Aluna cria comunidade no Facebook e chama a atenção para os problemas da escola

Com 200 mil seguidores, a página Diário de Classe ganhou força e pressionou a secretaria a resolver falhas na infraestrutura. Entenda as questões que estão por trás da denúncia

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Elisa Meirelles
Facebook. Ilustração: Renata Borges

Ao visitar escolas em todo o Brasil, é comum encontrar problemas de infraestrutura. Portas emperradas, janelas quebradas, fios de luz desencapados são parte do dia a dia de muitos alunos espalhados pelo país. Revoltada com essa situação, a estudante Isadora Faber, de 13 anos de idade, criou a comunidade Diário de Classe no Facebook para denunciar os problemas da Escola Básica Maria Tomázia Coelho, na qual estuda, em Florianópolis. O que a menina não esperava era o impacto que a ação teria. Em menos de dois meses, a página foi "curtida" por cerca de 200 mil pessoas e o caso ganhou destaque no noticiário nacional. Pressionada, a Secretaria Municipal de Educação se apressou em resolver os problemas o mais rápido possível.

A repercussão da história demonstra como a tecnologia encurta os caminhos entre alunos e poder público. As inúmeras reações a favor e contra a garota são uma mostra de que o diálogo a respeito dos problemas encontrou um novo canal, que ultrapassa os muros de cada instituição. É preciso, no entanto, prestar atenção às questões que estão por trás dessa denúncia.

Em primeiro lugar, há que se ampliar o olhar e analisar qual tem sido o espaço oferecido aos alunos dentro das instituições em que estudam. Isadora e outros meninos e meninas levam suas reclamações à internet, em parte, por não terem voz nos ambientes presenciais. "Muitas vezes, a escola torna-se um ambiente coercitivo, em que não há lugar para que o estudante se expresse", explica Adriana Ramos, coordenadora do Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação Moral (Gepem), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). "Muitos professores entendem críticas ou opiniões contrárias como ofensas e acabam por suprimir a opinião dos alunos", diz ela.

A atitude de Isadora é legítima e importante, mas precisa ser vista como o último recurso de uma cadeia, complementa Mozart Neves Ramos, membro do Conselho Nacional de Educação (CNE) e do movimento Todos pela Educação. Antes de colocar os problemas nas redes sociais e expô-los a todos, é importante buscar os mecanismos que existem dentro do ambiente escolar para resolvê-los. "Não se pode queimar etapas. Se, a cada novo problema, você for direto para a internet, tira da escola a oportunidade de resolver as questões relativas a ela", ressalta.

É importante, então, criar uma relação de confiança em que a comunidade escolar participe cotidianamente dos desafios e tenha calma, estabilidade e tempo para debatê-los e solucioná-los. Como diz Adriana, "é preciso criar um ambiente sócio moral mais cooperativo, no qual o respeito seja visto como algo mútuo, não com uma imposição unilateral". Ao trazer a comunidade escolar para perto, ouvir pais, professores, alunos, gestores e funcionários, cria-se em um cenário em que tanto os problemas quanto a busca por soluções são coletivos. "Isso não se resume a uma única ação, é preciso que o diálogo permeie as relações escolares", comenta a pesquisadora.

Dar voz aos alunos foi o que fez Débora del Bianco Barbosa Sacilotto, diretora da EMEF Francisco Cardona, em Artur Nogueira, a 142 quilômetros de São Paulo, vencedora do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10 deste ano na categoria Gestão Escolar. Ela criou um projeto para fazer com que a opinião dos estudantes de 1º a 5º ano fosse levada em conta para a tomada de decisões ligadas ao cotidiano escolar. Toda semana, os meninos e meninas se reúnem e apresentam suas reivindicações, deixando claro o que aprovam e o que desaprovam, e discutem conjuntamente como resolver os problemas.

As assembleias mostraram, por exemplo, que havia muito desperdício de comida. Foi definido, então, que cada aluno poderia escolher a quantidade que gostaria de colocar no prato, com o compromisso de comer tudo. Exemplos simples, como esse, mostram que é preciso manter abertos os canais de diálogo - sejam eles presenciais ou virtuais.

Outro ponto importante é trazer para dentro da escola as ponderações sobre ética na internet, por meio de atividades e conversas com os alunos. Uma ideia interessante é a implementação de redes sociais fechadas dentro da escola, nas quais alunos e professores interajam. "Podemos aproveitar esses espaços para discutir com a turma o impacto e as consequências de cada ação e ir construindo um código de conduta", sugere Marta Voelcker, pesquisadora e superintendente da Fundação Pensamento Digital, em Porto Alegre.

A pesquisadora lembra que as discussões sobre o alcance das redes sociais e sobre a postura que cada um deve ter frente a elas ainda geram dúvidas não só entre as crianças, mas também entre os adultos. "Não se sabe direito o que é aceito pela lei ou socialmente, então, é preciso falar sobre o tema na escola", comenta. Marta sugere trazer para a sala de aula exemplos de posturas tomadas na rede por pessoas conhecidas pelos alunos - jogadores, artistas etc. - e debatê-las.

Vale destacar, ainda, a noção de cidadania e de bem público que transparece nesse debate. Ao colocar no ar uma comunidade para exigir melhorias na escola, a garota relembra que uma Educação de qualidade é um direito assegurado pela Constituição Federal. "Os educadores poderiam aproveitar a iniciativa para mostrar aos alunos a importância de cobrar seus direitos em outros âmbitos como saúde, política etc.", defende Adriana.

O desafio da infraestrutura
Além de falar sobre a atitude de alunos como Isadora, é preciso atentar para o problema que ela aponta. As questões colocadas na comunidade da garota, infelizmente, são comuns em todo o Brasil. Como mostra a reportagem Em Péssimo Estado de Conservação, publicada na Gestão Escolar de abril/maio, sinais de depredação - como lâmpadas estouradas, portas e janelas quebradas e carteiras em mau estado de conservação - estão presentes em 23,5% das escolas. A informação tem como fonte um levantamento realizado com base no questionário que acompanhava a Prova Brasil e o Sistema de Avaliação de Educação Básica (Saeb) de 2009.

Resolver os problemas não é simples. A solução passa por diferentes instâncias públicas, que precisam atuar de forma articulada. Conheça a história de quatro gestoras que, com o apoio da comunidade, da rede de ensino e do poder público, conseguiram transformar o espaço escolar.

 

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