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Como planejar aulas de Educação Física alinhadas à Base

Confira sugestões práticas para aplicar as mudanças que a Base Nacional Comum Curricular orienta para a Educação Física

Autor: Rita Trevisan

Com a Base, a proposta para as aulas de Educação Física passa a ser de tematizar lutas, danças, jogos e brincadeiras, práticas corporais de aventura, ginásticas e esportes. Colocar isso em prática é um desafio para os professores, ainda mais para os que lidam com a escassez de recursos e de espaços dentro das escolas públicas. A constatação das dificuldades, contudo, não deve ser um impeditivo para que atividades diversificadas sejam realizadas, para possibilitar que os alunos acessem um amplo repertório cultural.

“A diversidade que caracteriza as escolas, em diferentes contextos, em relação a espaços e materiais, é evidente. Mas é perfeitamente possível fazer adaptações e, inclusive, envolver os alunos nessas ações”, afirma o professor de Educação Física na Rede Pública de Ensino da Prefeitura de São Roque (SP) Marcos Noggerini, pós-graduado em Gestão Escolar.

Noggerini defende que vivenciar essa realidade pode funcionar como um incentivo para que o estudante faça o mesmo processo em casa ou em outros lugares, ampliando as possibilidades de prática fora da sala de aula: “Dividir os desafios com os alunos, apoiando-os na solução de problemas práticos, faz com que atuem como sujeitos, ampliem o comprometimento e se transformem em agentes de transformação”. A seguir, ele e o professor de educação física da rede estadual e municipal de São Paulo, Miguel Feth, dão algumas orientações de como conduzir esse processo, em sala de aula, passo a passo.

Passo 1: Selecionar os conteúdos

Reconhecendo a necessidade de tratar uma gama mais ampla de possibilidades de prática, a BNCC propõe a inclusão de outros conteúdos que não apareciam em documentos anteriores para o componente — e que, em geral, privilegiavam os esportes mais populares. À primeira vista, isso pode representar um aumento significativo de conteúdos a serem abordados.

 Para contornar o desafio, um caminho é agrupar as experiências que dialogam entre si.

“Ao categorizar os esportes de acordo com algumas de suas características, a BNCC possibilita a análise de um número maior de práticas, que mesmo presentes em diferentes contextos, não eram tratadas na escola. Ao classificar, considerando aspectos invariantes em relação a alguns tipos de esportes, o documento possibilita uma análise conjunta, o que pode significar um menor número de aulas necessário”, afirma Noggerini.

Exemplo: ao tratar a temática esportes de precisão, várias práticas podem ser apresentadas em um mesmo projeto ou sequência didática, algumas de forma mais aprofundada, pela facilidade ou relevância no contexto, e outras de maneira mais rápida.

Também é importante que o professor tenha em mente, no momento de selecionar e planejar os conteúdos a serem tratados em sala de aula, as curiosidades dos alunos, o que acontece na comunidade em que eles estão inseridos e nas famílias, em relação às brincadeiras, jogos e danças.

Além disso, vale saber que é possível deslocar os conteúdos. “A BNCC foi escrita para que se garanta um mínimo de conhecimentos aos alunos e isso pode acontecer através de alguma prática corporal que não é contemplada no ano previsto pela Base. O importante é que o professor fique atento para que essa prática seja apresentada ao aluno em algum momento do Ensino Fundamental”, diz Feth.

PASSO 2: Planejar as vivências, focando Na ampliação do repertório 

Outro ponto que precisa ser considerado é o das dimensões do conhecimento, pois ainda existe o entendimento de que o conteúdo, para ser incluído nos programas de Educação Física, precisa ser praticado na escola. “No entanto, ao ampliar as dimensões do conhecimento, a BNCC enfatiza que a experimentação, a vivência e a prática, dentro do possível, são enriquecedoras, mas também que muitos dos conteúdos podem ser tratados na dimensão fruição, por exemplo, que considera a habilidade de apreciar uma prática”, explica Noggerini.

Nessa perspectiva, há diversas alternativas possíveis para proporcionar vivências variadas aos alunos, mesmo as que são pouco conhecidas dos professores:

  • Uma delas é estimular os estudantes a pesquisarem temas novos e a trazerem seus achados para uma discussão com a turma.
  • Outra é convidar pessoas da comunidade para contribuir, abrindo também a possibilidade da participação de outros professores e funcionários, além das famílias, desde que tenham conhecimento das temáticas que serão apresentadas aos alunos. “A escola é um lugar de aprendizagem, e isso vale tanto para os alunos,  tanto para os professores”, ressalta Feth.
  • Também é possível recorrer às diferentes fontes de informação midiáticas disponíveis. Filmes, por exemplo, podem ser utilizados para tratar de temas como danças e lutas. Billy Elliot, sobre a paixão de um garoto pela dança; Vem Dançar (2005), a história de um professor voluntário que dá aulas de dança para alunos rebeldes; Esporte Sangrento (1993), em que um professor, também voluntário, ensina capoeira a alguns alunos envolvidos em conflitos, são sugestões dos especialistas. “Esses filmes também podem fornecer ao professor, mas até mesmo aos alunos, de acordo com os níveis de ensino, subsídios para superar preconceitos em relação às mais diversas práticas”, explica Noggerini.
  • Em paralelo, o professor pode ampliar seu nível de conhecimentos com formação continuada, participação em grupos ou mesmo visitando locais onde práticas que ele desconhece ocorrem. “Ao ampliar as formas de tratamento e as dimensões de conhecimento esperadas, os professores podem variar e enriquecer suas aulas de diversas formas”, diz Noggerini.

PASso 3: Adaptar os espaços

Nem todas as escolas oferecem ambientes adequados para a vivência de tantas práticas e, embora seja necessário buscar sempre melhorias, também deve haver um olhar do professor para a possibilidade de adaptar os espaços disponíveis. Em algumas práticas, a própria sala de aula pode ser o local da vivência, dependendo da dinâmica da atividade e do tamanho da turma. Espaços abertos como pátios, estacionamentos e até praças próximas podem ser aproveitadas, desde que a segurança dos alunos seja preservada. “Mesmo alguns locais acidentados e com obstáculos oferecem oportunidades, pois esses elementos podem ser incorporados às atividades. As paredes, as árvores e os muros podem servir de suporte para diversas atividades. Dá para desenhar com giz, ou mesmo pintar alguns locais para jogos, brincadeiras, ou práticas específicas”, sugere Noggerini.

Lutas e danças, ao contrário do que se pensa, são práticas corporais que não requerem tantos recursos especiais. O boxe, o kung fu, o karatê e a capoeira, por exemplo, podem ser praticados em qualquer espaço, com materiais simples ou mesmo sem material nenhum. “Uma breve pesquisa em qualquer site relacionado e até mesmo no Youtube são importantes fontes para o planejamento das aulas. As práticas de dança podem ser realizadas até mesmo dentro da sala de aula, ao som de um celular”, diz Feth.

Passo 4: Mapear os recursos materiais

Quanto aos materiais, além dos tradicionais comprados, inúmeros podem ser adaptados ou confeccionados. Algumas ideias:

  • Garrafas pet com um pouco de areia na base podem servir de cones, ou delimitadores de espaços, além de alvos ou balizas.
  • Paredes e muros podem virar alvos e gols, se tiverem a marcação adequada.
  • Cestos, como aqueles utilizados na origem do basquete, se colocados em diferentes alturas e distâncias, proporcionam vivências variadas.
  • Bambolês podem servir de alvos colocados em posições horizontais, verticais ou mesmo em movimento, além de serem utilizados como argolas a serem lançadas, tendo cones ou garrafas pet como alvos.
  • Em um ambiente de terra batida, basta cavar e deixar um quadrado com terra ou areia para fazer uma caixa de saltos (triplo ou à distância).
  • Um tronco grande caído ou mesmo um banco pode ser usado para atividades que envolvam o desenvolvimento do equilíbrio.
  • Cordas comuns, se amarradas em um travessão ou em um galho mais alto, podem render uma estação para escalada.
  • Jornais podem ser espadas, para a prática de esgrima. 
  • Fitas de pano permitem realizar gestos expressivos na temática de danças, bem como barbantes. 
  • Caixas de papelão podem ser o veículo para a realização de descidas em rampas de grama.
  • Cones e cordas ajudam a aproximar os alunos da prática de parkour (saltos e rolamentos).
  • Jornal e fita crepe funcionam bem para a confecção de bolas de diferentes tamanhos. 
  • Pneus servem como piques para brincadeiras de pegar. 
  • Elásticos possibilitam planejar inúmeras brincadeiras de saltar. 
  • Cabos de vassoura funcionam como recurso para uma adaptação da brincadeira de pega vareta.   

passo 5: Estimular a participação dos alunos em todo o processo

A escuta atenta para as necessidades e demandas vindas dos alunos é um ótimo ponto de partida para o professor iniciar os seus projetos educativos, mas a participação dos estudantes não precisa parar por aí. No processo de adaptação de espaços e de materiais, eles podem interagir ativamente, planejando junto com o professor as atividades e ajudando a implementar as soluções encontradas.