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O que a BNCC propõe para o ensino do Inglês?

Base considera o contexto social e político do inglês, e a língua como uma ferramenta de comunicação em um mundo globalizado

Autor: Rita Trevisan

De língua estrangeira para língua franca: na Base, essa é uma mudança de conceito importante para o ensino do Inglês. O que isso significa? Língua franca é a língua de várias pessoas, que falam idiomas diferentes, adotam para se comunicarem entre si. Nesse sentido, a BNCC legitima o Inglês, não só como a língua falada em países como nos Estados Unidos ou na Inglaterra, mas como uma oportunidade de acesso ao mundo globalizado. Com esse conhecimento, todos os jovens e crianças podem exercer a cidadania e ampliar suas possibilidades de interação nos mais diversos contextos.

Nessa perspectiva de língua franca, o Inglês deixa de ser apenas dos falantes nativos (onde é ensinada como língua materna), e passa a ser uma língua que varia, com diferentes contextos, que dependem do lugar onde é falada. Esse fator favorece o ensino da língua inglesa com mais interculturalidade. 

 "Nessa proposta, a língua inglesa não é mais aquela do “estrangeiro”, oriundo de países hegemônicos, cujos falantes servem de modelo a ser seguido, nem tampouco trata-se de uma variante da língua inglesa. Nessa perspectiva, são acolhidos e legitimados os usos que dela fazem falantes espalhados no mundo inteiro, com diferentes repertórios linguísticos e culturais, o que possibilita, por exemplo, questionar a visão de que o único inglês “correto” – e a ser ensinado – é aquele falado por estadunidenses ou britânicos"

— trecho de texto da Base Nacional Comum Curricular

O novo status de língua franca implica em deslocar a língua de um modelo ideal de falante para um modelo mais real, considerando suas diferenças culturais e as variações linguísticas decorrentes das situações de uso e das comunidades que a falam. A proposta da BNCC é a de reconhecer os diversos repertórios linguísticos presentes em sala de aula e fora dela, ampliando as noções do que vem a ser "certo" e "errado" no uso da língua.

 Essa concepção muda de forma estratégica a maneira de entender o componente e, principalmente, de como o inglês deve ser ensinado em aula. Alexandre Badim, coordenador do Centro de Línguas da Universidade Federal de Goiás, ajuda a elucidar as principais alterações trazidas pelo novo documento. Veja: 

 Status da língua

 Como era nos PCNs: 
Língua estrangeira

 Como ficou na Base: 
Língua inglesa

 Na prática: 
A língua é legitimada como uma oportunidade de acesso ao mundo globalizado e um conhecimento que o aluno precisa para exercer a cidadania e ampliar suas possibilidades de interação em diversos contextos.

Status da língua

 Como era nos PCNs: 
Língua estrangeira

 Como ficou na Base: 
Língua franca

 Na prática: 
Na perspectiva de língua franca, o inglês deixa de pertencer apenas aos nativos (onde a língua é ensinada como materna, na Inglaterra, Canadá ou Estados Unidos, por exemplo), e passa a ser incorporado pelas pessoas em contextos variados, e em práticas e interações reais. O inglês é usado para maior inserção no mundo acadêmico, cultural e mercadológico.

Organização do documento

 Como era nos PCNs: 
Quatro eixos de conteúdo, divididos em conhecimento de mundo, conhecimento sistêmico, tipos de texto e atitudes.

 Como ficou na Base: 
Os eixos são oralidade, leitura, escrita, conhecimentos linguísticos e dimensão intercultural.

 Na prática: 
O ensino de inglês, de acordo com a BNCC, deve colaborar para desenvolver competências que vão além de ler, interpretar e resolver problemas. Nesse contexto, o eixo da oralidade é bastante ampliado e envolve as práticas de linguagem com foco na compreensão (escuta) e na produção oral (fala), com ou sem contato face a face.

No eixo Leitura e Escrita são abordadas práticas de linguagem decorrentes da interação do leitor com o texto escrito e as práticas de produção de textos, respectivamente.

Os conhecimentos linguísticos estão relacionados à análise e à reflexão sobre a língua, sempre de modo contextualizado, articulado e a serviço das práticas de oralidade, leitura e escrita.

A Dimensão intercultural nasce da compreensão de que as culturas, especialmente na sociedade contemporânea, estão em contínuo processo de interação e construção, esse é um aspecto que deve ser tematizado em sala de aula.

Práticas comunicativas

 Como era nos PCNs: 
A ênfase do documento estava nas práticas de leitura e escrita.

 Como ficou na Base: 
A BNCC reconsidera essa posição e a amplia ao tratar a língua de forma discursiva, compreendendo outras dimensões (incluindo as habilidades) tão importantes para o desenvolvimento da competência linguístico-discursiva dos estudantes por meio da língua inglesa.

 Na prática: 
A Base traz a visão de que a criança e jovem aprendem na prática comunicativa e em contato com a língua real. A maneira de ensinar também muda, pois ressignifica a relação entre falantes, língua (materna ou estrangeira) e contexto geográfico-cultural.  Por outro lado, no que diz respeito ao eixo da Leitura, a Base aborda práticas diversas a serem trabalhadas com os alunos, com foco na construção de significados, com base na compreensão e interpretação dos gêneros escritos em língua inglesa, que circulam nos diversos campos e esferas da sociedade.

Objetivos

 Como era nos PCNs: 
A aprendizagem da língua estrangeira estava relacionada, principalmente, com o  desenvolvimento integral do letramento do aluno — aprender a ler textos escritos em outra língua era o foco.

 Como ficou na Base: 
Ao propor o ensino do Inglês nessa nova configuração, com ênfase no caráter formativo e numa perspectiva de educação linguística consciente e crítica, a BNCC traz a visão de multiletramento do aluno.

 Na prática: 
Parte-se do pressuposto de que a formação é concebida nas práticas sociais do mundo digital no qual saber a língua inglesa potencializa as possibilidades de participação e circulação , que aproximam e entrelaçam diferentes linguagens (verbal, visual, corporal, audiovisual), em um contínuo processo de significação contextualizado, dialógico e ideológico, como descrita no documento oficial. O inglês é visto não apenas como língua estrangeira ou do outro, mas um bem cultural mundial que pode ser incorporado de variadas formas, para usos diversos, por falantes multilíngues a expressarem suas múltiplas culturas.

 

Conteúdos 

 Como era nos PCNs: 
Predominava uma visão tecnicista de ensino do inglês, com o estudo da língua direcionado para suas estruturas linguísticas e de vocábulos.

 Como ficou na Base: 
Há uma ampliação na abordagem da língua para oportunizar uma exposição mais real à língua via textos variados e  multimeios autênticos e para trabalhar gêneros diversos, que aproximam da sala de aula práticas reais do uso da língua, de acordo com as necessidades locais.

 Na prática: 
O estudo do léxico e da gramática tem como foco levar os alunos, de modo indutivo, a descobrir o funcionamento sistêmico do inglês. Isto traz outro desafio, o metodológico, uma vez que torna imprescindível que o professor trabalhe de outras formas em sala, não mais no ensino exclusivo de regras, numa abordagem mais tecnicista, mas do uso discursivo da língua, com materiais variados e atendendo às diferentes necessidades de seu contexto escolar e social. O trabalho com gêneros verbais e híbridos, potencializados principalmente pelos meios digitais, possibilita vivenciar, de maneira significativa e situada, diferentes modos de aprender a língua.

Conteúdos

 Como era nos PCNs: 
Não havia uma determinação clara para o trabalho, em classe, que possibilitasse o conteúdo com a língua viva. Como consequência, nos meios acadêmicos, as aulas de inglês partiam de uma língua padrão, de países hegemônicos.

 Como ficou na Base: 
A língua é entendida como expressão da cultura. Daí a ideia de uma língua do mundo e a orientação e o estímulo ao trabalho com várias fontes indutivo — o inglês de vários lugares e suas variantes.

 Na prática: 
Os conteúdos, em sala de aula, devem estar inseridos em diferentes contextos culturais, desvinculando, inclusive, da noção de pertencimento a um único território e, consequentemente, a culturas típicas de comunidades específicas. Com isso, se legitima o uso do inglês em contextos locais. Os textos estudados em sala não precisam ser recortes, que deslocam a língua para um modelo ideal, mas devem ser textos originais, tais quais circulam nas mais diversas esferas sociais, já que a língua é entendida como prática social. Devem ser consideradas as diferenças culturais e as variações linguísticas decorrentes de seus diferentes usos e variadas comunidades de fala, acolhendo os diversos repertórios linguísticos presentes em sala de aula e fora dela.