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E-books sobre esporte, do início ao apito final

Escrevendo narrativas, a moçada ampliou o vocabulário e aprendeu o simple present

POR:
Fernanda Puleghini
Ilustrações: Fernanda Carareto

Escrever um livro é coisa complexa: envolve pesquisa do tema, seleção do tipo de texto, redação, revisão e ilustração. Se a ideia for produzir um e-book, um livro digital, acrescente algum recurso multimídia (a leitura por um narrador, por exemplo) e a digitalização do material para download pela internet. Imagine, agora, fazer tudo isso em outro idioma... A professora de Língua Estrangeira Dayane Machado avisou a turma de 9º ano que o trabalho seria extenso - quatro meses, para ser exato. "Mas os alunos gostaram bastante da ideia", conta a docente do CIEP Professora Rosa da Conceição Guedes, em Piraí, a 78 quilômetros do Rio de Janeiro.

Preproduction
Começou com a definição de um assunto. No caso da turma de Dayane, os campeões de votos foram as Olimpíadas de Londres e os Jogos Paraolímpicos - os estudantes demostraram grande interesse porque os dois eventos haviam sido realizados alguns meses antes. Para a sua classe, vale uma sondagem para identificar quais temas despertam mais entusiasmo e curiosidade nos jovens. Com base na escolha, é imprescindível estabelecer os objetivos de aprendizagem para, só então, selecionar o gênero textual. "Os gêneros são a concretização das práticas de linguagem. É tendo claro o que deseja que os alunos aprendam que o professor deve selecionar o gênero que promove o uso daqueles saberes", explica Sandra Baumel Durazzo, consultora em línguas estrangeiras da Target Idiomas. 

O foco de Dayane era levar os estudantes a utilizar as formas verbais do simple present, além de pronomes, substantivos, advérbios e conectivos. A turma também possuía um repertório bastante limitado em língua inglesa. Por isso, a opção foi trabalhar com a narrativa informativa e a instrucional. "Esses textos requerem, naturalmente, o uso do presente e uma gama variada de substantivos e advérbios, além de serem bastante frequentes quando se trata do tema esporte", explica a consultora. Quando a narrativa tem um caráter informativo (um pequeno texto que aborde a história de um esporte, por exemplo), o professor pode ampliar a lista de conteúdos a ser ensinados, trazendo comparativos e superlativos para a sala de aula. Por outro lado, se a escolha recair na narrativa instrucional (como uma opção que aborde regras de uma modalidade olímpica ou orientações para uma prática específica), os verbos imperativos e modais também podem ser muito bem explorados. 

A etapa seguinte - fundamental - foi colocar a classe em contato com livros dos gêneros abordados. A circulação desse tipo de texto foi primordial para que a moçada tivesse ideia de algumas marcas típicas das narrativas: personagens, diálogos, tempo, espaço e um enredo que transmita dados sobre um fato específico (no caso da informativa) ou que ensine a realizar uma tarefa (no caso da instrucional). "Professores que têm de lidar com turmas cujo repertório é limitado, como as de Dayane, devem fazer esse tipo de contextualização com livros descomplicados, em que o desafio linguístico é possível. Os infantojuvenis, por exemplo, são uma ótima opção, pois não são necessariamente simples do ponto de vista do vocabulário, mas apresentam estruturas repetidas, o que favorece a compreensão da narrativa", explica Sandra.

Em seguida, era o momento de mergulhar no vocabulário do assunto a ser tratado. A classe realizou exercícios de caça-palavras, palavras-cruzadas, leitura de reportagens, conversação e listening, sempre tendo o esporte como tema. "Peguei ideias de sites como o enchantedlearning.com, que propõe atividades separadas por assuntos, para que os estudantes se sentissem mais seguros no momento de escrever os textos. Essa imersão permitiu que eles se ambientassem com palavras-chave e aumentassem o nível de conhecimento", explica a docente. Na internet, a turma também buscou informações sobre tipos de esportes e seus componentes, como vestuários, acessórios e regras. O material foi organizado em um banco de dados para posterior consulta na hora de produzir as histórias.

Time to write
Divididos em grupos de quatro, os jovens escolheram o assunto central do livro e pensaram sobre a estrutura da história que criariam, definindo tempo, espaço, personagens e enredo. "Ao reunir os estudantes, o professor pode definir qual critério deseja usar: agrupamento por nível de conhecimento, com equipes homogêneas e que falam de igual para igual, ou por competências, unindo um aluno que possui bom vocabulário ao que conhece regras e a outro que seja um bom ilustrador, fazendo com que cada um compartilhe seu conhecimento com o colega", afirma Sandra.

Os times começaram, então, a formatar as histórias, estruturando frases com o uso do simple present como tempo verbal. Para Sandra, essa restrição facilitou a produção escrita, deixando os alunos mais confortáveis para o desenvolvimento das histórias. "Determinar um tempo verbal pode ajudar o professor a trabalhar competências específicas e a mensurar o que está sendo aprendido, pois ele consegue focar suas intervenções naquele conteúdo - desde os modelos oferecidos, as atividades de sistematização e a revisão dos textos, até a avaliação final", conta. 

Na etapa de revisão dos materiais, Dayane fez intervenções que levaram os alunos a corrigir erros e a aperfeiçoar o estilo. "Vamos ampliar a frase usando o vocabulário da história?", foi uma das sugestões para a sentença "I go and swim in the backgrounds", transformada em "I hold my breath and practice swimming under the water" após a reavaliação feita pelo grupo. Já em "Hands can score points to my team", a educadora sinalizou: "A frase está sem sentido. É preciso modificá-la". A reformulação proposta pelos jovens foi acertada: "Hands can get the ball and score in water polo".

Let's get digital

Trechos de Swim Time, uma das narrativas digitais criadas pelos estudantes.

Nos computadores, a turma digitou as produções em programas como o Word e o BrOffice. Sandra sugere que, nessa etapa, o professor utilize a ferramenta de autocorreção disponível em alguns editores de texto, que sinaliza possíveis erros enquanto o material está sendo digitado e pode funcionar como uma etapa complementar de revisão. "Aprender a reconhecer as marcações e buscar soluções para falhas de ortografia ou gramática permite ao estudante resolver as questões com autonomia. Além disso, trata-se de um feedback imediato: ele recebe a informação sobre a adequação no momento da escrita e, assim, interage com o texto buscando correções que se relacionam com os conhecimentos que possui e que estão ativados naquele momento", conta.

Para trabalhar aspectos como oralidade e pronúncia, a educadora propôs que os grupos narrassem suas histórias para que fossem gravadas em áudio. Ela trocou os livros entre as equipes e iniciou as gravações com um celular. A fim de atender a todos na busca pela pronúncia correta de algumas palavras, Dayane mostrou à turma o Google Tradutor - ferramenta on-line e gratuita que mostra, com recursos de áudio, a pronúncia das palavras. "Esse recurso serve de apoio e é eficaz para momentos em que o professor não consegue estar disponível para toda a classe. A avaliação humana é sempre essencial, mas esse tipo de ferramenta é válida para incentivar o jovem a ir atrás da informação e até questioná- la", comenta Sandra. 

Pensando em tornar o material público para acesso dos mais variados leitores, a educadora pediu que os alunos incluíssem as histórias no editor on-line Calaméo - que permite a publicação gratuita de livros, incluindo a experiência de folhear as páginas.

Mas terminar os livros não significou concluir o projeto. A professora aproveitou o conteúdo produzido para explorar uma barreira comum no aprendizado de uma língua estrangeira: a vergonha dos estudantes ao falar em público. "Convidamos funcionários da escola para uma apresentação dos livros, com o uso de um projetor de vídeo. Como o editor on-line não tinha recursos de áudio, os alunos leram as histórias conforme as páginas iam sendo projetadas. Assim, conseguimos trabalhar novamente a oralidade", finaliza a docente.

 

Resumo

1. A escolha do tema Faça uma sondagem para entender sobre quais assuntos a turma gostaria de escrever a respeito. Eleja o mais votado para a atividade.

2. A seleção do conteúdo Defina quais conteúdos você deseja trabalhar com os estudantes. Então, escolha o gênero textual mais apropriado para atingir os objetivos de ensino traçados. 

3. Produções digitais Promova a criação de livros digitais. Os alunos devem desenvolver todas as etapas de produção de uma obra - e utilizar recursos multimídia durante o trabalho.