Ir ao conteúdo principal Ir ao menu Principal Ir ao menu de Guias
Notícias
12 de Janeiro de 2018
5 4 3 2 1

Churchill na Segunda Guerra: não foi bem assim que aconteceu

O filme “O Destino de uma Nação” centra em um momento decisivo na trajetória do primeiro-ministro britânico, mas deixa muito a desejar em termos de aula de História

Por: Soraia Yoshida
Retrato do primeiro-ministro britânico Winston Churchill: liderança inspiradora durante a Segunda Guerra Mundial, mas questionada no início  Foto: Yousuf Karsch/Wikimedia Commons/Wikipedia

Antes de proferir um de seus discursos mais famosos, o primeiro ministro britânico Winston Churchill está perdido no metrô de Londres. Ele tenta chegar a tempo para uma reunião decisiva de seu gabinete. O ano é 1940, o mês de maio e Churchill tem pressa. E muitas dúvidas. 

A cena faz parte do filme “O Destino de uma Nação”, do diretor Joe Wright, que está em cartaz nos cinemas do país, é dessas de arrebatar a plateia (atenção, daqui para frente teremos alguns spoilers, mas nada que atrapalhe caso você pretenda ver o filme). Mas como aula de História, a produção deixa muito a desejar. Assim como outros roteiros baseados em fatos históricos, este assinado por Anthony McCarten (o mesmo de “A Teoria de Tudo”, sobre a vida do físico Stephen Hawking) toma uma série de “liberdades” com os fatos. Para separar ficção de realidade sem acabar com a graça de ir ao cinema, vamos colocar os acontecimentos na ordem certa e com o devido pano de fundo. 

As discussões do Gabinete de Guerra foram registradas praticamente palavra por palavra, como mostra o filme. As minutas foram divulgadas ao público em 1970.

 

O discurso do rei

Como o filme mostra: No filme "O Destino de uma Nação", o político do Partido Conservador Winston Churchill é escolhido primeiro-ministro e, seguindo o ritual britânico, vai ao encontro do rei George VI para anunciar que pode formar um governo. O rei é contra a nomeação e o trata friamente no primeiro encontro. 

Como aconteceu: Winston Churchill assumiu o cargo de primeiro-ministro em 10 de maio de 1940. Inicialmente, o rei George VI tinha reservas em relação a sua indicação. Para começar, ele havia apoiado a decisão de seu irmão Eduardo VIII em abdicar ao trono para ficar com a norte-americana Wallis Simpson, em 1936. Churchill também foi culpado pela campanha desastrosa em Gallipolli, durante a Primeira Guerra (os dois fatos são citados no filme). Pesava contra ele também o fato de que a família real havia se desentendido com seu pai, Lord Randolph Churchill, um mal estar que ainda durava quando ele chegou ao poder.

 

O bunker de guerra de Churchill

Como o filme mostra: Boa parte da ação do filme acontece nas idas e vindas do primeiro-ministro britânico por túneis e escadas de um bunker subterrâneo próximo ao Parlamento. 

Como aconteceu: Conhecidas como War Rooms (Salas da Guerra, em tradução livre), essas construções incluíam abrigo aéreo e uma sala de mapas, onde era possível acompanhar o avanço e a retirada de tropas. O local de fato foi usado por Churchill, mas não no primeiro momento. O espaço foi aberto no final de agosto de 1939, mas Churchill começou a usá-lo em setembro de 1940, pois até então não havia bombardeios a Londres. Mais tarde, os principais ambientes foram reconstruídos no Imperial War Museum e até hoje estão entre as principais atrações turísticas em Londres.

 

Negociação de tratado com a Alemanha

Como o filme mostra: O secretário de Relações Exteriores Lord Halifax defende a negociação de um tratado de paz com Adolf Hitler, aproveitando contatos com a Itália, aliada da Alemanha. Durante as reuniões com ministros e generais, Churchill parece ser o único a se opor à decisão, mas ele é pressionado pela possibilidade de perder a guerra e sacrificar milhares de vidas no front de batalha.

Como aconteceu: A discussão sobre a possibilidade de o Reino Unido negociar um acordo com o governo de Adolf Hitler foi debatida em nove encontros do Gabinete de Guerra de Churchill entre os dias 24 e 28 de maio. O Gabinete de Guerra era formado por Churchill, dois ministros do Partido Conservador (o ex-primeiro-ministro Neville Chamberlain e o secretário de Relações Exteriores Lord Halifax), e dois ministros do Partido Trabalhista, Clement Attlee e Arthur Greenwood. Os trabalhistas apoiavam Churchill, enquanto Halifax era favorável à negociação e Chamberlain não tinha tomada uma decisão. Para esta discussão, Churchill convidou o líder do Partido Liberal Archibald Sinclair, que apoiava firmemente sua posição contra o governo nazista. Halifax defendia negociações para evitar perdas militares e humanas, enquanto Churchill argumentava que, ao negociar com a Alemanha a partir de uma posição mais fraca, Hitler provavelmente exigiria a destruição das forças armadas, a rendição do Império Britânico e a constituição de um governo fantoche em Londres. Halifax estava disposto a renunciar, o que teria sido desastroso para Churchill, já que ele não tinha apoio da maioria. Um momento que consta das minutas do Gabinete de Guerra é “um passeio no jardim”, no qual Halifax e Churchill discutem suas visões.

  

Golpe de mestre no Parlamento

Como o filme mostra: Acreditando contar com o apoio da população, Churchill vai buscar suporte também no Parlamento. Com um discurso inflamado, ele convence os parlamentares de que o Reino Unido deve ir à guerra contra a Alemanha.

Como aconteceu: No dia 28 de maio, Churchill foi ao encontro dos demais membros do gabinete e obteve grande apoio por sua determinação em enfrentar os nazistas – e não negociar com eles, como queria Halifax. Com a moral em alta, o primeiro-ministro vai ao Gabinete de Guerra e confirma sua decisão. Halifax deixa de advogar em prol das negociações de paz. Com essa manobra, Churchill passou a perna nos opositores e unificou o governo. Ele também apelou ao ministro para permanecer no governo. Mais tarde, Churchill enviou Halifax como embaixador aos Estados Unidos, reforçando a aliança entre os dois países.

 

Render-se jamais

Como o filme mostra: Dentro do carro, a caminho do Parlamento, Churchill dita à secretária o discurso que fará para convencer a todos de que o país irá para a guerra, mas que sairá vitorioso.

Como aconteceu: Winston Churchill fez o que muitos consideram um dos discursos mais famosos da história no dia 4 de junho na Câmara dos Comuns, no Parlamento Britânico. Conhecido como “Nós lutaremos nas praias”, o texto é uma aula em oratória: “Iremos até o fim. Nós lutaremos na França, lutaremos nos mares e oceanos, lutaremos com crescente confiança e crescente força no ar, defenderemos nossa ilha, a qualquer custo. Nós lutaremos nas praias, lutaremos nos locais de desembarque, lutaremos nos campos e nas ruas, lutaremos nas colunas. Nunca nos renderemos”.

O discurso foi feito dias após o encontro com parlamentares que selou o apoio a suas decisões e, mais importante, o sucesso da Operação Dinamo que conseguiu evacuar as forças britânicas de Dunquerque. O rascunho datilografado original do discurso, com todas as alterações feita por Churchill em tinta azul e vermelha, faz parte de um acervo de 2.500 caixas de documentos e objetos – totalizando mais de um milhão de itens – que integram o Churchill Archives Center, na Universidade de Cambridge.

 

Tenha acesso a conteúdos e serviços exclusivos
Cadastre-se agora gratuitamente
Cadastrar