Notas do Enem divergem do número de acerto de questões

Ausência de questões com nível médio de dificuldade não teriam sido incluídas, segundo diretor de cursinho

POR:
Caroline Monteiro
Foto: Getty Images

À primeira vista, o que fica evidente na divulgação de notas máximas e mínimas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2017 é que a nota média cresceu em Matemática e Ciências da Natureza, e caiu em Linguagens e Códigos e Ciências Humanas, frente a 2016. Mas consultores pedagógicos e diretores de cursinhos com alto número de alunos vindos da escola pública apontam outras discrepâncias: mesmo acertando pouco, estudantes ficaram perto da nota média em algumas matérias.

Em levantamento realizado pelo Cursinho da Poli, que tem 90% de seus alunos vindos da rede pública, foi observado que o número de acertos nas provas de Exatas foi muito baixo entre os participantes que tiraram notas próximas à média geral no Enem 2017. O curso pré-vestibular pediu aos seus nove mil estudantes que fornecessem tanto o número de acertos na prova quanto a nota do Enem, divulgada nesta quinta-feira (18). Segundo o diretor geral do cursinho, Gilberto Alvarez, um aluno que acertou 11 questões (24,4% das 45) na prova de Ciências da Natureza conquistou 508 pontos dos 1000 possíveis (apenas 2 abaixo da média nacional).

Outro aluno deu a resposta correta para 15 questões de Matemática (33% das 45 questões) e ficou com 573 pontos (mais do que a média de 518). “Alunos que acertaram 20 questões (menos da metade da prova), já conseguiram nota acima de 700 pontos”, diz Alvarez.

Os dados são fornecidos pelos próprios alunos e, portanto, não são oficiais. Entretanto, indicam uma possível distorção caso o objetivo da análise seja fazer um diagnóstico da Educação brasileira. “É um dado representativo porque se considerarmos apenas a quantidade de acertos, da mesma forma que fazem os outros vestibulares, é um número muito baixo”, analisa o diretor do Cursinho da Poli.

Alvarez considera que a discrepância se deve, entre outros fatores, a uma mudança percebida na prova do ano passado: questões de nível médio não foram incluídas na avaliação. Segundo ele, a pergunta era fácil ou difícil, sem um meio termo entre elas. Dessa forma, como o Enem faz a correção por meio da Teoria de Resposta ao Item (TRI), se o aluno acertar as fáceis, sua nota sobe. “É uma correção que não permite que ninguém tire zero ou mil”, diz.

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Mais dados

Olhando as informações divulgadas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), é possível ver uma queda nas médias dos alunos nas provas de Linguagens e Ciências Humanas, comparando 2016 com 2017. As médias nas provas de Linguagens e Códigos caíram de 520,5 em 2016 para 510,2 em 2017. Na prova de Ciências Humanas, a proficiência média dos participantes foi de 533,5 para 519,3.

Segundo Marcelo Dias, coordenador pedagógico do Curso Etapa, pode ser uma consequência da alteração no formato do Enem, que deixou as duas provas de Humanas para serem feitas juntas, no primeiro dia. A prova ficou mais extensa e exigiu muita leitura, deixando o aluno cansado, enquanto ainda tinha que pensar na redação.

Na análise de Gilberto Alvarez, a mudança pode ter sido justamente responsável pelo aumento nas médias nas provas de Exatas. Na prova de Matemática, a média foi de 489,5 em 2016 para 518,5 em 2017. A proficiência média na prova de Ciências da Natureza foi de 477,1 para 510,6. “Acredito que seja um indicativo de que o novo formato ajudou os alunos, pelo menos nessas áreas”, diz.

Como é o primeiro ano da mudança, Marcelo Dias acredita que seja difícil bater o martelo sobre as diferenças e que é preciso um estudo mais detalhado dos dados. Ao divulgar os números à imprensa, o próprio Inep afirmou que não é possível chegar a conclusões olhando as proficiências médias de cada prova.

 

E a redação?

A média dos alunos na prova de redação do Enem aumentou em relação a 2016. A proficiência média passou de 541,9 no ano retrasado para 558 em 2017. No entanto, o número de participantes que tiraram nota zero foi de 292 mil para 309 mil, mesmo com uma diminuição no número de redações corrigidas (6 milhões em 2016 contra 4,7 milhões em 2017). Ao mesmo tempo, menos alunos tiraram nota máxima. Foram 77 com nota 1000 em 2016 e 53 em 2017.

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Para o diretor do Cursinho da Poli, os dados acendem um alerta em relação aos hábitos de leitura e escrita dos jovens, principalmente quando consideramos a porcentagem de alunos que fugiram ao tema (0,78% em 2016 e 5,01% em 2017). “Se um aluno não escreve sobre o assunto que foi solicitado, provavelmente ele nunca fez uma redação ou, pelo menos, nunca teve um texto corrigido”, diz.

A variação pode ter sido causada, também, pela mudança na empresa que faz a correção das redações. A partir de 2017, a avaliação passou a ser de responsabilidade da Fundação para o Vestibular da Universidade Estadual Paulista (Vunesp). “Há critérios pré-determinados, mas uma alteração assim pode influenciar as notas”, diz Alvarez.

Na opinião de Marcelo Dias, considerando uma amostra de mais de 4 milhões de alunos, não é possível dizer se houve queda ou aumento na proficiência. “Uma variação de 77 redações nota 1000 em 2016 para 53 em 2017 é ínfima perto do número de candidatos”, diz.

 

O Enem e a escola pública

Gilberto Alvarez costuma dar palestras em escolas públicas para falar sobre o maior vestibular do país. “Eu vejo uma vontade muito grande por parte dos gestores e professores de se aproximar do Enem. O grande objetivo dos nossos encontros é dizer para aquele aluno que ele pode acessar uma universidade pública, gratuita”, diz. Ele lembra que é muito comum os alunos não prestarem a prova por não enxergarem potencial em si próprios.

Para Sidney Caetano Silva Santos, professor de História que lecionou por seis anos na rede pública municipal e estadual, em escolas como EE Prof. Vicente Peixoto e EMEF Conde Luiz Eduardo Matarazzo, o Enem ainda é uma prova muito distante da realidade brasileira. “O formato privilegia as escolas particulares. O nível de conteúdo é de uma estrutura que as públicas não têm”, analisa Sidney, que atualmente dá aula no Cursinho FEA USP, citando como exemplo questões que falam de sociólogos como Max Weber e Émile Durkheim. “A prova acaba reforçando privilégios”.

 

Dicas para Sisu

Com conhecimento das notas, os alunos podem acessar o site do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) para fazer suas inscrições, que vão de 23 a 26 de janeiro. A recomendação de Marcelo Dias, do Etapa, é que os alunos façam isso logo no primeiro dia. “Como o sistema funciona como um leilão de notas, o aluno já consegue saber se a nota dele é suficiente para aquele curso, e mudar de opção a tempo, caso seja necessário”, afirma.

Outra dica para os dias que antecedem a inscrição é acessar os termos de adesão das universidades para ver quais são os pesos de cada prova, que variam de curso para curso. Carreiras de Exatas, como Engenharia, dão mais valor às provas de Matemática e Ciências da Natureza, por exemplo.

 

 

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