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Álvaro Marchesi: "Cidadania só faz sentido quando os alunos são respeitados"

Um dos pais da reforma educacional da Espanha - que inspirou nossos PCNs - afirma que a escola não está preparada para atender aos jovens

por:
RB
Roberta Bencini
Álvaro Marchesi. Foto: Ricardo Benichio
Álvaro Marchesi

Por sua atuação na Educação, Álvaro Marchesi já foi eleito uma das 50 personalidades mais importantes da Espanha. Formado em Psicologia pela Universidade de Madri, ele foi um dos responsáveis pela reforma educacional implantada em 1990 em seu país. A Lei de Ordenação Geral do Sistema Educativo, considerada avançada por pregar a diversidade, tornou o ensino obrigatório e gratuito até os 16 anos, deu mais autonomia às escolas, incluiu alunos com deficiência no sistema regular e agregou o ensino profissionalizante ao nível médio, entre outras mudanças - todas muito contestadas.

Hoje, como secretário-geral da Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI), participa de discussões sobre Educação em diversos países. No ano passado, coordenou um estudo internacional sobre convivência escolar promovido pelo Instituto SM para a Educação, com sede na Espanha. A pesquisa revelou que as relações não vão nada bem. Para 47% dos alunos brasileiros, os conflitos têm aumentado, enquanto 58,1% dos argentinos e 43% dos mexicanos têm a mesma opinião. Nesta entrevista, Marchesi - conta como os jovens têm trazido novas problemáticas para a escola e como enfrentou as críticas à reforma que comandou, além de comentar os dez anos dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) no Brasil, inspirados em suas idéias.

Nos países ricos, os problemas de relacionamento na escola são diferentes?
Álvaro Marchesi  Problemas há, sim, mas não tão marcantes como no Brasil. Tudo é interligado: as condições sociais da população, as intenções dos sistemas educativos, o compromisso da escola, a situação dos professores e a atitude dos alunos. Nas sociedades em que a escola, a família e o poder público não vão bem, nada funciona bem. Mas a mesma lógica não se aplica, necessariamente, ao compromisso dos educadores. O Brasil é o país que tem mais professores compromissados com o ensino. A relação entre estudantes e professores reflete esse descompasso entre os desejos dos jovens e a falta de preparo docente? Marchesi - Esse relacionamento é problemático em qualquer lugar, mas é mais delicado nos países com piores condições educacionais e sociais. A desigualdade acaba com a harmonia entre as pessoas. Tudo é facilitado onde as situações são mais uniformes, como na Finlândia, país que se destacou no Pisa (teste que avalia estudantes de 15 anos, a cada três anos, em 40 países). Lá a sociedade é mais igualitária e as grandes questões sociais estão resolvidas.

Outro dado do estudo do Instituto SM revela que há uma distância grande entre os interesses dos alunos e os dos diretores: 45% dos jovens consideram que as relações são, em geral, difíceis, enquanto só 10% dos gestores têm a mesma opinião.
Marchesi
  Isso é natural. O diretor vê a situação geral, as questões macro. Seus critérios de análise são diferentes dos adotados pelo restante da equipe. Problemas acontecem quando ele toma decisões sem consultar estudantes e docentes.

Fala-se muito da mudança de papel do professor, mas o do diretor também mudou?
Marchesi
 O diretor agora não tem que ser só um gestor mas um líder nos processos educacionais, na cultura escolar, nas relações entre professores e comunidade. Bom, tudo isso complica a tarefa dele. Porém, como presidente da instituição, deve saber articular mudanças e pactos.

Na época atual, por ser um período de transição, o trabalho do professor está mais difícil?
Marchesi
Sim, nunca foi tão difícil ensinar como nos dias de hoje e nos próximos anos será pior porque cada vez mais jovens de 14 a 18 anos estarão estudando e apresentando problemáticas nunca antes enfrentadas pelos professores. Pense numa coisa: há apenas dez anos começamos a trabalhar com a internet e hoje acessamos a rede mundial pelo celular. Quem poderia imaginar isso? Os alunos também estão interessados nessas mudanças e menos em estudar somente nos livros. Nada está estático. As famílias também mudaram. As mulheres têm outras preocupações além da Educação dos filhos. Vivemos em um momento delicado e muito positivo.

Os valores da juventude devem fazer parte do currículo?
Marchesi
Claro. Não adianta discutir cidadania se os alunos não são respeitados, se não são escutados, se não podem dialogar e se passam boa parte do tempo sem aprender. Valores éticos e morais só fazem sentido quando se trabalha a convivência em sala de aula. Esse é um tema importante que está no centro da reflexão educacional mundial.

De acordo com os dados da pesquisa sobre convivência escolar, a qualidade das relações é ruim. A situação sempre foi essa ou a violência é um problema contemporâneo?
Marchesi
A violência é sem dúvida um grave problema para a humanidade, mas por que agora parece que tudo está mais difícil? Porque antes tínhamos menos estudantes. A escola sempre foi voltada às crianças de classe média. E mais: tinha como objetivo atender àqueles que tinham poucos problemas de aprendizagem. Hoje, ela deve acolher todos, sejam de classe média ou baixa, com ou sem família, com deficiência ou não. A vantagem é de todos nós. Ganhamos a possibilidade de viver em países mais justos.

Podemos esperar que esses conflitos se resolvam em um curto espaço de tempo?
Marchesi
É impensável viver em uma escola sem conflitos, mas os problemas atuais se devem, em parte, a um estranhamento frente a essa nova realidade. A sociedade tem mudado muito rápido e daqui a 40 anos essa discussão não fará nenhum sentido.

De que forma as emoções de alunos e educadores condicionam a aprendizagem?
Marchesi
As relações emocionais precisam ser mais consideradas pela escola. É isso que mostram os dados da pesquisa. A profissão de professor tem uma implicação afetiva muito importante, já que ele se relaciona com os alunos, as famílias e os colegas de trabalho. Isso é muito desgastante. Não é à toa que muitos profissionais em todo o mundo são afastados, vítimas de uma doença conhecida como burnout, que é a exaustão emocional. E, se as emoções estão muito conectadas à vida ética e moral, é muito importante que eles estejam bem para cumprir seu papel plenamente, com empatia, sensibilidade e solidariedade. Sem isso, aumentam as possibilidades de o aluno se sentir desprezado e injustiçado. Essas sensações têm ligação direta com o rendimento escolar.

O que o educador pode fazer quando a criança não quer aprender?
Marchesi 
Ele tem a responsabilidade de oferecer oportunidades de aprendizagem a todos. Se essa concepção acompanha o trabalho docente desde a Educação Infantil, a possibilidade de que os alunos cheguem à 8ª série interessados em estudar é muito maior. A escola não pode atender apenas a quem está interessado. O que um jovem que não quer estudar pode esperar do futuro e o que ele pode oferecer ao país? Muito pouco. Esse problema não é apenas do professor mas também da escola, que precisa oferecer alternativas motivadoras de aprendizagem, como o acesso à tecnologia e a possibilidade de participação, de verdade, na instituição.

Os PCNs, inspirados na reforma espanhola, completam dez anos em 2007. Como o senhor vê a Educação brasileira nesse período?
Marchesi
Se para analisar essa questão fizermos uma analogia com o futebol, o Brasil está nos primeiros lugares da segunda divisão. O grande obstáculo são as condições sociais e econômicas, mas vejo um processo de discussão em defesa da qualidade do ensino. A principal meta do país para os próximos dez anos deve ser alcançar a primeira divisão e acabar com a desigualdade gritante que permite, por exemplo, apenas aos matriculados na rede particular conseguir vaga em universidades públicas. E como nada pode ficar estanque, todo currículo precisa ser adaptado para atender às novas demandas educacionais.

Muitos conceitos dos PCNs ainda não foram incorporados totalmente pela escola
Marchesi
Há sempre o risco de deturpações. Vejo muitas reclamações quanto a conteúdos versus valores. Como ensinar Matemática, por exemplo, e ao mesmo tempo dar conta de questões de cidadania? Só uma boa formação profissional pode ser capaz de instrumentalizar o Magistério para responder a essa demanda atual.

Como foram as críticas à renovação pedagógica que o senhor ajudou a implantar na Espanha.
Marchesi
Eu me preparei para as opiniões contrárias às reformas porque há muitos conservadores em meu país. Mas a maior certeza de que estava no caminho certo eu tive quando estava na praia com minha família e um senhor se aproximou. Ele pediu licença para apresentar sua filha de 14 anos, que tinha síndrome de Down, e me deu um abraço. Queria agradecer a possibilidade de a garota estudar na rede regular com as outras crianças.

Como está a Educação na Espanha hoje, 16 anos depois de iniciada a reforma?
Marchesi 
Avançamos muito. Implantamos em 30 anos mudanças que em outros países, como a Inglaterra, levaram 60. Mas se fizéssemos outra comparação com o futebol, estaríamos nos últimos lugares da primeira divisão. Não conseguimos resolver problemas graves, como a inclusão das novas culturas no sistema educacional. Os imigrantes ainda são vistos como um problema. Há muita coisa a rever. Na época, buscamos muito o apoio dos profissionais da Educação, mas hoje vejo que isso foi insuficiente para mudar profundamente a situação. A Educação é assunto de todos os segmentos da sociedade: das diversas instâncias do poder público, dos políticos, da imprensa, dos empresários, da família, dos profissionais de saúde e até dos shopping centers, que deveriam promover a leitura.

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Bibliografia
O Que Será de Nós, os Maus Alunos?, Álvaro Marchesi, 192 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-703-3444, 37 reais 

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