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Em foco | EJA


Por: Wellington Soares e Isabela Morais

A EJA atrai cada vez mais jovens

Apesar da queda nas matrículas nos últimos anos, a EJA ainda é uma opção para atender adolescentes e adultos com quem a escola regular falha

Rio de Janeiro: Focada na EJA, escola parte do princípio de que todos podem aprender e também podem ensinar. Crédito: Hans Georg/NOVA ESCOLA

Com 20 anos, Maria Isabela de Lima cursa o Ensino Médio da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Escola Fundação Roberto Marinho (FRM), no Rio de Janeiro. “Aqui é diferente, sinto que aprendo mais”, conta ela, que antes frequentava a EJA em uma escola estadual em Itaquaquecetuba (SP). Maria é uma das estudantes que estão dando uma nova cara para a EJA. “Ainda está no imaginário que o público é composto por pessoas de terceira idade em busca da alfabetização”, comenta Ana Lima, coordenadora do Índice Nacional de Alfabetismo Funcional (Inaf). Mas a maioria dos estudantes da EJA tem menos de 59 anos. 

A mudança é explicada pelo esforço que o país fez desde a década de 1980 para aumentar o número de matrículas, sobretudo no Ensino Fundamental. Com isso, a demanda tende a ser cada vez menor. Mas antigos problemas da Educação, como a evasão, a distorção idade-série e a baixa qualidade do ensino continuam tornando essa etapa necessária. “Não é possível ter uma única política [para a EJA], porque os públicos e as suas demandas são muito diferentes”, explica Roberto Catelli, da ONG Ação Educativa.

Antes de evadir 

A cidade de Brejo Santo, no Ceará, decidiu abrir turmas da EJA com o objetivo específico de combater a distorção idade-série, conta a secretária de Educação, Jacqueline Braga. A ideia era fazer com que estudantes que não estavam na série determinada para sua idade entrassem em turmas alinhadas ao seu perfil e, assim, impedir que essa situação os levasse a deixar a escola. 

As novas salas funcionam no período vespertino e atendem exclusivamente jovens que não estão na série adequada para sua idade. Maria Ingrid dos Santos, 14 anos, uma das estudantes atendidas pela iniciativa, chegou ao 6º ano com 13 anos. A jovem buscou pela turma de aceleração e diz estar feliz com a mudança. “Eu me sentia muito estranha com pessoas de 10, 11 anos. Não estava me sentindo bem. Agora consegui fazer amigos e me empolgar para estudar”, diz. 

Mesmo os professores sentem a diferença. “Em uma turma de EJA comum, há uma diversidade muito grande. Nessas turmas, o ritmo flui como em uma sala regular, e os estudantes sentem isso”, conta Allisson Bezerra, professor de História. A intenção é que, ao final do Fundamental, os jovens se matriculem em turmas regulares de Ensino Médio e continuem a sua trajetória educativa, de acordo com seus sonhos e projetos de vida. “Quero me tornar advogada”, conta Maria Ingrid

Políticas para a modalidade 

Ainda que haja uma demanda grande para a EJA, há cada vez menos programas governamentais voltados à modalidade. As matrículas vêm se reduzindo drasticamente: 28% entre 2008 e 2018, segundo o Inep. De acordo com Roberto Catelli, há corte e extinção de iniciativas. “Isso culminou com o fim da Secadi, no início do ano”, diz. 

A Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi) era a responsável por programas relacionados à EJA, como o Brasil Alfabetizado. Segundo o MEC, a responsabilidade agora está a cargo da Coordenação-Geral de Temas Transversais e Educação Básica Integral, na Secretaria de Educação Básica. 

Por atender a um público amplo, as políticas para a EJA também contemplavam essa diversidade. Na esfera federal, iniciativas como os Programas Nacionais de Inclusão de Jovens (Projovem), voltados à população urbana e à do campo, o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) e o Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (Proeja) foram formuladas para atender diferentes necessidades do público. Ainda não se tem certeza sobre como essas políticas seguirão no atual governo. De acordo com o MEC, elas serão reunidas em uma política única. 

Políticas importantes, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) também desconsideram a modalidade. Há uma única menção no documento, que diz que a BNCC deve servir de referência para que estados e municípios elaborem currículos específicos. “Há um consenso, entre especialistas, de que a Base não serve inteiramente para esse público. Seriam necessárias, pelo menos, mais menções a ele”, defende Roberto.

Opções às redes 

Fora das redes de ensino, boa parte das iniciativas para a área concentra-se em organizações do terceiro setor, em parceria com o setor público, e em universidades. É o caso dos programas de EJA na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Eles nasceram por iniciativa dos trabalhadores da UFMG, que perceberam que estavam em um espaço onde se constrói o conhecimento por meio da leitura e da escrita, mas que eles próprios não tinham completado o então primeiro grau”, conta Juliana de Melo, coordenadora do segundo segmento – equivalente aos anos finais do Ensino Fundamental. Os docentes são bolsistas dos cursos de licenciatura e pedagogia da universidade. Semanalmente, eles se reúnem com educadores do Centro Pedagógico para planejar as aulas e realizar formações que envolvem diversos temas, inclusive as características específicas da EJA, como a heterogeneidade das turmas. “É desafiador conciliar histórias de vida muito distintas e que apresentam possibilidades e demandas muito diferentes para a escola”, conta Maria da Conceição Fonseca, coordenadora do Programa de Educação Básica de Jovens e Adultos da UFMG. 

Para Ana Lima, tal desafio reforça que os projetos para EJA sejam pensados especificamente para esse grupo. “É desestimulante que o jovem ou adulto que evadiram sejam confrontados com um modelo idêntico ao retornar”, afirma a especialista. Formatos mais eficazes incluem horários flexíveis, turnos mais curtos e propostas curriculares baseadas na valorização dos conhecimentos trazidos pelos estudantes e seus diversos interesses. Já no Rio de Janeiro, na escola mantida pela Fundação Roberto Marinho, onde estuda Maria Isabela, as aulas são conduzidas por grupos de trabalho formados pelos próprios estudantes, com mediação do professor da turma. 

A escola atende os anos finais do Fundamental e do Ensino Médio, mas adota o modelo de unidocência, característico dos anos iniciais, no qual os educadores têm formação anual dentro das várias disciplinas. “Todo mundo tem a oportunidade de colocar sua vivência, então é muito rico: os mais jovens têm a visão dos mais velhos e assim por diante”, conta o professor João Brasil. “A dinâmica baseia-se no entendimento que todos têm o que ensinar e o que aprender”, diz Vilma Guimarães, gerente geral de Educação da FRM. O ensino colaborativo, que valoriza a diversidade, encoraja os estudantes e mostra opções para que eles sigam aprendendo, em um modelo diferente daquele que os fez desistir anteriormente. “Eu sinto que aprendo muito mais aqui, a escola normal era muito individualista e aqui todo mundo trabalha junto”, compartilha a jovem Maria Isabela, que quer estudar Direito e sonha ser promotora de Justiça.

Fonte: Anuário Brasileiro da Educação Básica - 2019 (Todos Pela Educação)

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