Cinco perguntas e respostas sobre o uso de biografias na sala de aula

Consultor dá dicas de como usar biografias de personagens históricos para complementar o ensino de história na sala de aula

POR:
Gabriela Portilho
Veja na Sala de Aula

Durante algum tempo as biografias foram deixadas de lado pelos
historiadores, e também na sala de aula, por colocarem elementos
mais destacados de uma sociedade como personagens principais - um
conceito ultrapassado na História. Mas, com a popularização de
biografias e anônimos e historiadores, isso tem mudado e as memórias
passaram a cada vez mais fazer parte do ensino de História nas salas
de aula. "As biografias permitem que acessemos os processos históricos
por meio dos fragmentos deixados pelas pessoas", diz o historiador
Luiz Gustavo Cota.

Esclarecemos por meio do nosso consultor cinco dúvidas sobre o uso das
biografias em sala de aula:

biografias

 

 

 

 

 

Qual a diferença entre biografia / autobiografia e livro de memórias?

A biografia é a obra sobre a vida de uma determinada pessoa,
geralmente produzida por escritores, jornalistas e historiadores. Já
as autobiografias ou os livros de memórias apresentam as impressões
pessoais de uma pessoa sobre sua própria trajetória. Atualmente, as
biografias, especialmente as produzidas pelos historiadores,
apresentam não apenas um inventário das ações de uma determinada
pessoa durante sua vida, mas procuram estabelecer relações entre suas
experiências pessoais e o contexto no qual a personagem biografada
viveu. Nesse sentido, elas oferecem a oportunidade de compreensão de
um determinado período ou processo histórico ao qual uma pessoa está
relacionada. Já as autobiografias e livros de memórias têm um caráter
mais pessoal e podem revelar uma série de informações acerca das
visões de mundo do autor, seus círculos de sociabilidade etc. Ao
contrário da biografia, que pode se apresentar como um estudo, a
autobiografia representa uma fonte para o estudo, não apenas do autor,
mas também de seu tempo.


A biografia pode ser usada como documento histórico em sala de aula?

Sim, principalmente com as mudanças que têm ocorrido no conceito das
biografias no meio historiográfico. Nos últimos anos, as biografias
têm sido resgatadas como uma possibilidade de ter acesso a
determinados períodos históricos através da experiência pessoal dos
indivíduos. Ao contrário do que se fazia na história tradicional,
preocupada com os "grandes acontecimentos", a atenção dos
historiadores foi direcionada também para os indivíduos,
principalmente as pessoas comuns. O estudo das experiências
individuais tira as pessoas de um universo particular e as insere na
coletividade de um tempo.

Como a análise de uma determinada personalidade pode explicar um tema
histórico mais amplo?

A análise de uma biografia faz a ponte entre as experiências vividas
por um indivíduo no contexto histórico em que ele estava inserido, e
as influências exercidas pelo meio, o que permite uma compreensão mais
clara da trajetória analisada.

A chamada micro historia é uma das correntes da História que melhor
trabalha essa questão por procurar estabelecer a relação entre a
microanálise de um objeto particular e o contexto no qual está
inserido, um universo maior.

Hoje proliferam as autobiografias de anônimos e de historiadores. Qual
é a importância deste tipo de documento para o ensino de História?

Durante muitos anos a chamada História tradicional sofreu com o
fetiche pelas "grandes personagens", o que fazia com que população
comum ficasse à margem dos registros históricos. Atualmente, as
trajetórias individuais foram revalorizadas, com a diferença que todo
e qualquer indivíduo é considerado como uma importante peça dentro do
processo histórico, indistintamente. Barões, escravos, generais ou
empregadas domésticas são hoje objeto dos estudos biográficos, através
dos quais podemos ter acesso às estratégias de sobrevivência,
resistência e trabalho que estas pessoas viveram em respostas às
condições apresentadas por seu tempo.

Qual é o melhor modo de inserir as biografias e autobiografias na sala
de aula?

A melhor forma de trabalhar a biografia é colocá-la em uma discussão
já iniciada sobre determinado processo histórico, procurando situar a
personagem biografada dentro da discussão. O professor deve ressaltar
a forma as experiências do personagem se relacionam com um contexto
específico. É importante exemplificar a forma como as pessoas são
afetadas pelas mudanças sociais ocorridas, por exemplo. Tanto as
biografias, quanto as autobiografias, podem ser trabalhadas em sala de
aula a partir do momento que o professor deixa clara a relação entre a
experiência individual e o contexto histórico vivido pelo personagem.

Quer saber mais?

Três biografias indicadas no ensino de História

Condessa de Barral - A paixão do Imperador, Mary del Priore, 264 págs, Objetiva (21) 2199-7824.

Por meio da história da paixão de Dom Pedro II, a historiadora buscou fazer um retrato humano, tirando a aura imperial dos personagens e mostrando o cotidiano dos personagens durante o século 19.

Orfeu de carapinha. A trajetória de Luiz Gama na imperial cidade de São Paulo, Elciene Azevedo, 280 págs, Editora Unicamp, (19) 3521 7728.

Ótima biografia par abordar o período da escravidão. O livro narra a história de Luiz Gama, filho de um fidalgo português com uma africana livre. Apesar de ter vivido em cativeiro, Luiz Gama conquistou a simpatia de protetores poderosos, alfabetizou-se, deu provas de que tinha direito à liberdade e instruiu-se até ingressar na Academia de Direito de São Paulo.

As barbas do Imperador: Dom Pedro II, um monarca nos trópicos, Lilia Moritz Schwarcz, 624 págs, Companhia das Letras, 11 3707-3500.

Outra boa fonte para trabalhar temas da monarquia brasileira, especificamente o Segundo Reinado, por meio da trajetória de vida do Imperador D. Pedro II. O livro mostra como Dom Pedro II tornou a monarquia um mito ao descrever, por exemplo, a construção dos palácios, a mistura de ritos franceses com costumes brasileiros, a maneira como a boa sociedade praticava a arte de bem civilizar-se, a criação de medalhas, emblemas, dísticos e brasões, a participação do monarca e o uso de sua imagem em festas populares. 

 

 
 
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