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10 de Janeiro de 2018 Imprimir
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5 lições sobre bullying e inclusão de “Extraordinário”

Além de emocionar, o filme pode servir de inspiração para combater agressões no ano letivo que vai começar

Por: Wellington Soares
Imagem: Divulgação

Todo mundo já viveu essa situação: você tenta aproveitar as férias, vai ao cinema e esbarra em um filme que faz você lembrar o tempo inteiro sobre a vida na escola, a rotina com os alunos e ter milhões de ideias. Foi isso que aconteceu quando algumas pessoas da equipe de NOVA ESCOLA foram assistir Extraordinário – inspirado no livro de mesmo nome da autora R. J. Palacio – e que está em cartaz nas salas de cinema.

O filme conta a história do pequeno August Pullman, um menino de 10 anos, e o início da sua vida escolar. Auggie – como é chamado pela família – nasceu com uma síndrome rara que causou diversos problemas de saúde, inclusive uma deformação em seu rosto. Por isso, a família decidiu não enviá-lo à escola até a 4ª série (nos Estados Unidos, a lei permite que os próprios pais deem aula aos filhos, a matrícula em uma instituição de ensino não é obrigatória).

Ao atingir a idade adequada para frequentar a 5ª série, Auggie é finalmente matriculado em um colégio. Mas o início da escolarização dá margem a medos e ansiedade, não apenas no menino, mas também à família, que teme pela maneira como as outras crianças vão lidar com sua aparência. Desnecessário dizer que as situações vividas pelos personagens são pensadas para emocionar os espectadores (é difícil não chorar pelo menos uma vez). Conversamos com Luciene Tognetta, coordenadora do Grupo de Pesquisas em Educação Moral (Gepem) da Unesp e da Unicamp, e levantamos cinco lições do filme sobre o combate ao bullying e sobre a inclusão de crianças com deficiência.

1. Discuta abertamente sobre as diferenças entre TODOS os alunos

Nos primeiros dias de aula, a aparência de Auggie chama a atenção das outras crianças. Imagem: Divulgação

A chegada de alunos com deficiência à escola regular é uma realidade cada vez mais comum. Dados da pesquisa Conselho de Classe, realizada pela Fundação Lemann, mostram que 22% dos professores brasileiros veem a inclusão como uma das três maiores prioridades para seu trabalho.

Um dos receios sobre a entrada desses alunos é a possibilidade de que sofram bullying e intimidação – como acontece com Auggie, no filme. Luciene Tognetta afirma que ensinar as crianças a conviver com outras que reconheçam como diferentes passa pela necessidade de fazê-las pensar que todos são, em alguma medida, diferentes uns dos outros. “E não basta falar que todos são diferentes, é preciso viver a diferença”, ressalta ela.

Entre as atividades sugeridas pela especialista estão rodas de conversa em que cada criança possa expor seus interesses, seus gostos e suas histórias. “Também é possível trazer espelhos e estimular os estudantes a observar as diferenças físicas também. Assim, eles verão que não é apenas um colega que é diferente”, afirma Luciene.

2. Prepare os próprios alunos para combater o bullying

Muitas vezes, os adultos se surpreendem por descobrir que as intimidações acontecem de maneira velada. Imagem: Divulgação

Uma das características do bullying é que ele acontece justamente longe dos olhos dos adultos, na relação entre as crianças. É o que acontece no filme: por muito tempo, diretor, pais e professores não tomam conhecimento das intimidações a que Auggie é exposto. Luciene Tognetta explica que uma boa maneira de contornar essa invisibilidade é investir na formação dos próprios alunos para que eles ajudem a resolver a situação na escola. “Quando um adulto trabalha sozinho, as crianças e os jovens tendem a encarar suas falas como ‘ordens’", afirma Luciene. "Quando o tema é levantado por pares, a compreensão é diferente”. E não basta dar sermões ou fazer palestras sobre o tema. No site Somos Contra o Bullying, há materiais de apoio para a criação das equipes de ajuda e sugestões de atividades e materiais para discutir temas como empatia, cooperação e solidariedade.

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3. Atue também com os agressores e suas famílias

Julian é o principal motivador das agressões contra Auggie. Imagem: Divulgação.

Quando conhecemos os pais de Julian, o principal agressor de Auggie no filme, parece ficar claro o porquê do comportamento do menino. Aqui, vale prestar atenção: as causas do bullying são múltiplas e, apesar do estilo usado pelos pais na criação dos filhos ser um dos principais fatores que influenciam no comportamento, ele não é o único. Não faz sentido, portanto, culpar unicamente os pais pelo bullying. Mas dá para ampliar as ações para as famílias. “Os pais não receberam formação para discutir essas questões. É importante que a escola também ofereça formações para eles”, DIZ Luciene. O livro Esses Adolescentes de Hoje, organizado pela especialista Luciene dá alguns encaminhamentos para esse trabalho. O material usado para a formação das famílias em diversas escolas no estado de São Paulo também está disponível no site Somos Contra o Bullying.

4. Combata a pressão que outros alunos possam sentir

Crianças que se aproximam de Auggie também sofrem com a intimidação. Imagem: Divulgação

Inicialmente, Auggie faz um único amigo, Jack, que passa a sofrer pressão dos outros alunos para que deixe de se relacionar com o protagonista. Situações como essas não são raras. “Em algumas instituições, vale a regra do ‘cada um por si’”, conta Luciene. Mudar esse cenário exige um trabalho sistemático e que tenha foco na prevenção. Garanta que os valores da escola sejam trabalhados constantemente com os alunos. “A instituição deve 'tornar legal' estar ao lado de quem é diferente e não ao lado de quem promove as agressões”, afirma a especialista.

5. Crie espaço para ouvir os estudantes e identificar problemas emocionais

A adolescente Via também enfrenta situações difíceis, mas que não são reconhecidas pelos adultos. Imagem: Divulgação.

O filme se dedica a retratar não somente a rotina de Auggie, mas também de diversas pessoas com quem o menino se relaciona. Chama atenção a história da irmã mais velha, Via. “Ela faz do ingresso no curso de teatro da escola uma válvula de escape para sua rotina”, diz Jorge Assumpção, diretor de Programação e Marketing da Paris Filmes, que distribui o filme no país e organizou rodadas de discussão sobre a obra com professores de escolas públicas. As angústias sofridas pela jovem quase sempre passam despercebidas, tanto pela família quanto pela escola onde ela estuda. Alunos como ela, muitas vezes, passam por situações difíceis sem que os educadores as identifiquem. Para mudar essa situação, Luciene sugere apostar em novas metodologias de ensino. “Quando os estudantes têm mais chance de se colocar, fica mais claro para os adultos os momentos pelos quais estão passando”, conta a especialista. Uma dinâmica possível é a realização de rodas de conversa para realizar um balanço sobre o dia. No final da aula, os estudantes podem ser estimulados a falar sobre como participaram das atividades, quais papéis assumiram – foram líderes? Demandaram muita ajuda? Conseguiram apoiar colegas? – e, assim, o professor se aproxima de cada estudante.

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