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Aprendizagem | Interdisciplinar


Por: Tory Oliveira

Como abordar a história das mulheres durante todo o ano?

As mulheres também foram escribas, administradoras, guerreiras e cientistas. Saiba como levá-las para a sala de aula o ano todo

Há mil anos, uma mulher de meia-idade, provavelmente uma freira, foi enterrada em um mosteiro em Dalheim, na Alemanha. Séculos depois, uma análise da arcada dentária da religiosa, publicada na revista científica Science Advances em 2019, lançou novas luzes sobre o papel da mulher na Idade Média ao encontrar lápis-lazúli, mineral raro e tão valioso
quanto o ouro usado para produzir pigmento azul, entre os seus dentes. A descoberta foi uma surpresa. Como uma mulher anônima poderia entrar em contato com tal produto? Para os pesquisadores, trata-se de evidência de que seria uma artista envolvida na criação das iluminuras que adornavam manuscritos medievais. Até então, a atividade estava associada a uma elite profissional religiosa do sexo masculino.

A freira de Dalheim não está sozinha: há muitos exemplos de invisibilidade e estereótipos de mulheres na História, em especial aquela aprendida na escola. Não é diferente nas outras disciplinas: de quantas cientistas, matemáticas ou filósofas conseguimos nos lembrar? Ao adicionarmos a raça e a classe às análises, o quadro fica ainda mais desigual. Faça um teste: quantos feitos ou nomes de mulheres negras ou indígenas você teve a oportunidade de aprender?

Há uma grande chance de que as contribuições das mulheres tenham sido invisibilizadas ao longo do seu percurso escolar. É possível também que o assunto só seja lembrado na escola em datas específicas, como 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Para Oldimar Cardoso, assessor do Time de Autores de NOVA ESCOLA e formador de professores, a ausência feminina na História está relacionada a uma carência teórica mais ampla, que também exclui outros grupos, como as pessoas negras e as indígenas. Além disso, em geral a História é ensinada como uma série de realizações político-institucionais: isso é o que aparece nos materiais didáticos e é cobrado nos vestibulares. “Nesse contexto, é difícil para o professor fazer algo diferente”, explica.

Para mudar a prática, uma recomendação é distribuir os conteúdos sobre mulheres ao longo do ano e evitar concentrá-los exclusivamente em datas especiais, como março. Outra saída é usar chaves do movimento feminista contemporâneo para questionar a História. Uma atividade prática seria pedir à turma para pesquisar sobre mulheres cientistas cujas invenções foram roubadas ou sua contribuição minimizada, por exemplo.

Em Ceilândia, no Distrito Federal, as histórias de mulheres tão diferentes quanto Malala, Anne Frank e Maria Carolina de Jesus fizeram parte do projeto Mulheres Inspiradoras, criado em 2014 pela educadora Gina Ponte. O projeto envolveu Língua Portuguesa, História e Geografia. A partir de uma reflexão inicial sobre as representações da mulher na mídia, as turmas estudaram a biografia de dez mulheres e seis livros de autoria feminina. Em grupos, os estudantes do 9º ano realizaram uma exposição oral e produziram um cartaz informativo sobre a mulher escolhida. Além disso, produziram um texto autoral sobre a história de vida de uma mulher do seu círculo social que considerassem a mais inspiradora de todas. “A maioria entrevistou a mãe ou a avó”, conta Gina, ressaltando que não queria que a ideia de “mulher inspiradora” fosse restrita às grandes personalidades. “Mas que entendessem que a mulher inspiradora é também aquela que acorda cedo para trabalhar ou cria os filhos sozinha”, analisa. Hoje, o projeto, ainda em caráter experimental, faz parte da formação de professores de outras escolas. “A despeito do que dizem, a juventude está aberta e sente necessidade de falar sobre isso”, afirma Gina.

MULHERES NOTÁVEIS

Conheça mulheres que se destacaram na História, nas Ciências e na política

Hipátia de Alexandria (350 / 370* - 415 d.C.)
Quem foi: Nascida em Alexandria, no Egito, foi uma das primeiras matemáticas registradas pela História. Brilhante, era influente e popular. Seu fim, porém, foi trágico: envolvida em disputas político-religiosas da época, foi esfolada, esquartejada e finalmente queimada
na cidade fundada por Alexandre, o Grande.
Importância: Uma das grandes pensadoras da época, Hipátia foi também professora e filósofa neoplatonista. Seus estudos contribuíram para o desenvolvimento da álgebra, geometria e astronomia.

Luíza Mahin*
Quem foi: Nascida na África do século 19, foi trazida para o Brasil na condição de escravizada. Como muitas mulheres negras da época, trabalhou como quituteira e foi liderança importante nos levantes em prol da liberdade dos escravizados na Bahia, associada em especial com a Revolta dos Malês. É mãe do escritor e abolicionista Luiz Gama.
Importância: Há poucos registros sobre Mahin, o que algumas historiadoras creditam ao apagamento das mulheres negras na História. Adquiriu ares de mito e foi adotada como símbolo de resistência pelo feminismo negro.

*Pesquisadores divergem se Hipátia nasceu em 350 ou 370 d.C. Também não há consenso sobre o ano de nascimento de Luíza Mahin

Por que invisíveis?

A historiadora francesa Michelle Perrot lembra que, para escrever a História, são necessárias fontes. E isso é mais difícil quando se trata de mulheres. “Sua presença é frequentemente apagada, seus vestígios, desfeitos, seus arquivos, destruídos”, escreve no livro Minha História das Mulheres. A escritora Virginia Woolf, no ensaio Um teto todo seu, sintetizou: “Arrisco-me a dizer que Anônimo, que escreveu tantos poemas sem cantá-los, com frequência era uma mulher”.

“A história das mulheres é de quem ficou de fora do circuito oficial de poder. Trazer à tona essas questões pode incomodar determinados setores mais tradicionalistas da sociedade, que enxergam a atuação ‘natural’ das mulheres como o círculo doméstico”, explica Stella Franco, historiadora e professora associada do departamento de História da USP. Gina Ponte concorda. “As mulheres estão fora das representações deliberadamente. É importante sustentar essa narrativa criada pelo machismo de que não participamos da História. O currículo é tradicional e ancorado na perspectiva do homem branco”, afirma.

Um olhar sobre livros de História para o Ensino Médio adotados por escolas públicas por meio do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) mostrou que as mulheres eram 8,2% de todos os 859 personagens abordados ao longo de 900 páginas da coleção mais distribuída em 2015. O estudo, realizado pela brasileira Giovana Sanchez na Universidade do Texas, mostrou que 90% dos homens apareciam na narrativa central, ante 58% das mulheres. Além disso, há desigualdade entre as próprias mulheres (saiba mais no quadro ao lado). “Quando fazemos a intersecção entre raça, sexo e posição na narrativa, dá para ver que as brancas aparecem mais no centro do texto. A maioria das mulheres negras é mencionada em caixas laterais e as indígenas e asiáticas só aparecem assim”, explica a pesquisadora, que focalizou o PNLD antes da aprovação da Base Nacional Comum Curricular, a BNCC.

Assim, muitas vezes é preciso olhar além das fontes oficiais. “Se você está procurando esmeraldas, não vai enxergar rubis”, diz a historiadora Joana Maria Pedro, da Universidade Federal de Santa Catarina, que buscou figuras femininas em processos judiciais, artigos na imprensa e registros policiais. Stella Franco, estudiosa de relatos de mulheres viajantes do século 19, conta que os registros são poucos, mas isso não significa que elas não viajaram. Encontrá-los, porém, nem sempre é fácil, já que muitas vezes não foram publicados ou foram assinados por pseudônimos masculinos. Joana explica que, durante muito tempo, a História como disciplina centrou-se nos atos oficiais de Estado, disputas políticas e guerras. Com isso, focalizava figuras e ações masculinas, invisibilizando as mulheres. Mesmo essa visão é restrita, uma vez que as mulheres estavam até em ambientes tidos como masculinos, como o exército. Na historiografia, elas apareceram a partir de 1930, quando a disciplina se volta para os aspectos social, econômico e cultural. Nos anos 1960, a emergência do movimento feminista deu força ao campo de estudos. “Só a partir desse novo enfoque é que as mulheres passaram a ser retratadas”, diz Joana.

Katherine Johnson (1918)
Quem foi: O trabalho da física e matemática Katherine Johnson foi essencial para a chegada do homem à Lua. Foi uma das integrantes do grupo de mulheres negras dedicadas a calcular as trajetórias nos primeiros lançamentos espaciais. O trabalho, de extrema importância, era feito por elas. A história é contada no filme Estrelas Além do Tempo (2016).

Importância: Segundo a Nasa, sem a dedicação dela à Matemática, os feitos obtidos na época seriam impossíveis. Aos 97 anos, recebeu a condecoração civil mais importante dos EUA das mãos de Barack Obama.

Damiana da Cunha (1779 -1831)

Quem foi: Damiana da Cunha foi uma índia caiapó que exerceu atuação política e social notável no Goiás do século 19. Neta do cacique Angraí-oxá, foi batizada pelo governador da então capitania de Goiás. Viveu uma posição privilegiada para a época. Era respeitada entre os indígenas e atuava como sertanista e mediadora entre os caiapó e a política de aldeamento.

Importância: Complexa, a trajetória da caiapó, analisada no livro Damiana da Cunha: Uma índia entre a sombra da cruz e os caiapós do Sertão, revela um quadro rico sobre as indígenas.

Carolina Maria de Jesus (1914 -1977)
Quem foi: Nascida em Minas Gerais, mudou-se para São Paulo em 1947. Foi no bairro do Canindé que trabalhou como catadora e escreveu sua obra mais conhecida: Quarto de Despejo (1960), traduzido em 15 idiomas. Nele, deu voz aos marginalizados ao descrever a vida na extrema pobreza. O sucesso do livro deu fama a Carolina, mas a escritora acabou esquecida, mergulhou novamente na pobreza.

Importância: Escrito em forma de diário, o livro é um relato poderoso e atual. Quarenta anos após sua morte, a obra é hoje valorizada pela importância literária.

Maria da Penha (1945)
Quem foi: Nascida em Fortaleza, a farmacêutica é uma das principais vozes contra a violência doméstica no Brasil. Sua história é marcada pelas tentativas de feminicídio do
ex-marido, que a deixaram paraplégica. O caso tramitou lentamente na Justiça, em uma época em que a violência contra a mulher era vista como assunto particular. Em 2006, foi sancionada a Lei nº 11.340, batizada de Maria da Penha.

Importância: A lei foi um passo importante na luta contra a violência familiar no País, que continua uma das mais altas do mundo.

Apagadas da Ciência

Apesar de a inserção de mulheres nas Ciências exatas ser um desafio até hoje, há registros de matemáticas desde a Antiguidade. Elas também estiveram nos primórdios da computação e nas missões espaciais. No entanto, não são raras as cientistas ignoradas pelos livros. A pouca representatividade e a baixa expectativa sobre o desempenho das meninas em Ciência e Matemática têm efeitos negativos no futuro delas. “Há um conceito chamado autoeficácia, que é o quanto a gente acha que é capaz de resolver determinado desafio. Na Física, os meninos têm autoeficácia maior. Posso aumentar minha autoeficácia se aprender sobre esses modelos, mas se a gente não se vê naquele papel fica mais difícil”, explica a física Katemari Rosa, doutora em Ensino da Ciência pela Universidade Columbia. Só 28% dos pesquisadores em ciência, tecnologia, engenharia e matemática são mulheres, de acordo com a ONU. O quadro é mais desigual para as mulheres negras: estudo de 2013 revelou que só havia 5 mil pesquisadoras em ciências exatas, 5,5% do total dos 91 mil bolsistas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Para a física, estratégias de discussões de gênero nas disciplinas, além de mostrar modelos de mulheres cientistas, contribuem para que elas se vejam mais como capazes nas ciências exatas. No entanto, as estratégias serão pouco eficazes sem reflexão sobre a prática. “Não basta levar materiais sobre mulheres se faço comentários racistas ou dou menos tempo de fala para as meninas”, conclui Katemari.

Ada Lovelace (1815-1852)
Quem foi: Batizada de Augusta Ada King, era filha do poeta inglês Lord Byron, com o qual teve pouco contato, e da matemática Anne Milbanke, que transmitiu a ela o interesse pelas ciências exatas. Aos 17, interessou-se pela máquina analítica, precursora dos computadores modernos, cujo projeto aprimorou.

Importância: Se hoje temos computadores, agradeça a Ada, considerada a primeira programadora. Sua atuação é inspiradora diante do desafio de tornar as ciências exatas mais igualitárias.

Bertha Lutz (1894 -1976)

Quem foi: Uma das principais defensoras do direito ao voto feminino no Brasil. Zoóloga de formação, entrou em contato com a luta pela emancipação e os direitos da mulher após estudar na Europa. Paralelamente ao ativismo político, ingressa no Museu Nacional do Rio de Janeiro, onde trabalhou por 46 anos. Foi a única mulher na delegação brasileira na Conferência de São Francisco que, em 1945, deu início à ONU.

Importância: Pioneira na luta pelo direito ao voto da mulher e também uma figura importante para a ciência e a Educação.

Olympe de Gouges (1748-1793)

Quem foi:
Escritora, dramaturga e ativista política, Olympe de Gouges se engajou na emancipação das mulheres e em questões como o divórcio, a escravidão e o direito das crianças. Sua vida e morte cruzaram-se com uma das maiores viradas políticas da História ocidental: a Revolução Francesa (1789-1799). Envolvida com os acontecimentos, foi presa e guilhotinada em 1793, durante o período do Terror.

Importância: É a autora da Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, documento-resposta publicado em 1791 à Declaração de Direitos do Homem.

Dandara dos Palmares (? - 1694)
Quem foi: Assim como Luíza Mahin, a figura de Dandara mistura história, resistência e lenda. Associada com a liderança do Quilombo dos Palmares, em Alagoas, participou de estratégias de resistência e lutou contra o sistema colonial escravista do século 17. Teria morrido em 1694, após se jogar em um abismo para não se render às forças militares que cercavam Palmares.

Importância: Embora seja menos conhecida que Zumbi, do qual teria sido companheira, Dandara dos Palmares é celebrada como grande liderança feminina negra.

 PARA SABER MAIS

Minha História das Mulheres
Ed. Contexto
Michelle Perrot faz um panorama das mulheres na História a partir de tópicos como o corpo.


Nova História das Mulheres no Brasil
Ed. Contexto
Por meio de 21 artigos, discute a mulher brasileira em temas como trabalho e educação.

Mulheres, Raça e Classe
Ed. Boitempo
Clássico, o livro traz a ideia de interseccionalidade (observar a raça e a classe) para a discussão sobre as mulheres

NA BNCC

Descrever e analisar os diferentes papéis sociais das mulheres no mundo antigo e nas sociedades medievais. Habilidade: EF06HI19 

*Pesquisadores divergem se Hipátia nasceu em 350 ou 370 d.C. Também não há consenso sobre o ano de nascimento de Luíza Mahin

Fonte gráficos: A Ladainha do Homem Branco: Indústria de livros didáticos no Brasil e a reprodução de velhos cânones (Giovana Sanchez)

Ilustrações: Ana Matsusaki