Educadores contam como aprenderam com seus erros

Analisar equívocos é uma forma de se aprimorar. Lino de Macedo, Regina Scarpa, Maria do Pilar Lacerda e Mário Sérgio Cortella contam o que aprenderam com essa prática

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Ivan Paganotti

Professores têm a competência de verificar habilidades, testar a compreensão de conteúdos e ajudar cada estudante a reconhecer (e superar) os erros. Mas e quando o equívoco vem deles próprios? Fingir que nada ocorreu não é a melhor saída. Ao contrário: se ficar evidente que alguma atividade não deu certo em razão de uma falha pessoal, a autocrítica é fundamental para melhorar a atuação profissional.

O ideal é que essa reflexão seja vivenciada de forma madura, sem culpa ou rigor excessivos (afastando o risco de mergulhar no perfeccionismo, que paralisa a ação) e complacência extremada (resvalando na atitude de quem a todo instante diz "tudo bem, deixa para lá"). Medo ou vergonha são outros sentimentos que não cabem nessa hora. Afinal - não machuca repetir essa obviedade -, todo mundo erra. Mesmo grandes autoridades em Educação, profissionais respeitados que ocupam cargos centrais no governo, pesquisadores de Universidades influentes, formadores de professores e autores de livros que inspiram algumas de nossas melhores aulas.

Nesta reportagem, quatro grandes mestres - Lino de Macedo, Regina Scarpa, Maria do Pilar e Mário Sérgio Cortella - discutem os equívocos na atuação profissional de uma maneira bastante peculiar: contando as próprias experiências (leia os depoimentos nas próximas páginas). Alguns tropeços podem parecer familiares: falar demais e alongar a parte expositiva, despejar conteúdo sem levar em conta o ritmo dos jovens e seu universo cultural, desconsiderar as necessidades de alunos com deficiência e negar o próprio papel ao levar em conta somente os interesses das crianças.

A lista de falhas é diversa, mas a postura para avançar é a mesma: analisar o que falhou, por que e como isso ocorreu. Muitas vezes, basta o distanciamento temporal do deslize para percebê-lo. Em outras ocasiões, são as conversas com os colegas que nos trazem o alerta e, em muitos casos, o estudo e a leitura são importantes aliados para a reflexão.

"Todos nós erramos algumas vezes, ou seja, pensamos ou agimos de um modo que um dia terá, talvez, que ser revisto", afirma Lino de Macedo. Essa revisão de ideias, pensamentos e ações exige uma visão relativista do erro - isso significa ter em mente que o que não funciona em uma determinada classe, num determinado momento, pode muitas vezes dar certo em outro contexto. Confira nas páginas seguintes o relato de cada um. Com a coragem de apontar seus próprios equívocos, eles nos indicam caminhos para superar nossos desafios.

"Eu falava demais e escutava pouco."
Lino de Macedo
Professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Lecionou nas séries iniciais do Ensino Fundamental. 

Foto: Paulo Vitale
Foto: Paulo Vitale

"Comecei a dar aula com 18 anos, em 1962, numa escola de uma vila rural perto de São José do Rio Preto, a 447 quilômetros de São Paulo. Percebo que, naquela época, cometia com frequência o erro de passar tempo demais falando em sala de aula. Eu tinha uma ânsia de explicar os temas, de expô-los pela fala. Acho que diversos educadores passam por isso.

Muitos professores, e eu sou um deles, defendem que o aluno precisa ter um papel ativo, que faça atividades, que questione e participe do processo de ensino e aprendizagem. Mas, contraditoriamente, tomamos grande parte da aula para nós, deixando pouco espaço para a turma - eu, até hoje, preciso seguir atento em relação a isso. Aí mora um problema: como exigir que as crianças sejam ativas se a única coisa que elas podem fazer enquanto falamos é escutar? Gerir a participação delas é difícil: requer tempo, experiência e domínio da sala de aula.

Esse ensino verbalista, centrado na ininterrupta transmissão de informação, é um dos grandes equívocos da Educação no século 21. Seu modelo é o da mídia. Basta pegar o exemplo de um telejornal: em dois minutos, apresentam-se diversas reportagens, entrevistas e números. Reduzir o ensino a esse formato e ceder à pressão por velocidade é um erro. O processo de construção de conhecimento é baseado em muita análise e reflexão. É necessário, sobretudo, ouvir os alunos com uma escuta ativa, com interesse verdadeiro sobre o que eles querem comunicar. Algo que ainda sigo aprendendo."

"Eu negava o papel do professor."
Regina Scarpa
Coordenadora pedagógica de NOVA ESCOLA. Foi professora de Educação Infantil.

Foto: Paulo Vitale
Foto: Paulo Vitale

"Atuei como professora de Educação Infantil nos anos 1980, uma época em que as concepções sobre a infância estavam sendo reconceituadas. Seguíamos muito as ideias de Jean Piaget (1896-1980) e Célestin Freinet (1886-1966), que na França destruiu o tablado que separava e elevava o professor para questionar sua autoridade e conferir um papel mais ativo aos alunos. Mas a vontade de combater a centralidade do educador era tanta que acabamos focando apenas os pequenos. Todos os relatórios de sala começavam assim: ?De acordo com o interesse dos alunos, fomos pesquisar os... jabutis' - ou qualquer outro tema. Na prática, era o professor quem escolhia. Afinal, numa sala com 20 ou 25 crianças, cada uma se interessa por uma coisa. Mas a intencionalidade tinha de ficar escamoteada.

Hoje, sabemos que o papel do professor deve ser exercido às claras. Se levássemos ao extremo a noção de trabalhar com o interesse infantil, somente abordaríamos o que já se sabe porque a criança gosta apenas do que conhece. Devemos também trazer temas que nós julgamos importantes. Para promover a aprendizagem, o professor deve ter um papel ativo, saber aonde quer ir e como chegar lá. Isso só ficou claro para mim durante meu mestrado, quando tomei o trabalho pedagógico como objeto de análise e reflexão. Pude entender que a época em que comecei era um momento de transformação, parte de um processo de busca de equilíbrio na relação professor/aluno."

"Eu não fazia a inclusão de verdade."
Maria do Pilar Lacerda
Secretária de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC). Lecionou História nas séries finais do Ensino Fundamental.

Foto: Anderson Schneider
Foto: Anderson Schneider

"Trabalhei em sala de aula por 25 anos, de 1976 a 2001. Recordo várias experiências que, aos olhos de hoje, considero equivocadas. Um episódio marcante ocorreu quando recebi uma estudante com paralisia cerebral. Ela tinha 18 anos, mas estava cursando o equivalente ao atual 9º ano. No início, eu achava que ela estava lá só para se socializar. Um dia, porém, ela me perguntou se eu não ia olhar o caderno com o dever de casa dela. Eu achava que ela não fazia o dever e não queria constrangê-la, mas fiquei surpresa e respondi que sim, que ia olhar o caderno dela. E estava tudo feito, direitinho...

Entendi que ela não só aprendia como o fazia de forma rápida. Penso que eu tinha uma posição equivocada até por nunca antes ter trabalhado com um estudante com uma deficiência como a dela.

Foi também o estímulo para estudar o assunto. Juntamente com o grupo de professores da escola - que encarou a situação como um desafio para aprender -, eu lia sobre o ensino para alunos com deficiência.

Muita gente reclama da teoria por achar que ela não tem aplicação em sala, mas só a sensibilidade não basta. A reflexão sobre a prática me explicava como agir. A presença daquela estudante modificou não só o meu comportamento como também o da turma. A saída para o intervalo, por exemplo, se tornou muito mais organizada - a garotada tinha de ajudar a menina a sair da sala. O que era antes uma correria atropelada se tornou algo mais organizado e gentil."

"Eu não soube apresentar o conteúdo para os jovens."
Mário Sérgio Cortella
Docente do Departamento de Fundamentos da Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Lecionou Filosofia no Ensino Médio.

Foto: Paulo Vitale
Foto: Paulo Vitale

"Cometi muitos equívocos como docente. Eu me lembro de um, do período em que lecionava na Escola Nossa Senhora das Graças, na capital paulista, que ocorreu no Ensino Médio. Na época, eu já dava aulas de Filosofia para a graduação na PUC-SP. Acabei me baseando demais nessa experiência e não fiz um planejamento levando em conta o universo dos alunos da escola.

Comecei o curso com um passeio por A República, de Platão (428/427-348/347 a.C.). Minha ideia era questionar o sentido da existência. Mas fiz isso sem levar a uma reflexão sobre o desespero platônico nem discutir os problemas envolvidos no livro. Logo percebi minha falha. Por mais que aqueles 30 adolescentes na minha frente fossem comportados, o desinteresse ficou evidente.

O problema não era o assunto, mas a ineficiência do docente. Esqueci a lição básica de que não existe ensino sem aprendizagem. Faltou criar condições para que os alunos pudessem refletir antes de mergulhar nos textos filosóficos, trazendo questionamentos e contrapontos para provocar e preparar os jovens. Como diria Paulo Freire (1921-1997), com quem tive a honra de trabalhar por 17 anos, é preciso fazer primeiro a leitura do mundo para depois fazer a leitura da palavra. Essa e outras experiências que tive em seguida me deixaram claro que não se aprende com os erros - mas com a correção deles."

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