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Capoeira para estudar a cultura corporal

Explorar essa manifestação na escola possibilita vivenciar e investigar a tradicional prática brasileira e aprofundar os saberes sobre ela

POR:
Camila Monroe
Ginga e estudo. Foto: Raoni Maddalena
GINGA E ESTUDO Durante a sequência
didática sobre a capoeira, as crianças da
4ª série da EMEF Professor Anézio Cabral
intercalaram momentos de pesquisa a
rodas de luta. As diferenças foram
relativizadas: meninos jogavam com
meninas, negros com brancos e crianças
maiores com as menores

A capoeira permite o estudo de três conteúdos curriculares diferentes, já que é ao mesmo tempo uma luta, um jogo e uma dança. "Prática da cultura corporal brasileira com longa tradição histórica, pode facilmente ser incorporada ao planejamento das aulas de Educação Física", explica Marcos Neira, professor de Metodologia do Ensino de Educação Física da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).

Na EMEF Professor Anézio Cabral, em Osasco, na região metropolitana de São Paulo, a capoeira fazia parte da rotina dos estudantes. Por isso, a professora de Educação Física Cindy Siqueira decidiu trabalhá-la com a turma da 4ª série. No mapeamento para identificar o que as crianças já conheciam sobre o tema, no entanto, a docente identificou uma série de equívocos e preconceitos. Elas acreditavam, por exemplo, que a luta era sobretudo praticada por homens negros, como ocorria em sua origem.

Ela ouviu os argumentos da turma e propôs uma discussão sobre os praticantes da capoeira (veja a sequência didática). Com base nessediagnóstico, definiu seu objetivo. "Pretendia desenvolver um trabalho que não valorizasse apenas a diversidade cultural em termos folclóricos mas que também questionasse a construção dos estereótipos e dos preconceitos." Para começar, a turma foi dividida em grupos, que simularam movimentos conhecidos em uma apresentação para os demais colegas. Quem não sabia nenhum movimento observou os colegas e tentou seguir. Depois de anotar tudo, Cindy classificou o que foi mostrado pelos alunos em uma série de listas, como a de conhecimentos ligados a gestos e técnicas corporais específicos da capoeira, de informações históricas e de curiosidades diversas.

Num segundo momento, a professora mostrou para o grupo imagens de crianças, idosos, homens, mulheres e pessoas com deficiências em rodas de capoeira. Muitas discussões surgiram. Quando uma aluna afirmou que, para ela, negros e brancos não poderiam jogar juntos, os colegas a questionaram. Os argumentos eram bons. Eles citaram exemplos ligados à prática corporal, como jogos de futebol, esporte em que brancos e negros jogam juntos em todo o mundo.

Debates mediados aprofundam o aprendizado

Uma boa ideia para ampliar o conhecimento sobre a capoeira é propor pesquisas em diversas fontes, como livros e filmes. Cindy usou o curta-metragem Maré Capoeira, que conta a história de um garoto filho de capoeiristas ao mesmo tempo em que mostra informações a respeito da atividade praticada por eles.

Antes da exibição, ela pediu que os alunos registrassem cenas que lhes chamassem a atenção durante a exibição do filme. Terminado o filme, foi proposta uma roda de conversa para a leitura das anotações. Os resultados foram positivos. "Eles haviam articulado as reflexões feitas durante as aulas com as novas ideias trazidas pelo filme. Com base nisso, unir as listas construídas anteriormente com as informações recentes foi fácil", diz Cindy. Paralelamente à pesquisa, a turma arriscava-se nos movimentos da capoeira com a orientação da professora.

Na etapa seguinte, instruídas previamente e com caderno em mãos, as crianças entrevistaram um mestre de capoeira convidado, Marcos Moreira, que respondeu a uma série de perguntas e demonstrou movimentos diferentes dos que conheciam. "Trouxe um profissional que ensina a prática a crianças com deficiência intelectual. Para a minha turma, isso foi uma grande descoberta, o que aumentou ainda mais o interesse pelo convidado", afirma a docente.

A oportunidade serviu também para aprofundar o conhecimento sobre a relevância cultural e histórica da manifestação, uma recomendação prevista nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). "É importante conhecer e compreender os contextos das manifestações populares, pois quase sempre elas estão ligadas a importantes momentos da história de um país", explica Fabio D?Ângelo, selecionador do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10. Antes de assistirem ao filme e à entrevista com o convidado, muitas crianças acreditavam que a capoeira era apenas uma diversão para os escravos vindos da África. Descobriram, depois, que ela era um instrumento de resistência e de protesto e que foi proibida pelo governo de 1890 a 1935.

A participação de Moreira também permitiu à educadora rever suas ações durante a realização do projeto. "A entrevista desencadeou modificações significativas no conteúdo do meu planejamento para a execução dos próximos trabalhos com a capoeira, além de ter sido uma boa forma de avaliar o que eu havia tratado", diz ela. Na avaliação final, Cindy retomou questões já problematizadas, leu com os estudantes os registros feitos e relembrou oralmente algumas das informações tratadas.

Uma roda de capoeira, da qual participaram todos os alunos, também foi organizada. Com a ajuda de Moreira, eles compreenderam as letras das ladainhas (nome que recebem as canções utilizadas) e elaboraram novas composições. Todas elas eram baseadas em exemplos de canções apresentadas pela professora e pelo capoeirista. A discussão sobre pares, que ocorreu inicialmente, foi retomada e ficou decidido que meninos lutariam com meninas, negros com brancos e crianças maiores com as menores. As diferenças foram minimizadas e, ao fim, as canções foram apresentadas em outras rodas de capoeira da comunidade, em que todos aprenderam que a manifestação deve ser feita sem barreiras.

Reportagem sugerida por 3 leitores: Antonio Damada, Sabará, MG, Geisa Lizana, Santo André, SP, e Mauricio Priess da Costa, Curitiba, PR

O conteúdo do 6º ao 9º ano

De acordo com os PCNs, o trabalho varia em função do contato anterior dos alunos com a prática. Caso os jovens do 6º ao 9º já tenham estudado algo sobre a capoeira, é possível propor outras vertentes, como suas diferenças regionais, sua transformação ao longo do tempo e outros marcadores sociais que a influenciam - o caráter religioso, por exemplo. Você também pode organizar uma visita a uma academia a fim de aproximar os estudantes de rituais que a envolvem, como o batismo, a roda e as relações hierárquicas.

Quer saber mais?

CONTATOS
EMEF Professor Anézio Cabral
, tel. (11) 3591-7690
Fabio D'Ângelo
Marcos Neira

BIBLIOGRAFIA
Pedagogia da Cultura Corporal
, Marcos Neira e Mario Luiz Ferrari Nunes, 296 págs., Ed. Phorte, 
tel. (11) 3141-1033, 33 reais

INTERNET 
Íntegra do filme Maré Capoeira
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