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Faltam para:   

Olhe Além | Alice Riff


Por: Tory Oliveira

"O Bolsonaro conseguiu chegar nos alunos pelas redes sociais"

Alice Riff mostra, no filme "Eleições", que a juventude não é despolitizada. Falta é diálogo da sociedade com ela

Não dá para chegar a cada quatro anos e cobrar que os jovens votem com consciência, defende Alice Riff. A cientista social, diretora do recém- -lançado documentário Eleições, filmou a disputa pelo grêmio estudantil da EE Doutor Alarico da Silveira, localizada na região central de São Paulo, durante o período da últimas eleições. No recorte de Alice, o microcosmo dessa escola tem diversidade de orientação política e vontade de transformar, seguindo os modelos da sociedade. A falta de diálogo e de discussão sobre a democracia, no entanto, tira desses jovens muito da possibilidade de uma vivência democrática. “Depois são cobrados, dizem que não souberam votar”, afirma. Produzido por meio de edital da plataforma Videocamp, o documentário estreou em março e está disponível para exibição gratuita nas cidades onde não está em cartaz. “O filme mostra que uma experiência democrática é viva”, afirma Alice, que também defende, na entrevista a seguir, um olhar permanente da sociedade para a escola pública e seus anseios

NOVA ESCOLA Por que retratar uma eleição para um grêmio estudantil?

ALICE RIFF A ideia foi entender, no momento de uma crise política, como os jovens organizam suas próprias eleições. Falava-se muito que eles não acreditavam em política ou em partidos, uma série de pessoas refletia sobre isso e dizia que a juventude era despolitizada. Acho que isso não existe, para sobreviver no mundo é preciso pensar em política o tempo todo, ainda mais no caso desses jovens de escola pública, usuários dos serviços públicos. Há também uma discussão sobre Educação e o Ensino Médio, que é uma etapa da aprendizagem que precisa de reformas. Pensando nas escolas públicas, para que serve o Ensino Médio? É para preparar para o vestibular ou para o mercado de trabalho? Todas essas questões entram na escolha de se acompanhar uma campanha eleitoral na escola.

NE O documentário se passa na EE Alarico da Silveira, no Centro da capital paulista. Por que escolheram essa escola?

AR Um dos fatores foi que os professores e a gestão compraram a ideia do projeto e nos deram apoio. Acabamos entrando no currículo pedagógico da escola com o projeto do filme.

NE Os protestos de junho de 2013 e as ocupações secundaristas nos anos seguintes trouxeram à tona a questão do protagonismo juvenil. Na sua opinião, qual foi o legado desse processo?

AR Dentro das escolas, esse momento histórico e as ocupações nas instituições paulistas foram bastante abafados. Embora a narrativa oficial seja de vitória para os estudantes, a realidade é de que as escolas continuam fechando. No Alarico, vi uma escola cheia de problemas de infraestrutura e, no ano passado, algumas salas foram fechadas. Na verdade, a minha intenção era justamente entender esse contexto. A escola pública ainda enfrenta uma série de desafios e precisamos olhar para elas sempre, e não só no momento em que explode algo grave. As ocupações fizeram o barulho, os estudantes foram para a capa dos jornais, mas as escolas continuam lá cheias de problemas e de questões a discutir. Foi um momento de uma instituição que está prestes a explodir a qualquer momento.

NE Antes desse filme, qual era a sua experiência com escolas públicas?

AR Fiz uma escola particular cuja filosofia e o modo de funcionar davam muito espaço para o aluno falar. Na minha formação, isso foi importante para aprender a questionar, a duvidar e também a construir relações de respeito com liberdade. Essa experiência do filme pode ser uma faísca para que sejam discutidos, entre os professores e gestores, maneiras de transformar aquele espaço. Porque do jeito que está é muito complicado. Voltando à pergunta, não vivi em uma escola assim. Então, ver coisas como a Polícia Militar entrando para resolver conflitos, por exemplo, é algo que não aconteceria em uma escola particular de classe média. As crianças e os adolescentes na escola de classe média são tratados como estudantes e, na escola pública, muitas vezes, os adolescentes são tratados como futuros marginais. Essas coisas são naturalizadas ali, de alunos a professores. Mas nós, que viemos de fora, pensávamos: aquilo não pode ser normal.

NE Eleições mostra algumas demandas dos alunos com relação à escola, como a comida servida ou a possibilidade de ouvir música no pátio. Que questões políticas ou de reivindicação moviam esses estudantes?

AR Se você perguntar para o aluno por que ele não gosta da escola, de início receberá respostas muito básicas. Mas, se acompanhar de perto, verá que eles são capazes de elaborar inquietações mais profundas. No filme, um dos grupos que concorriam à eleição fez uma proposta sobre o bullying, por exemplo. Em geral, querem melhorar o ambiente escolar, transformar a escola em um lugar mais legal, mais colorido, com músicas e aulas diferentes. Há também demandas de infraestrutura, como material para a Educação Física.

NE Em 2018, só 21% dos adolescentes de 16 e 17 tiraram o título de eleitor. Foi a maior abstenção desde 2002. O que você observou da relação desses jovens do filme com a política institucional? A polarização da eleição chegou à escola?

AR Na época da eleição (a polarização) foi superforte. Muitos assistiam aos youtubers que falavam de política, viam os jornais e estavam no discurso de que o problema era o governo que estava. A questão do (então candidato à Presidência Jair) Bolsonaro não era um tabu dentro da escola. Eles falavam muito. Existia também uma coisa de “política não serve pra nada” e sempre ligação com a corrupção. Acho que há falta de conversa, dos movimentos estarem mais próximos da juventude. Não ir votar é também porque quem está falando com eles sobre democracia? Falta diálogo e depois eles são cobrados, dizem que não souberam votar ou não ligam. Muitos votaram no Bolsonaro, inclusive alunos que participaram do filme, porque ele conseguiu chegar pelo WhatsApp ou pelo YouTube.

NE A política institucional quer conversar com o jovem?

AR Na época da eleição, há um movimento de candidatos jovens, mas são poucos eleitos. Até que no ano passado tivemos uma maior representação, mas precisamos conversar com eles. Li em um artigo que, para reconstruir a conexão dos jovens com a política, precisamos transformar a escola em um espaço realmente democrático. Se no dia a dia você promove mudanças e cria pontes entre a escola e o entorno, a política começa a fazer sentido e os jovens a perceber que existe muita gente que trabalha em prol do coletivo. É trabalhoso, mas, se entendemos que a escola está ali para formar cidadãos, que vão atuar para um Brasil mais interessante e solidário, isso precisa ser ensinado. Não dá para chegar a cada quatro anos e cobrar que eles votem com consciência. Tem um exemplo interessante: muitos adolescentes da escola trabalham na Câmara dos Vereadores como Jovem Aprendiz. Perguntei se conheciam os políticos ou se sabiam o que é decidido ali. Eles não sabem. Falam: “Meu trabalho é ficar na portaria cadastrando as pessoas”. Então, mesmo na Câmara, não há um trabalho com os jovens.

NE Um dos artigos do projeto de lei Escola Sem Partido pretende vetar a promoção de “atividades político-partidárias” pelos grêmios estudantis. Qual é a sua visão sobre a proposta de lei?

AR O filme mostra que não existe doutrinação ideológica de parte nenhuma. O que há são pessoas, com várias referências, que podem discutir abertamente qualquer assunto. Precisamos garantir que a escola seja um espaço de respeito e liberdade. O filme mostra que uma experiência democrática é viva, com a qual você aprende com alegria, por meio de um diálogo saudável - e que não tem nada de errado com isso.

PARA SABER MAIS

91% dos adolescentes de 16 e 17 anos acreditam na importância do voto

60% dos jovens não se sentem representados pelos candidatos

21% dos adolescentes tiraram título eleitoral em 2018

29% da juventude entre 16 e 25 anos tem interesse em disputar eleições

Fotos: Roberto Setton/NOVA ESCOLA