Professora cria telejornal para trabalhar com escrita e oralidade
Refletir sobre a oralidade é tão importante quanto aprender a escrita. A escola precisa pensar em ambas, que são partes de um mesmo fenômeno: a língua
01/08/2019
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Jornalismo
01/08/2019
Falar é tão natural que a gente esquece que existe uma série de aprendizados necessários para se comunicar de maneira eficaz. Tradicionalmente, a escola olha pouco para esse campo da linguagem, mas a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) colocou a oralidade com um módulo de aprendizagem específico. Essa questão preocupa a professora Mariana Nery, regente de turmas do Ensino Fundamental I da Escola Camões-Pinochio, no Rio de Janeiro. No ano passado, Mariana foi selecionada com 96 outros professores para formar o Time de Autores de NOVA ESCOLA, que criou 1,5 mil planos de aula de Língua Portuguesa, disponíveis gratuitamente no site novaescola.org.br/planos.
Uma das sequências didáticas feitas por Mariana era sobre oralidade: três planos de aula para o 2º ano que giravam em torno de um jornal falado, cuja forma mais comum é o telejornal, no qual os apresentadores de tevê informam o público partindo de textos escritos. Gestos, entonação, cenários e imagens de apoio são elementos que compõem um jornal falado, dando ao professor uma ocasião para explorar a linguagem verbal e não verbal. Mariana acredita – e a BNCC corrobora – que o trabalho com gêneros orais deve começar cedo. Mas é comum que os estudantes tenham algum contato com os gêneros orais como objetos de estudo só mais tarde. Esse era o caso dos alunos do 4º ano que ela recebeu em 2019, e que nunca tinham feito um trabalho sistemático sobre linguagem oral. Então, Mariana viu uma boa oportunidade de aplicar o plano que ela mesma tinha criado, com algumas poucas adaptações. “Pensei num jornal falado para reproduzir algo que já fizesse parte do dia a dia deles, porque um telejornal, a maioria já teve oportunidade de assistir”, conta a professora. Durante uma semana, a docente abriu espaço no planejamento para desenvolver a sequência.
Primeiro, propôs que as crianças conhecessem melhor o gênero. Como ela imaginava, a maioria dos alunos costumava assistir telejornais em casa, e sabia, em linhas gerais, suas características. À medida que os alunos falavam, a professora fazia perguntas que os provocavam a refletir sobre o tema: como a notícia é transmitida? Quantas pessoas apresentam o jornal? Elas falam do mesmo modo que falamos no dia a dia?
Em seguida, exibiu um trecho do Jornal Hoje, da Rede Globo, e fez perguntas sobre as notícias transmitidas, o apresentador, no que a fala dele se diferenciava de uma conversa informal. No fim, os alunos se reuniram em grupos para organizar um breve texto, a ser apresentado oralmente, sobre os telejornais e suas características. “Agora, independente da disciplina, eles querem no final da aula colocar oralmente a síntese do que foi trabalhado. Nem consigo deixar todos falarem porque a gente não tem tempo hábil para todo mundo”, comemora. Mas isso foi só o começo. Nas aulas seguintes, a missão dos estudantes foi planejar e gravar um jornal falado. Nesses pontos, Mariana adequou alguns passos do plano à idade dos alunos. Basicamente, aproveitou que os mais velhos possuem maior autonomia para que eles pesquisassem, sem a necessidade de sugestões, as notícias que queriam dar. Também foi possível ajustar detalhes mais ligados à comunicação não verbal, como gestos, entonação de voz etc.
Com a sala dividida em grupos, era hora de trabalhar na construção do roteiro, explorando as relações entre oralidade e escrita. Com base em reportagens pesquisadas previamente, os alunos reescreveram a notícia destacando os pontos principais para elaborar as manchetes. Depois, criaram os próprios textos. “No texto falado, não dá para alongar muito e é preciso se concentrar naquilo que vai gerar mais interesse”, diz Mariana. No dia da gravação, a turma improvisou um estúdio de tevê na sala: juntou carteiras para formar a bancada, posicionou o celular da professora para a filmagem e preparou até figurino para os apresentadores, que se revezaram na leitura das notícias sobre o que de mais importante aconteceu na escola e fora dela nos últimos dias.
Dois modos, a mesma língua
Uma das vantagens da opção de Mariana pelo jornal falado é a oportunidade de se quebrar a falsa dicotomia entre fala e escrita. No livro Fala e Escrita, coletânea organizada por Luiz Marcuschi e Ângela Dionísio, os autores mostram que não faz sentido desprestigiar a oralidade como algo cheio de incorreções, ou mesmo como um sistema independente da escrita. Eles lembram o óbvio: falamos mais do que escrevemos, e tanto a fala quanto a escrita possuem as suas finalidades. “Ambas têm um papel importante a cumprir e não competem. Cada uma tem sua arena preferencial, nem sempre fácil de distinguir, pois são atividades discursivas complementares. Em suma, oralidade e escrita não estão em competição. Cada uma tem sua história e seu papel na sociedade”, escrevem os pesquisadores na introdução.
A fala humana é uma condição inata. Quase todo mundo, um belo dia, fez a família se derreter ao pronunciar um desajeitado “mama” ou “papa” e foi aos poucos ampliando o vocabulário, articulando melhor os sons, até chegar ao ponto em que tudo fica ao alcance das palavras. “O aluno já sabe falar com propriedade a língua materna quando entra na escola. E essa fala influencia a escrita, sobretudo no período inicial da alfabetização”, lembra Tânia Rios, formadora do Centro de Estudos em Educação e Linguagem da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e uma das especialistas que participaram da construção dos Planos de Aula NOVA ESCOLA.
Além disso, a pesquisa na área de linguagem avançou no estudo dos gêneros orais e da forma como eles podem ser desenvolvidos na escola. Bernard Schneuwly e Joaquim Dolz são autores sempre citados nesse campo. O pesquisador Luiz Travaglia, da Universidade Federal de Uberlândia, em um artigo intitulado Gêneros Orais - Conceituação e caracterização, catalogou dezenas de gêneros divididos em 13 esferas (no quadro ao lado, você encontra os gêneros que merecem prioridade na aula, segundo o autor). “Com uma seleção criteriosa do que for trabalhado, o aluno terá um progresso muito grande. Observe que a exposição oral vai servir para muita coisa: respostas dos alunos em sala de aula, apresentação de trabalhos, exposição de conhecimentos em geral, apresentação de trabalhos acadêmicos entre outros e mesmo na conversação diária”, explica o pesquisador. “A tradição da escola é trabalhar a língua escrita, e os professores ainda têm alguma dificuldade para trabalhar o oral, até porque só agora começam a aparecer mais estudos sobre o assunto”, completa. Aos poucos (com um empurrãozinho da BNCC) professores como Mariana entendem com mais profundidade a importância da oralidade. Quanto aos alunos, estes vão falar cada vez mais – e não será por pura bagunça.
DÁ O QUE FALAR NA ESCOLA
Nem todo gênero oral cabe no currículo. Luiz Travaglia recomenda priorizar os mais formais e pouco praticados no cotidiano
Exposição oral
Inclui seminários, palestras e apresentações de trabalhos em geral. É o gênero mais praticado na escola e muito presente no Ensino Fundamental II - mas pode (e deve) ser desenvolvido desde cedo.
Debate
Tanto a modalidade deliberativa (quando se busca chegar a uma decisão ou consenso) quanto a opinativa (no confronto de posições diversas, como debates televisivos) devem ser praticadas e estimuladas na rotina.
Entrevista
Além da forma oral, o gênero abre espaço para discussões sobre a transformação de uma fala em um texto escrito, que pressupõe o uso de outras estratégias discursivas.
Notícias
Telejornais, como os analisados pela professora Mariana, configuram o inverso da entrevista: são textos orais que incorporam estratégias comunicativas da fala.
Discurso e dramaturgia
Gêneros como o discurso em várias situações (não apenas na política) e o teatro (texto feito para ser encenado pelos atores) também rendem reflexões sobre a relação entre fala e escrita.
Fonte: Luiz Travaglia (Universidade Federal de Uberlândia)
PARA SABER MAIS
Artigo Gêneros orais Conceituação e Caracterização
Luiz Carlos Travaglia.
Disponível em: bit.ly/art-travaglia
Livro Fala e Escrita
Organizado por Luiz Antônio Marcuschi e Ângela Paiva Dionísio.
Disponível em: bit.ly/fala-e-escrita
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