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Entrevista com Fernando Reimers

Professor da Universidade de Harvard defende que a globalização e as tecnologias exigem que as escolas desenvolvam novas competências para garantir um futuro melhor aos alunos e ao país

por:
MS
Mariana Sgarioni
01 de Julho 2011 - 12:00
Fernando Reimers. Foto: Lucas Landau
Fernando Reimers

Um dos pesquisadores mais respeitados nos Estados Unidos, o venezuelano Fernando Reimers busca soluções para melhorar a qualidade e a relevância das escolas de Educação Básica mundo a fora. Professor de Educação Internacional e diretor do Programa de Políticas Educacionais Internacionais da Universidade de Harvard, nos últimos anos ele concentrou suas investigações nos sistemas de ensino de países da América Latina e do Oriente Médio. Seu foco atual no Brasil é o impacto das políticas públicas na prática de gestores e professores no que se refere às competências leitoras dos alunos e ao desenvolvimento de outras habilidades cognitivas.

Reimers também tem investigado as possíveis contribuições da Educação para o desenvolvimento de competências necessárias para o sucesso profissional e pessoal nos dias de hoje. Entusiasta de mudanças profundas na Educação, ele acredita que é preciso acabar com os modelos ultrapassados e engessados das escolas para formar cidadãos globais, que compreendam temas mundiais e que possam participar ativamente da transformação de seu futuro. "Infelizmente, muitas instituições de ensino, sejam elas escolas ou universidades, estão tão isoladas do contexto social e econômico que gastam a maior parte do tempo ensinando as habilidades que foram úteis no passado", critica. Reimers conversou com NOVA ESCOLA no fim de abril, quando esteve no Rio de Janeiro como conferencista do Fórum Econômico Mundial para a América Latina.

As mudanças culturais e tecnológicas criaram novas habilidades e necessidades de aprendizagem?
FERNANDO REIMERS
Com certeza. Um dos elementos mais importantes de uma Educação de qualidade é a preparação dos alunos para compreender o local onde vivem, atuar nele e, assim, inventar um mundo melhor. É indispensável que as escolas criem mecanismos de feedback e processos que permitam enxergar o futuro. Só assim, eles vão estar em contato com a realidade das comunidades que pretendem servir e se tornarão agentes da inovação social, do empreendedorismo e do desenvolvimento, e não simplesmente de mecanismos que reproduzem o passado.

Como isso pode ser feito?
REIMERS
Por meio de atividades que levem os alunos a usar o que sabem para resolver problemas reais, buscando soluções criativas e colaborando com os outros. Eles precisam aprender a ser criativos para gerenciar suas aprendizagens ao longo da vida e a ter propósitos que extrapolem seus interesses. Isso é essencial para que possam contribuir como membros da sociedade de que fazem parte e de todo o planeta.

Em seus livros, essa nova concepção recebe o nome de Educação global. O que caracteriza esse conceito?
REIMERS
A Educação global é aquela que prepara crianças e jovens para viver e trabalhar em um mundo cada vez mais integrado pela globalização. Ela deve permitir a participação efetiva em três esferas: o setor produtivo, a sociedade civil e os processos políticos que governam as sociedades.

Isso, de alguma forma, exige alterações nos currículos e nos conteúdos clássicos de ensino?
REIMERS
Claro. As habilidades e os conhecimentos nas áreas mais convencionais de estudo, como alfabetização, Matemática ou Ciências, precisam agora atender às normas globais e não apenas às nacionais. Isso é determinado pelas avaliações internacionais de conhecimento e competências dos alunos, como o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa). Existe uma dimensão adicional, ainda não medida por essas avaliações, que é a preparação para compreender temas internacionais e o processo de globalização em si. Um cidadão do século 21 precisa entender quais são os principais desafios mundiais que nós compartilhamos e ter as habilidades para contribuir com soluções, para gerenciá-los ou transformá-los em oportunidades. Além disso, é também necessário entender como diferentes organizações, sejam elas empresas, o governo ou movimentos da sociedade civil, podem contribuir com respostas e soluções a esses desafios. A capacidade de falar e entender com fluência outros idiomas precisa ser desenvolvida de maneira efetiva nas escolas públicas.

A internet, a televisão e os outros meios de comunicação bombardeiam os alunos com informações de todo tipo. Hoje, mais do que nunca, eles chegam à escola com uma grande carga de informações. Qual o impacto dessa mudança comportamental na prática pedagógica?
REIMERS
Essa é uma das mais maravilhosas transformações vindas da onipresença do conhecimento e da informação. Ela liberta os melhores professores para assumirem as funções que muitos deles sempre quiseram: a de envolver as mentes de seus alunos para trabalhar em parceria com eles, discutindo ideias complexas e desafios e encontrando maneiras de resolvê-los. Faria pouco sentido em um mundo no qual os estudantes podem ter acesso instantâneo a informações sobre fatos e dados no telefone celular ou na internet, os professores passarem a maior parte do tempo transmitindo isso a eles. Com essa mudança, eles podem liderar poderosas experiências educacionais que ajudam no desenvolvimento da capacidade de julgamento de seus alunos, estimulam o pensamento independente e a disposição para olhar e lidar com os problemas de maneira nova e inventar soluções para eles.

Qual o papel das universidades nessa transformação da Educação?
REIMERS
Elas devem promover o desenvolvimento das comunidades das quais fazem parte. Uma das melhores formas é ajudar a melhorar a qualidade e a relevância dos sistemas de Ensino Fundamental e Médio. Como fazer isso? Formando excelentes professores que irão atuar nas salas de aula. Outra forma é favorecer o desenvolvimento profissional de alta qualidade ao longo da carreira, com programas de formação continuada. Além disso, elas podem oferecer diretamente materiais para alunos, diretores de escola e pais e ajudar na concepção de currículos e pensar em mecanismos eficazes para avaliar competências. Enfim, a universidade deveria gerar conhecimento sobre como melhorar o ensino público. Na prática, porém, elas ignoram a Educação Básica.

A utilização de pesquisas acadêmicas na construção de políticas públicas educacionais é apontada como um caminho para a qualidade. Como isso deve ser feito?
REIMERS
Mapeando e mobilizanndo redes sociais de Educação, para manter um diálogo com base no conhecimento empírico da prática de ensino. As pesquisas acadêmicas dão informações riquíssimas sobre o que vai bem e o que precisa ser melhorado, mas geralmente elas são ignoradas pelo Estado e pelas outras instituições educacionais. A ideia é fazer com que organizações e governos estudem as informações reveladas e utilizem esse conhecimento.

Qual o impacto das tecnologias para uma Educação de qualidade?
REIMERS
Tecnologias da informação e da telecomunicação permitem encurtar distâncias e tempo, ao conectar alunos com conteúdos, colegas e professores. Há enormes possibilidades de transformar a Educação usando essas funções. É possível ajudar os estudantes de lugares distantes a colaborarem entre si e participarem na avaliação do trabalho dos colegas e os professores a trocarem conhecimentos e práticas. Além disso, ela permite divulgar experiências modelo.

Qual sua avaliação sobre as políticas educacionais brasileiras?
REIMERS
Há muitos sinais positivos no Brasil. O primeiro é o compromisso claro e crescente para melhorar o ensino. Fornecer recursos financeiros para apoiar a qualidade educativa é evidentemente uma importante expressão desse compromisso. Além do dinheiro, é preciso dar apoio à inovação educacional e à ampliação de oportunidades para que todos os brasileiros desenvolvam seu talento e suas competências. Há sinais de que essa evolução positiva está ocorrendo, mas ainda há muito a fazer para que o Brasil construa um sistema de Educação verdadeiramente de excelência.

Em relação a países em desenvolvimento, qual a situação do Brasil?
REIMERS
Eu percebo aqui uma abertura para a inovação, o que é muito valioso, mas vejo também dramáticas desigualdades educacionais. Se essa questão não for resolvida, o país tem muito a perder. A Educação deve ser prioridade, o investimento mais importante de todos, como ocorre na China. Mas isso custa dinheiro. Para ter um ensino verdadeiramente bom é preciso uma política pública de qualidade. Caso o Brasil não tenha esse propósito, vai perder muito em relevância e não terá condições futuras de competir lado a lado com os demais países. Entretanto, se comparado aos vizinhos da América Latina, o Brasil conseguiu muito na última década. Já se for comparado com países como a China ou a Coreia do Sul, ainda precisa melhorar o profissionalismo com que o sistema de ensino é gerenciado.

Qual o papel da mobilização social para a avanço da Educação?
REIMERS
Melhorar o ensino é uma tarefa que envolve muitas partes interessadas: alunos, pais, educadores, empresários, governo e sociedade civil. O Todos pela Educação é uma inovação fantástica brasileira que mostra que é possível articular um consenso para levar essa área a sério no país.

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