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07 de Março de 2018 Imprimir
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Trabalho infantil: uma conversa que foi além da sala de aula

Débora Garofalo, professora da rede pública de São Paulo, conta como motivou alunos a combater a evasão escolar

Por: Débora Garofalo

“Como educadora, uma das coisas em que sempre acreditei foi a possibilidade de uma educação integral, pautada na equidade e nos direitos humanos. 

Hoje quero compartilhar com vocês minha experiência ao tratar desse assunto com os alunos e como desenvolvemos juntos um projeto de combate ao trabalho infantil. 

Atualmente leciono em uma escola situada em uma região muito carente da cidade de São Paulo. Uma das coisas que sempre me inquietou foi ver as crianças abandonando a escola para trabalhar. Algo desolador! 

Diante dessa situação, eu resolvi levar o tema do trabalho infantil para a sala de aula e explorá-lo com as minhas turmas de 5º e 7º anos, em que havia maior incidência desses casos.

Assistimos ao curta “Menino de Carvão” (roteiro e direção de Fram Paulo) e também realizamos a leitura dos Direitos da Criança e do Adolescente em forma de cordel, conversando sobre o assunto logo depois. Foi um momento de muita emoção e também uma oportunidade para as crianças relatarem suas próprias histórias. Entre muitos relatos, alunos contaram que já possuíam responsabilidade com a casa e com os irmãos mais novos, enquanto outros também trabalhavam fora de casa, vendendo doces no semáforo, entregando materiais pelo bairro ou engraxando sapatos em locais movimentados, como estações de metrô. 

Em busca de parcerias, encontrei a Rede Peteca e através dela, a promotora pública Elisiane Santos, que aceitou o convite de dar uma palestra na escola e conversar com os alunos sobre trabalho infantil, o que foi muito positivo e esclarecedor aos estudantes. 

Promovemos ações pela escola e pela comunidade sensibilizando famílias sobre a importância do combate ao trabalho infantil. Cada turma de alunos optou por realizar uma ação – produzindo um vídeo, adesivos autocolantes para serem distribuídos e também panfletos de sensibilização com estatísticas atuais. [Dados mais recentes divulgados pelo IBGE apontaram que 1,8 milhão de crianças e adolescentes estavam nessa situação em 2016. A maior parte são meninos que chegam a trabalhar 25,3 horas por semana] Para as ações foi feito um planejamento e sequência didática para execução, prevendo o conhecimento prévio das crianças, a conversa após o filme e a leitura do cordel, além de pesquisa sobre o assunto. O roteiro estabelecido para a execução das ações teve como objetivo criar condições para que os estudantes pudessem refletir e conceber atividades para atuar na comunidade, despertando interesse para a leitura e escrita, interação e apropriação das ferramentas digitiais de forma criativa, protagonista e autoral.

No caso do vídeo, a produção e roteiro foram realizados de forma coletiva com os estudantes. Houve uma divisão de tarefas: quem seriam os personagens, criação do cenário, busca pelos materiais necessários, gravação e edição. O vídeo foi gravado em celular, com o auxilio de um tripé e repassado mais tarde a um computador para edição, através do programa Movie Maker, que é bem simples e de fácil utilização. Com isso, foi possível adicionar efeitos de transição, textos personalizados e áudio. Nesse trabalho, os alunos utilizaram o aprendizado de uma experiência anterior com vídeo realizada na escola. 

Trabalhamos de forma prática e significativa as competências e habilidades comunicativas, ao integrar a análise linguística, leitura/escuta, produção oral e textual, associando ferramentas digitais. 

O trabalho incluiu aulas públicas, que seguiam um roteiro determinado. Conversamos com a comunidade, priorizando o comércio, e distribuímos o material produzido – extrapolando a aprendizagem para além dos muros da escola. 

Essa ação foi muito importante, pois infelizmente muitas pessoas não tinham conhecimento do que é o trabalho infantil. Ao percorrer a comunidade com os estudantes e abordar pessoas para conversar sobre o projeto, uma senhora nos contou que não tinha conhecimento que deixar sua neta menor de 10 anos como responsável por serviços domésticos, refeições – o que fazia com que, muitas vezes, faltasse na escola –, se enquadrava em trabalho infantil.

Ao esclarecer que, sim, a situação se enquadrava em trabalho infantil, os olhos dessa senhora se encheram de lágrimas. Ela pediu desculpas, disse que possuía pouco estudo e disse que, ao agir dessa forma, achava que estava educando a neta. O caso só comprovou que o trabalho infantil é influenciado por questões econômicas, mas também culturais, e que a sensibilização realizada pelos discentes foi essencial para quebrar esse ciclo.

Ao iniciar com o projeto tínhamos 27 estudantes das turmas de 5º e 7º anos com grandes chances de evasão escolar. Ao final do trabalho, duas crianças abandonaram a escola. Fazer os alunos vivenciarem sua aprendizagem foi o primeiro passo para uma mudança de comportamento e atitude no combate ao trabalho Infantil. Senti uma grande alegria ao ver essas crianças ganhando voz no combate ao trabalho infantil. Deixando que escolhessem a maneira como iriam abordar o tema, eu vi em cada olhar um pertencimento ao projeto, que foi uma vivência transformada em currículo.  

Novamente em parceria com a Rede Peteca e o Canal Futura, a escola recebeu o projeto Pedra, Papel e Tesoura, que realizou uma oficina de construção de histórias em quadrinhos que serão transformadas agora em animação. Esse desenho será televisionado no primeiro trimestre de 2018 e espero que possa chamar ainda mais atenção para o tema. 

Esse intenso trabalho conquistou o 1º lugar no V Prêmio de Direitos Humanos, divulgado em dezembro de 2017. Serviu para reforçar a certeza de que é necessário incluir a questão dos direitos humanos na educação, que permite a mudança e a transformação na comunidade. O trabalho também permitiu levantar a autoestima dos estudantes, dando voz para que eles pudessem intervir e sensibilizar a comunidade, extrapolando esses aprendizados para além da escola. 

E você, querido professor, como já trabalhou a temática dos Direitos Humanos? Compartilhe sua experiência conosco aqui nos comentários.

 

Um grande abraço”

 

Débora Denise Dias Garofalo, professora da rede pública de ensino de São Paulo

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