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Jornalismo

Andreas Schleicher: "Qualidade na Educação exige metas ambiciosas"

Para o físico alemão responsável pelo Pisa, é preciso estabelecer padrões elevados de aprendizagem sem deixar nenhum aluno para trás

PorPaola Gentile

01/11/2008

Andreas Schleicher. Foto: Rodrigo Erib
Andreas Schleicher

Em 2009, estudantes brasileiros de 15 anos participarão mais uma vez do exame global de maior repercussão sobre a qualidade do ensino: o Pisa, sigla em inglês para Programa Internacional de Avaliação de Alunos. Nossos resultados na prova de 2007 foram desanimadores: o Brasil ficou em 53º lugar em Matemática e 52º em Ciências, entre 57 participantes. Em leitura, fomos o 48º, entre 56 nações, já que os americanos não fizeram o teste. O desempenho chocante, no entanto, pode apontar estratégias para deixar a rabeira do ranking. Na opinião do responsável pelo Pisa, o alemão Andreas Schleicher, traçar comparações entre resultados - algo corriqueiro nas Ciências Naturais, mas pouco comum no campo da Educação - é uma maneira eficaz de entender por que jovens de países como Finlândia, Canadá e Coréia do Sul possuem desempenho tão superior ao dos brasileiros. As principais descobertas indicam que as nações bem-sucedidas miram alto, estabelecendo metas de qualidade ambiciosas, e garantem que todos consigam de fato aprender. Nesta entrevista a NOVA ESCOLA, concedida durante visita a São Paulo, em maio, Schleicher detalha como estruturar essas práticas e, assim, levar o Brasil a encontrar seu caminho para avançar mais rápido.

O que os países lanterninhas do Pisa precisam fazer para melhorar o desempenho em Educação?
ANDREAS SCHLEICHER  Quem hoje está nas primeiras posições sempre estabeleceu padrões ambiciosos de qualidade e fez questão de compartilhá-los com a sociedade, deixando bem claro para pais, alunos e escolas aonde se queria chegar. Nenhum dos líderes do ranking foi tímido no estabelecimento de metas.

O que significa ser ambicioso em termos de Educação?
SCHLEICHER 
Significa definir objetivos altos para a rede e padrões individuais elevados, amparado pela certeza de que todo aluno é capaz de ter um bom desempenho - respeitando, é claro, sua trajetória particular de vida. Em geral, os sistemas baixam as expectativas em relação aos estudantes com dificuldades de aprendizagem, fazendo com que eles fiquem presos a essa situação, provavelmente com outros colegas de resultados ruins. Por isso, é comum que alunos ditos "problemáticos" se concentrem em escolas de baixo desempenho. É o sistema que os leva ao fracasso, não o contrário.

Não é irrealista exigir que países com sérias dificuldades econômicas e sociais estabeleçam metas ousadas?
SCHLEICHER  De jeito nenhum. Muita gente reclama que as comparações feitas com base no Pisa, que coloca países pobres ao lado das nações mais desenvolvidas, são injustas. Mas, se finlandeses e canadenses com dificuldades aprendem quando estão em um ambiente educacional adequado, isso também pode ocorrer em nações menos desenvolvidas.

Como garantir que todas as crianças aprendam?
SCHLEICHER  Reconhecendo e aceitando a diversidade. No passado, concebíamos as escolas no estilo militar: o professor dava a aula para todos os alunos de forma igual. Mas os estudantes são diferentes entre si, cada um vem de um contexto econômico e familiar distinto. As escolas devem lidar de forma construtiva com esse tipo de diferença, o que é um grande desafio. É interessante notar que nos países em que o ensino é seriado e excludente, a disposição dos docentes de se engajar para garantir o aprendizado é muito menor. E os alunos percebem isso. Quando perguntamos a eles se o professor conhece seu potencial individual, ele geralmente diz que o educador é bom, mas também que o trata da mesma forma que a todos os outros colegas.

De que maneira a escola deve lidar com a questão da diferença?
SCHLEICHER 
Até bem pouco tempo atrás, a estratégia mais comum era separar os estudantes em grupos. Quem não se saía bem continuava mal no ano seguinte ou era mandado para uma escola com menores exigências. A diversidade era enfrentada classificando os estudantes e, assim, os professores se isentavam da responsabilidade de ensinar. Mas é impossível dar a mesma aula para 30 crianças diferentes. Escolas e educadores devem perceber que alunos comuns têm capacidades e talentos fantásticos. Onde estão os pontos fortes de cada um deles? Como determinada criança pode desenvolver o tipo de talento que tem? Trata-se de personalizar o aprendizado para fazer com que todos cresçam.

Geralmente o professor é responsabilizado pelo fracasso do aluno, nunca pelo sucesso. Como mudar isso?
SCHLEICHER 
Os sistemas educacionais precisam oferecer soluções, e os professores, usá-las. No Japão, um professor não tem como se livrar de um aluno que não aprende, mas ele também não é abandonado com o problema. A escola assume junto a responsabilidade pelo desenvolvimento do estudante.

O aprendizado deve ser buscado por meio de currículos específicos ou diretrizes amplas?
SCHLEICHER 
Antigamente, dizia-se ao professor exatamente o que ele deveria fazer e existia um currículo bem específico e fechado. Na minha opinião, esse não é o caminho, mas também não pode haver liberdade total. O que funciona de verdade é indicar ao docente o que realizar, dando a oportunidade de escolher os próprios métodos. Mas não pode ser cada um por si. Os docentes precisam trabalhar em conjunto e em articulação com grupos locais para formular as propostas mais adequadas à realidade de cada lugar. Na Finlândia, por exemplo, não há um currículo único, mas existem padrões nacionais e cada comunidade é responsável pelo desenvolvimento curricular.

De que forma esse trabalho coletivo pode contribuir para a melhoria da qualidade da Educação?
SCHLEICHER  Primeiro, porque isso gera um envolvimento muito maior dos educadores na tomada de decisões sobre como ensinar. Segundo, porque o contato com pessoas que exercem várias outras profissões cria uma atmosfera muito positiva de soma, recombinação e síntese de saberes de diferentes campos. É um processo mais afinado com a atual sociedade do conhecimento, pois ultrapassa a mera transmissão de saberes.

Nesse sentido, parece que a Educação está ainda bem atrasada em relação a outras áreas.
SCHLEICHER 
Sim. Em geral, essa partilha de saberes não ocorre nos sistemas educacionais da grande parte das nações. Um exemplo é a atitude diante dos erros. Na medicina, quando se comete um erro em um hospital, outras pessoas em outros hospitais aprendem com ele. Isso se dá o tempo todo e ajuda a fazer avançar o conhecimento. A troca de informações é constante e ocorre em nível mundial. Na Educação, ao contrário, o erro não é usado para melhorar a profissão. Da mesma forma, se você é um bom professor e criou soluções inteligentes para ensinar um determinado conteúdo, o mais provável é que ninguém saiba disso. Se sua escola é boa, é difícil que alguém aprenda com base nas experiências dela. Nesse ponto, a maioria dos países precisa melhorar muito em relação ao que vem sendo feito.

Além de metas ambiciosas e atenção a todos os alunos, que outros aspectos os líderes do Pisa compartilham?
SCHLEICHER  Uma característica comum aos sistemas educacionais eficientes é que todos eles atraem as pessoas mais capacitadas para o Magistério. Os salários iniciais são bons, o cargo é valorizado e há a perspectiva de crescimento profissional. Também existe um eficiente sistema de apoio ao trabalho em sala de aula. Outro aspecto é que há a constante busca para equilibrar a autonomia do professor e da escola com a grande responsabilidade que os acompanha.

Autonomia e responsabilidade não são princípios conflitantes?
SCHLEICHER  De jeito nenhum. Em muitos países, é possível observar que esses dois fenômenos andam de mãos dadas. Na Suécia, um diretor de escola pode decidir se contrata mais professores ou se compra mais livros. Ou, no caso de ele ter um docente excelente na equipe, se deve pagar a ele mais do que aos outros. Quer dizer, esse gestor tem autonomia econômica. Mas ele também é responsável pelo comprometimento com as diretrizes nacionais, os parâmetros que deixam explícitos os resultados a alcançar. Ou seja, cada escola tem independência para administrar seus recursos, mas o preço dessa liberdade é o compromisso com um padrão de qualidade.

Aferir qualidade exige avaliação externa. Os educadores dos países de ponta não consideram isso uma interferência em seu trabalho?
SCHLEICHER 
Não há nenhum tipo de constrangimento. A avaliação é encarada como um sistema que fornece permanentemente informações detalhadas sobre o desempenho de alunos e professores. Os dados mostram os pontos que precisam ser melhorados, servindo mais como um diagnóstico e menos como uma amostra do nível onde se está.

O que os professores precisam fazer com esse diagnóstico?
SCHLEICHER 
Podem usá-lo para repensar a prática na sala de aula. Se um professor recebe apenas a pontuação de sua aula, é muito provável que não saiba o que fazer com ela. Já um profissional que utiliza os resultados como forma de aprimorar sua atuação tem em mãos uma ferramenta muito útil. Com a avaliação, o professor se vê no espelho, percebendo com clareza pontos fortes e fracos.

Há algum país em que o Brasil poderia se espelhar para dar esse salto de qualidade nas escolas?
SCHLEICHER  Não acho possível copiar um sistema educacional. O que é factível é observar as atitudes que tiveram êxito. Por exemplo, a China é um país pobre, mas o valor que a sociedade atribui à Educação é enorme. Não é por acaso que a instrução se constitui em um dos principais fatores de mobilidade social no país. Outro exemplo: a Coréia do Sul, que na década de 1960 tinha um sistema educacional muito pouco desenvolvido - e atualmente é um dos melhores do mundo. A razão da mudança foi a mesma: a valorização da Educação, algo que ainda precisa ser criado no Brasil.

Mas é possível conseguir Educação de qualidade sem o desenvolvimento social e econômico?
SCHLEICHER 
É preciso antes de tudo averiguar o que é causa e o que é efeito. Em geral, a atitude de quase todos os países da América do Sul tem sido a de esperar que a economia deslanche para, quando enriquecer, ter um ensino de qualidade. Mas os exemplos da Coréia do Sul e da China mostram o contrário: essas nações são duas das que mais se desenvolvem hoje porque investiram em Educação. Anteriormente, o mesmo aconteceu com os Estados Unidos, que após a Segunda Guerra Mundial aplicaram muito dinheiro em instrução e vêm colhendo bons resultados por décadas. A atitude de aguardar o crescimento econômico para depois ?comprar? mais Educação é improvável de acontecer. O desenvolvimento econômico não garante nada. Nem é preciso olhar para fora para perceber isso: basta ver as escolas brasileiras que têm recursos, mas não apresentam bons resultados quando comparadas à média. Por outro lado, é possível apontar muitas instituições que, apesar das desvantagens sociais, se saem bem.

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BIBLIOGRAFIA
A Melhoria da Qualidade e da Eqüidade na Educação: Desafios e Respostas Políticas, Andreas Schleicher, 72 págs., Ed. Moderna, tel. (11) 2790-1500 (edição esgotada) 

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