Comparações culturais entre ex-colônias portuguesas

Discutir semelhanças e diferenças da colonização portuguesa no Brasil, na África e na Ásia ajuda a entender o desenvolvimento dos países

POR:
Ana Rita Martins
Fotos: Marcos Rosa
USO DO MAPA A turma de Bertioga localiza Brasil e Macau, locais impactados pelas navegações portuguesas. Fotos: Marcos Rosa

Para Portugal chegar até o Oriente e comercializar as especiarias tão valorizadas na Europa, navegar era mesmo preciso. E foi com esse objetivo, nos séculos 15 e 16, que as caravelas chegaram a territórios como Angola, Brasil e Macau, transformando-os em fontes de riqueza para a coroa portuguesa. Mas, para proteger esses lugares de invasões e saques, a colonização era necessária.

Os colonizadores encontraram em cada local uma cultura própria. A interação entre essas estruturas, diferentes entre si, e a influência portuguesa deixou marcas profundas em cada um desses lugares, impactando o passado e o presente de maneiras particulares.

Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10

Estudar como se deu a colonização portuguesa em diferentes regiões do globo ajuda a apontar semelhanças e diferenças no modelo colonial, contribuindo para que a turma entenda mais e melhor como as grandes navegações influenciaram os rumos não só do Brasil como também de outras partes do mundo.

Apostando nessa abordagem pouco explorada pelos livros didáticos, o professor Herivaldo Pereira fez um desafio interessante para os estudantes da 7ª série da EE Professora Maria Aparecida Pinto de Abreu Magno, em Bertioga, a 118 quilômetros da capital paulista (leia o quadro abaixo).

Primeiro, ele propôs que a turma pesquisasse a história da cidade para que percebesse que a fundação dela, em 1547, foi marcada pela construção do Forte São João, idealizado pelos colonizadores portugueses.

Intercâmbio entre Brasil e Macau

Foto: Marcos Rosa
DEBATE EM GRUPO Herivaldo relaciona com a turma a história de Portugal com a de Brasil, Angola e Macau

Herivaldo Alves Pereira, 28 anos, decidiu lecionar História ainda adolescente quando ouviu a frase: "O homem só se liberta quando constrói sua própria história". Há seis anos, começou a trabalhar como educador e percebeu que para ajudar os estudantes nessa construção tinha de fazê-los entender a identidade do local onde vivem, as diferenças e as semelhanças com outros lugares. Só assim se tornariam conscientes dos percursos históricos e de seu papel no mundo. Pensando nisso, entrou em contato com o professor brasileiro Roberval Silva, da Universidade de Macau, na China, e propôs que os alunos de ambos trocassem informações sobre a história, a cultura e a economia da nação em que vivem.

Objetivos
No trabalho com uma turma da 7ª série da EE Professora Maria Aparecida Pinto de Abreu Magno (de março a outubro de 2007), Pereira queria que todos compreendessem a importância das grandes navegações para a história de Bertioga, valorizassem o patrimônio histórico local e reconhecessem os elementos da identidade cultural da cidade. Com a troca de cartas com os macaenses, a ideia era que os estudantes percebessem as diferenças e semelhanças com Macau e o impacto da colonização portuguesa naquela região chinesa.

Passo-a-passo
Qual é a importância do Forte São João para a cultura e a população de Bertioga? Lançando a questão, o educador coordenou o estudo do mapa das grandes navegações e a localização do ponto de chegada dos portugueses ao litoral paulista. Depois, organizou uma visita guiada ao forte para explicar que portugueses o construíram em 1547 para proteger a região dos índios tupinambás e que esse fato marca a fundação do município. Depois disso, Pereira selecionou cartões-postais que mostram elementos culturais de Bertioga, como o patrimônio histórico, a pesca e o turismo. Os estudantes tiveram de debater sobre esses elementos para depois escrever cartas aos estudantes de Macau. Em resposta, os macaenses enviaram cartões-postais da região chinesa e escreveram sobre a cultura, a economia e a história locais. Os alunos brasileiros interpretaram o material com foco na colonização portuguesa e escreveram uma resposta.

Avaliação
Pereira analisou se os jovens reconheciam os elementos culturais nos postais de Bertioga e a síntese dessas informações nas produções de texto enviadas a Macau. Avaliou a interpretação do material recebido dos macaenses e conferiu se a turma assimilava a noção do percurso histórico das grandes navegações. Por fim, analisou se todos percebiam as diferenças e semelhanças culturais geradas pela colonização portuguesa nas duas regiões.

Depois disso, a garotada escreveu cartas para estudantes universitários de Macau, na China (contatados pelo educador), contando o fato e também os aspectos culturais, econômicos e sociais do município. Em resposta, os macaenses enviaram mensagens sobre a história, cultura e economia de Macau, também influenciadas por Portugal.

Com a troca de correspondência, os estudantes compreenderam com mais detalhes a chegada dos portugueses por aqui e descobriram que as grandes navegações não influenciaram só o Brasil também como Macau.

"Pereira mereceu ser um dos vencedores do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10 de 2008 por unir o estudo da História local com o contexto histórico mundial, além de ter trabalhado o conceito de percurso histórico", diz Daniel Vieira Helene, coordenador da área de Ciências Sociais da Escola da Vila, na capital paulista, e selecionador do prêmio.

A relação econômica entre Portugal, Brasil, Angola e Macau 

Foto: Marcos Rosa
VISITA AO FORTE Ao conhecer o patrimônio histórico da cidade, a turma aprende a história local

Bertioga é um município que favorece o tipo de projeto realizado por Pereira porque o patrimônio local por si só é uma ferramenta para contar aos alunos sobre o Brasil Colônia. "Mas todo educador pode trabalhar o impacto da expansão marítima de Portugal abordando o percurso histórico do Brasil, de Angola e de Macau", diz Helene. Para isso, é importante ressaltar as relações culturais entre elas e, com mais ênfase, as econômicas.

Por aqui, a colonização começou por volta de 1530, com a monocultura latifundiária da cana-de-açúcar. Com sua decadência, sobreveio o ciclo do ouro, nos séculos 17 e 18. Nas duas atividades, a primeira mão-de-obra utilizada foi a indígena escravizada, que se revelou ineficiente. O problema, então, foi solucionado com o trabalho - igualmente escravo - dos negros da África. Assim, o tráfico negreiro foi, até o início do século 19, uma das atividades mais lucrativas de Portugal, que passou a capturar africanos para vender aos latifundiários no Brasil. E é nesse ponto que nossa história se cruza com a de Angola.

Quando chegaram em terras angolanas, em 1482, os portugueses usaram o território só como ponto de parada de uma rota comercial em direção ao Oriente. Mas, no fim do século 16 e início do século 17, escravizaram a população local para suprir a necessidade de mão-de-obra para a colônia brasileira e essa foi, definitivamente, a maior contribuição financeira de Angola para Portugal.

Assim, se somos descendentes de escravos, pode-se dizer que em nossas veias corre também o sangue angolano (leia a sequência didática).

Outro aspecto a ser destacado é que a colonização de Angola ocorreu somente no início do século 19, com a exploração do plantio da cana-de-açúcar e a mineração por lá.

Foto: Marcos Rosa
NOTÍCIAS DE MACAU Com a troca de cartas, os alunos descobrem sobre a influência de Portugal naquela região

Apesar da influência portuguesa em comum, que legou a língua falada nos dois países, o impacto cultural provocado pelos colonizadores foi muito mais forte aqui. Por causa da quantidade de recursos, o Brasil se tornou mais interessante aos olhos dos portugueses e foi mais povoado desde o início da colonização. O fato de a corte ter vindo para cá em 1808 também fez com que tivesse de ser desenvolvida uma infraestrutura mais sólida. Consequentemente, a relação deixou de ser meramente exploratória.

Em Macau, tudo foi bem diferente. Quando chegaram às terras asiáticas, em 1557, os portugueses tiveram de se submeter ao forte império chinês. Para estabelecer um entreposto comercial, comprar e revender especiarias, foram obrigados a pagar impostos. Essa situação perdurou três séculos e apenas em 1887, com os chineses enfraquecidos pela Guerra do Ópio, é que Portugal conseguiu a assinatura do Tratado de Amizade e Comércio Sino-Português, garantindo o direito da ocupação perpétua de Macau. Somente então teve início a colonização. Mas a região seguiu sendo tratada como uma porta de entrada importante para o comércio com a China e o Japão. E, como já era marcada pela cultura chinesa, Macau sentiu menos os efeitos da influência cultural portuguesa do que Brasil e Angola. Basta pensar que, enquanto nesses dois países a língua portuguesa é falada pela maioria da população, em Macau, mais de 90% do povo fala mandarim e cantonês, apesar de o português também ser uma língua oficial.

Analisar o presente para entender o passado 

Brasil e Angola se tornaram nações independentes, em 1822 e 1975, respectivamente. E Macau nunca se tornou um país: deixou de ser colônia portuguesa depois de 400 anos, mas segue subordinado à China: desde 1999, é uma região administrativa especial, com autonomia econômica. Para encontrar as marcas deixadas por Portugal que continuam reverberando aqui e no mundo, basta analisar alguns aspectos das ex-colônias. Nosso país é um grande exportador de insumos agrícolas. Até hoje, Angola exporta derivados da cana-de-açúcar e, apesar de ser o maior exportador de petróleo da África, é um dos países menos avançados no mundo em termos sociais. E Macau, em crescimento acelerado (sobretudo por causa do turismo de jogo), deve uma parte dessa ascensão a Portugal, que estabeleceu o sistema capitalista por lá.

Quer saber mais?

CONTATOS
Daniel Vieira Helene
EE Professora Maria Aparecida Pinto de Abreu Magno, R. General Ozório, 108, 11250-000, Bertioga, SP, tel. (13) 3317-2510
Herivaldo Pereira

BIBLIOGRAFIA
O Trato dos Viventes - Formação do Brasil no Atlântico Sul, Luiz Felipe de Alencastro, 544 págs., Ed. Companhia das Letras, tel. (11) 3707-3500, 65,50 reais 

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