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Roxane Rojo: "Há muitos países recuando no tempo com seus currículos. Enquanto aqui estamos evoluindo rapidamente"

Professora da Unicamp elogia a versão final da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e foca em como o professor pode transformar a classe em um espaço de profunda interação

Autor: NOVA ESCOLA

“A minha percepção é a de que finalmente entramos no século 21, com um avanço importante na área de Linguagem.” É assim que a professora do Departamento de Linguística Aplicada da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Roxane Rojo, define as mudanças trazidas pela BNCC para o componente. A docente é uma das mais importantes estudiosas do ensino de Língua Portuguesa no país e autora de livros como Hipermodernidade, Multiletramento e Gêneros Discursivos.

Roxane afirma que se surpreendeu com a última versão da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que traz avanços expressivos, mesmo em relação ao contexto internacional. “Há muitos outros países, inclusive europeus, que, a meu ver, estão recuando no tempo com seus currículos. Enquanto aqui estamos evoluindo rapidamente”, diz. Em entrevista concedida à NOVA ESCOLA, a especialista explica essa percepção, além de elencar os principais desafios colocados ao professor.



Em relação aos PCNs, a BNCC traz avanços importantes para o componente da Língua Portuguesa?

Roxane Rojo: A Base consolida alguns conceitos que já estavam contemplados nos PCNs, como a importância de se basear o estudo da língua nas práticas de linguagem. Por outro lado, ela traz componentes novos, relacionados ao impacto da tecnologia, às competências e habilidades que precisarão ser desenvolvidas nesse novo contexto. E a inclusão dos novos gêneros expressa isso. Na minha opinião, a Base traz posicionamentos, nas competências e habilidades, condizentes com o momento histórico e social que estamos vivendo. É claro que isso também vai impactar o papel do professor, que deve ser o de alguém que compartilha conhecimento. Em muitos casos, o professor não será o único especialista no assunto, os alunos vão trazer seus conhecimentos e haverá uma troca, a meu ver, muito proveitosa.

Como fazer a interlocução entre tantas práticas, objetos de conhecimento e habilidades apresentados no documento?
Eu acho muito importante lembrar que a Base não é um currículo, mas tem que ser obedecida. Os currículos têm que se basear nela, mas a maneira como vão desdobrar os pressupostos teóricos em conteúdos e fazer essa interlocução é algo que os estados, os munícipios e as escolas terão de discutir. Um ponto que eu considero muito importante, em relação a essa questão, é que sejam contempladas as realidades locais. Tanto para a escolha do que será estudado – quais gêneros entre os inúmeros propostos, por exemplo --, quanto para a maneira de apresentar esse conteúdo aos alunos, dependendo dos recursos que cada escola e cada professor consegue acessar.

Os Campos de Atuação, que aparecem mais estruturados na Base, também vão influenciar na prática do professor, no dia a dia da escola?
Vão influenciar muito. Estamos partindo da concepção de que os textos fazem sentido – sejam eles digitais ou impressos – em um determinado contexto, regido pelo campo de atuação. Afinal, as interações são feitas de maneiras diferentes dependendo do contexto. Agora, a ideia é que o professor preste atenção a como esses campos funcionam e como os gêneros se encaixam em cada um. Em resumo, o objetivo é se aproximar mais das habilidades de interpretação do que de decodificação. A proposta é trazer o conceito de gênero para algo que faz parte da vida da linguagem e não para algo que simplesmente organiza estruturas. O objetivo não é fazer o aluno estudar qual é a forma de composição dos gêneros, mas preparar o jovem para ler, entender, inferir a ideologia que o texto traz e ainda ser capaz de atuar em relação àquele conteúdo.

“O objetivo é se aproximar mais das habilidades de interpretação do que de decodificação. Não é fazer o aluno estudar qual é a forma de composição dos gêneros, mas preparar o jovem para ler, entender, inferir a ideologia que o texto traz e ainda ser capaz de atuar em relação àquele conteúdo.”

A Base traz muitos gêneros novos. Como isso deve chegar à sala de aula?
Há uma infinidade de gêneros citados e é preciso que se escolha aquilo que combina com os objetivos de aprendizagem, com o que se pretende ensinar. Gêneros, hoje em dia, são multimodais, multissemióticos, misturam linguagens, na internet predominantemente. Mas muitos deles se complementam. Posso fazer os alunos lerem Dom Casmurro, de Machado de Assis, e, ao mesmo tempo, confrontar com trechos da minissérie televisiva Capitu, por exemplo.

Há que se considerar a falta de acesso à tecnologia, dentro das escolas, como uma barreira?
Acho que essa é uma questão menor. Atualmente, todas as escolas estão razoavelmente conectadas e boa parte dos alunos, em todas as classes sociais, tem um celular. O maior desafio, para o professor, vai ser o de se familiarizar com esses novos gêneros. Mas, ao mesmo tempo, ele terá a oportunidade de aprender com os alunos. Para isso, a pedagogia tem que mudar, tem que haver mais espaço para a interação.

A Base propõe um diálogo muito mais amplo com a cultura pop. O que deve surgir dessa interação?
A ideia é trazer o que os alunos estão familiarizados a consumir fora da escola, com o objetivo de prepará-los para uma leitura mais crítica desses conteúdos, como vídeos etc. Não é só para valorizar, para dizer que estamos atualizados, mas até para colocar os gêneros mais tradicionais, como os jornalísticos e a literatura, em relação com esses gêneros que os jovens conhecem bem, e que são mais recentes. O aluno pode, por exemplo, fazer uma playlist e, depois, escrever uma resenha baseada naqueles artistas que ele escolheu e de quem ele realmente gosta. Ou seja, a ideia não é só trabalhar os gêneros novos, mas ampliar as possibilidades, até mesmo para dar a oportunidade ao aluno de comparar e perceber as diferenças entre eles.

Na sua opinião, as questões relacionadas à gramática perderam espaço na Base?
Bakhtin (Mikhail Bakhtin, pesquisador, pensador e filósofo dedicado ao estudo da linguagem humana, que viveu entre os anos de 1895-1975) já dizia que deveríamos partir do contexto em que o enunciado foi gerado, em um segundo momento entender que impacto ele tem na forma de composição do enunciado – o que eu escolho falar primeiro, o que vem depois – e, em terceiro lugar, pensar no estilo de enunciado, que são as escolhas gramaticais. Quando a gente fala em Campo de Atuação, caminhamos nesse sentido. Então, não é que a Gramática não apareça, a questão é que ela não constitui, por si só, currículo. No lugar dela, entraram as práticas de linguagem. E agora estamos falando de práticas de linguagem em gênero. A gramática está, portanto, embutida no gênero que o professor escolher. Dessa forma, o aluno vai olhar a gramática em seu funcionamento e não como um conteúdo isolado.

“O maior desafio, para o professor, vai ser o de se familiarizar com esses novos gêneros. Mas, ao mesmo tempo, ele terá a oportunidade de aprender com os alunos. Para isso, a pedagogia tem que mudar, tem que haver mais espaço para a interação.”

Como é possível avançar na produção multimodal, dentro da escola?
Uma coisa é certa: o digital precisa entrar na escola. Comparar uma notícia que saiu na maior rede de televisão com várias versões desse mesmo fato publicadas na Internet, por exemplo, pode ser muito interessante. Mas produzir esse conteúdo vai depender de um trabalho conjunto entre professor e aluno. Porque o professor pode até ser um usuário que aprecia conteúdos multimodais da Internet e da televisão, por exemplo. Mas, em geral, não vai ter as habilidades de produção. Pode ser que assista vídeos, mas não saiba editar clipes. Por outro lado, o aluno pode ter mais experiência em edição e mais dificuldade com o roteiro, que é algo que o professor domina. Cada um precisa entrar com o seu saber.

De que forma os professores podem trabalhar para trazer o aspecto da diversidade cultural expressa nos textos?
Acho que isso precisará ser pensado no momento de se organizar os currículos, porque é importante que essa diversidade realmente apareça e seja contemplada. Eu colocaria mais a questão da diversidade em relação a aspectos regionais, rurais e das culturas ancestrais, como as indígenas. Isso está presente na Base, na minha opinião, de maneira muito tímida.

Onde os professores poderão buscar apoio para fazer as adaptações necessárias?
Os professores receberão material digital complementar, agregado ao material didático tradicional, o que vai ajudar a minimizar as dificuldades com a produção de conteúdos multimodais, um desafio sobre o qual nós já falamos. Porém, só isso não será suficiente. É necessário demandar mais material de apoio para as aulas, para que os objetivos colocados possam ser atingidos. Outro caminho possível, que eu volto a reforçar, é estar aberto para aprender com o aluno, o que pode ser, inclusive, muito divertido.


Continue navegando no Guia da BNCC de Língua Portuguesa

1) O que mudou

2) Comparação PCN e BNCC

3) O que e como ensinar: Fique por dentro das competências do componente

4) Na prática: Conheça seis gêneros digitais para trabalhar com a turma

5) Artigo: Entre tantas mudanças, muitas continuidades

6) VOCÊ ESTÁ AQUI – Entrevista com a especialista Roxane Rojo

7) Saiba mais: 11 livros e 4 sites para se aprofundar

8) Teste: Você sabe tudo sobre as mudanças na disciplina?