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Blog de Alfabetização

Troque experiências e boas práticas sobre o processo de aquisição da língua escrita.

A BNCC e a alfabetização em sala de aula

Mara Mansani se debruçou sobre a Base de Língua Portuguesa e conta suas impressões

POR:
Mara Mansani

Finalmente, 2018 chegou. Estou de férias, mas inevitavelmente me pego pensando no que nos aguarda neste novo ano, principalmente em relação à alfabetização.

Naturalmente, minha atenção se volta à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) que, depois de um processo longo de construção a muitas mãos e cabeças pensantes, polêmicas, debates e contribuições de diversos segmentos, foi aprovada no final do ano passado.

Neste momento, ainda são muitas as dúvidas que rondam a minha cabeça e a de professores Brasil afora. E isso é natural. Afinal, além da complexidade do tema, há o ineditismo da ação. Esta é a primeira vez que se constrói uma base curricular única para todo o Brasil que vai, de fato, influenciar as políticas públicas.

Leia mais sobre BNCC e Alfabetização no Guia da Base

- O que a BNCC propõe para a Alfabetização 
- Consciência fonológica e alfabetização: como trabalhar?

Passei os últimos dias estudando a versão final do texto de Língua Portuguesa e percebi alterações, ou melhor, adequações ao que diz respeito à alfabetização.

Sei que uma das polêmicas é a questão de a alfabetização ter de ser completa até o 2º ano do Ensino Fundamental. Polêmicas à parte, eu gostaria de ampliar nossa compreensão sobre esse texto. Como será a implementação da Base em nossas salas de aula? Como alfabetizarei meus alunos a partir do que orienta a BNCC?

A seguir, destaco alguns pontos e minhas primeiras impressões sobre a versão final da Base Nacional de Língua Portuguesa:

  • Percebi uma visão de continuidade, de progressão da aprendizagem, de ligação direta entre a Educação Infantil e os anos iniciais do Ensino Fundamental, quando deve-se aprofundar as experiências com a linguagem oral e escrita já iniciadas na família e na Educação Infantil. Acredito que essa abordagem contribui para diminuir essa lacuna entre ciclos. Precisamos ter uma visão mais integral do processo de aprendizagem e para isso é necessário compreender que as etapas estão interligadas, e cada uma contribui na progressão da outra;

  • O processo de alfabetização nos dois primeiros anos, segundo a Base, deve ser o foco da ação pedagógica no componente de Língua Portuguesa: "...aprender a ler e escrever oferece aos estudantes algo novo e surpreendente: amplia suas possibilidades de construir conhecimentos nos diferentes componentes, por sua inserção na cultura letrada, e de participar com maior autonomia e protagonismo na vida social." (pág. 61);

  • Na BNCC, assim como era nos Parâmetros Curriculares Nacionais, o texto é o ponto central para definição dos conteúdos, habilidades e objetivos, considerado a partir de seu pertencimento a um gênero discursivo que circula em diferentes esferas/campos sociais de atividade/comunicação/uso da linguagem.

 

  • Ao componente Língua Portuguesa cabe proporcionar aos estudantes experiências que contribuam para a ampliação dos letramentos, de forma a possibilitar a participação significativa e crítica nas diversas práticas sociais permeadas/constituídas pela oralidade, pela escrita e por outras linguagens. Para garantir essa ampliação dos letramentos, é preciso criar oportunidades em que os alunos possam se expressar, utilizando-se das práticas de linguagem em situações reais, que realmente façam parte da vida em sociedade, em nossa cultura letrada, com o devido cuidado para nos libertamos desse vício de querer escolarizar a vida;

  • A BNCC destaca também o letramento digital, pois as novas práticas de linguagem contemporâneas abrem um leque de novas possiblidades de acesso e produção. Nossas crianças, adolescentes e jovens acessam a internet e são, ao mesmo tempo, consumidores e produtores de conteúdo. Além de discutir as questões éticas nesse novo campo, é preciso explorá-lo para alfabetizar nossos alunos. Prova disso é a ampliação dos gêneros textuais a serem trabalhados, dos já consagrados pela escola (notícia, entrevista, artigo de opinião, charge, tirinha, crônica, etc) para os digitais, como os infográficos.

No que diz respeito à Alfabetização, ela aparece em cada um dos eixos da seguinte maneira:

- No eixo Oralidade, aprofundam-se o conhecimento e o uso da língua oral, as características de interações discursivas e as estratégias de fala e escuta em intercâmbios orais;

- No eixo Análise Linguística/Semiótica, sistematiza-se a alfabetização particularmente nos dois primeiros anos, e desenvolvem-se ao longo dos três anos seguintes a observação das regularidades e a análise do funcionamento da língua e de outras linguagens e seus efeitos nos discursos (na Base esse processo complementar da alfabetização é chamado de ortografização);

- No eixo Leitura/Escuta, amplia-se o letramento, por meio da progressiva incorporação de estratégias de leitura em textos de nível de complexidade crescente, assim como no eixo Produção de Textos, pela progressiva incorporação de estratégias de produção de textos de diferentes gêneros textuais.

Em resumo, segundo a Base, no processo de alfabetização, é preciso que os estudantes conheçam o alfabeto e a mecânica da escrita/leitura – processos que visam a que alguém (se) torne alfabetizado. Para compreender esse processo de alfabetização, veja abaixo as capacidades e habilidades envolvidas:

  • Compreender diferenças entre escrita e outras formas gráficas (outros sistemas de representação);
  • Dominar as convenções gráficas (letras maiúsculas e minúsculas, cursiva e script);
  • Conhecer o alfabeto;
  • Compreender a natureza alfabética do nosso sistema de escrita;
  • Dominar as relações entre grafemas e fonemas;
  • Saber decodificar palavras e textos escritos;
  • Saber ler, reconhecendo globalmente as palavras;
  • Ampliar a sacada do olhar para porções maiores de texto que meras palavras, desenvolvendo assim fluência e rapidez de leitura.

Ao observar esses itens, você professor/alfabetizador, vai perceber que já desenvolvemos tudo isso em sala de aula, em nossas práticas. Na minha opinião, um dos pontos mais importantes para alfabetizar é propor práticas educativas que explorem a linguagem, em especial a oral e a escrita, em situações reais em que se fazem necessários seu uso, explorando também o universo infantil lúdico e das brincadeiras. Para esse desenvolvimento do processo de alfabetização, tudo é motivo para ler, escrever, explorar e se expressar.

De acordo com o texto da Base, não dá para ficar erroneamente ensinando primeiro as vogais, depois as famílias silábicas com sílabas simples durante todo o ano, e ao final dele as sílabas mais complexas. Tudo deve acontecer simultaneamente dentro de um contexto maior, real e significativo, que envolve o uso de diversas habilidades e capacidades.

Como nada é perfeito, também há pontos que acho que poderiam ser aprimorados na Base, como por exemplo a questão da produção textual no 1º ano, que achei limitada, mas isso não quer dizer que as redes de ensino não possam ampliar essas possibilidades. E, ao longo dos anos no processo de implantação, haverá momento de discutir as orientações e corrigir os rumos!

Tudo isso foram apontamentos e lições que tirei do meu início de estudos da Base Nacional. Ainda há muito que se explorar e aprofundar, e todos nós professores devemos nos apropriar desse texto. A leitura pode parecer difícil no começo, mas é fundamental que os docentes brasileiros saibam o que precisam ensinar e qual o seu grau de autonomia diante das orientações que estão colocadas, para, então, planejar o currículo de sua rede e de sua escola.

Depois podemos compartilhar nossas experiências e descobertas, erros e acertos! Contem comigo e com o espaço deste blog para as discussões!

Um bom ano de 2018 a todos e um grande abraço!

Mara Mansani

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