo de aprendizagem. “Sempre que estiver em contato com um conhecimento novo, ele já saberá qual é a rotina de encontrar informações que reforçam ou complementam aquilo”, diz Lilian. “Aprender a pesquisar é uma maneira de entender o processo de construção do pensamento, de elaborar uma ideia com base em informações e dados”, completa André Castanha, professor no curso de Pedagogia e no mestrado em Educação da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). Mas, para isso ocorrer de maneira eficiente, crianças e jovens precisam ter sido bem orientados sobre o passo a passo de uma boa pesquisa, inclusive sobre o que são fontes confiáveis. 

Um meio para encontrar respostas 
Como mentor nesse processo, o professor deve, primeiro, definir o objetivo da pesquisa e deixar isso claro aos alunos: o procedimento buscará respostas para qual problema? É necessário que a questão ou situação-problema seja abrangente e permita diferentes soluções e interpretações – modulada conforme a série –, evitando ser genérica (para garantir o foco) ou só opinativa. Essa investigação será mais produtiva e contará com o engajamento de crianças e adolescentes quanto mais o tema despertar o interesse deles. “Não basta pedir para buscar o que é tal coisa. A pesquisa tem de estar relacionada a um desafio que a turma tenta responder”, afirma Lilian. Assuntos mais próximos da realidade dos alunos, que envolvem a natureza local, alguma questão do cotidiano escolar ou algo relativo à faixa etária deles, por exemplo, podem ser articulados com o conteúdo da disciplina. “Quando o professor consegue fazer essa costura, a compreensão ocorre de maneira mais efetiva”, diz André. Um docente de História, por exemplo, ao discutir a Grécia antiga pode propor uma pesquisa comparativa entre os espaços de debate naquela época e os de hoje. Quem participava? Como ocorria? Por que era diferente? “Ao desafiar os alunos a fazerem esses paralelos, o professor consegue oferecer a eles uma dimensão temporal e histórica”, justifica. 

Uma vez definido o propósito, parte-se para a base de qualquer pesquisa, que é a escolha das fontes de consulta. “Antes de estimular o trabalho autônomo, uma opção pode ser promover uma investigação controlada, em que o professor faz uma curadoria dos materiais que serão analisados por crianças e jovens”, diz Lilian. O objetivo é ensiná-los a identificar o que é uma fonte qualificada. Para isso, depois da pesquisa, o docente pode discutir com a turma os critérios que utilizou em sua seleção: a importância de verificar a data de publicação no caso de produções escritas (para obter dados atualizados) e a credibilidade do autor, do grupo, da instituição ou do veículo que disponibilizou as informações etc. Essa reflexão coletiva é particularmente importante para futuras buscas na internet, que nem sempre possuem sistema de referências como os encontrados em fontes impressas e que funciona como um filtro para minimizar a possibilidade de erro nas informações. 

Quando a proposta for para pesquisa autônoma na internet, a dica é testar antes. “Fazer um levantamento prévio mostra o que surge ao se colocar as palavras-chave relacionadas ao tema a ser investigado”, indica André. Assim, o professor pode antecipar dificuldades. 

Também será necessário orientar os alunos a definirem quais palavras-chave utilizar para encontrar conteúdos relevantes, explicando que os termos devem refletir o ponto principal a ser procurado e que toda palavra conta e, portanto, não adianta colocar frases inteiras. Também vale ensinar a rotina de sempre indicar, e justificar, onde foi feita a consulta e de nunca confiar em uma única fonte. O ideal é estimular buscas variadas em livros, revistas, vídeos, fotos,jornais e sites. Dependendo do tema e da disciplina, é possível incluir entrevistas com especialistas, dados coletados de saídas a campo, experimentos científicos e levantamentos estatísticos. 

O centro do processo 
A parte mais importante da pesquisa é interpretar tudo o que foi lido, visto ou coletado. É uma atividade que inclui relembrar conhecimentos anteriores, estabelecer relações com as informações novas e reorganizar os saberes. Isso pode ser feito individualmente, em pequenos grupos ou coletivamente, de acordo com o critério pedagógico do docente. “Cabe ao professor mediar a relação entre o que o aluno já sabe e aquilo que ele precisa ampliar ou aprofundar”, diz André. Para colaborar nesse processo, é possível intervir com perguntas que levem os estudantes a separar o que ajuda a entender melhor o tema daquilo que só confunde. E acrescentar informações quando for preciso. Isso pode ser feito nos grupos ou em leituras e discussões coletivas. O trabalho de análise vai mudar conforme o tipo de material: imagens, vídeos, dados estatísticos ou textos. Oriente crianças e jovens a fazerem a leitura desses meios, indicando quais elementos observar em cada um. 

Nesse momento, talvez seja necessário explicar como fazer anotações, resumos e fichamentos para que o estudante organize de maneira lógica o pensamento e construa sentido para o que está produzindo. Isso pode ser feito mostrando exemplos e modelos. O procedimento adotado vai depender da área de conhecimento e da trajetória estabelecida pelo docente. “Por exemplo, se for Matemática e o objetivo é montar um gráfico. Será preciso explicar como encontrar no material pesquisado os dados relevantes para responder à questão proposta e como tratá-los”, explica Lilian.

É importante que a investigação não se encerre em si mesma, mas resulte em um produto final (vídeo, seminário etc.) ou seja uma etapa de um projeto maior. “A pesquisa não deve ser um fim, mas precisa estar encaixada na sequência didática e ter uma utilização, seja para montar algo concreto, seja utilizar na produção de um texto coletivo”, diz Lilian. Pode também subsidiar o estudo de um conteúdo que ainda não foi dado ou fazer parte da preparação para debates e apresentações. 

O pós-pesquisa 
A prática de pedir um relatório final e o professor simplesmente ler e dar nota para os estudantes está ultrapassada. As descobertas das investigações devem ser compartilhadas com colegas, com outras turmas ou mesmo com a comunidade para que a pesquisa cumpra sua função social de disseminar informações. “A exposição garante que o conhecimento circule. É também, no caso de apresentações, uma oportunidade para os alunos desenvolverem a oralidade”, diz André. A definição de como, e para quem, será feita a socialização dos resultados depende do tipo de pesquisa e dos objetivos pedagógicos. São muitas as opções: apresentações para as famílias por meio de textos e desenhos pode ser um caminho para os primeiros anos do Fundamental; produção de murais informativos nos corredores para os anos finais do Fundamental, com momentos no intervalo em que os alunos expliquem para os colegas o que descobriram; debates em classe, com toda a escola ou com a comunidade, podem ser organizados pelas turmas do Fundamental II. 

Para todas, é essencial a orientação direta do professor. “Ele é o detentor do conhecimento e está ali para colaborar na construção da autonomia do aluno. Então, não pode abrir mão do processo, que inclui ajudar na preparação da pesquisa, orientar no desenvolvimento, fazer a leitura atenta do resultado e criar espaços para discussão e exposição”, conclui André.  

VAMOS APRENDER A PESQUISAR?
Confira um passo a passo para aproveitar a pesquisa escolar ao máximo 

1) Definir a questão norteadora 
Proponha uma pergunta ou situação-problema desafiadora e articulada com o conteúdo 

2) Qualificar as fontes 
Explique que a escolha deve ser pautada pelos critérios de credibilidade e atualidade. 

3) Interpretar as informações 
Ensine procedimentos de observação, análise e organização das informações.  

4) Socializar as descobertas 
Garanta espaços de discussão dos resultados e exposição do produto final.

Ilustrações: Paola Saliby