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Educação aberta: o que é ser um professor facilitador

Para especialista do MIT, docente não precisa ser “autoridade em um assunto”, mas pode criar a expertise da experiência

POR:
Renan Simão

Se você gosta de cursos online, provavelmente já participou de projetos inspirados pelo trabalho de M. S. Vijay Kumar. O indiano é diretor-adjunto de aprendizagem digital do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, onde são desenvolvidos projetos em Educação em OpenCourseWare (OCW), um movimento de publicação de materiais liberados para fins pedagógicos. O OCW do MIT foi um dos pioneiros nesse sistema no mundo e oferece cursos traduzidos em espanhol, chinês, turco e coreano, além de inglês.

Em entrevista após palestra em Lisboa à NOVA ESCOLA, Kumar defende o conceito de Educação aberta, que independe de tecnologia para existir e incentiva o compartilhamento e adaptação de recursos educacionais entre instituições, docentes e alunos. Sobre o papel do professor na sala de aula, o consultor afirma que não é mais necessário ser um estudioso no conteúdo abordado, mas ser um expert em criar uma experiência de aprendizado”. Leia na entrevista.

NOVA ESCOLA: O que é Educação aberta?
S. VIJAY KUMAR: São recursos educacionais acessíveis e abertos. [Neste processo], baseado em feedback, você pode mudar de trajetória. É como se você fosse um arquiteto, capaz de reutilizar recursos. Em uma classe, temos materiais criativos que podem ser usados e compartilhados por outras pessoas. Quando digo que pode ser acessível, significa que deve ser tecnicamente acessível, legalmente acessível e compatível educacionalmente. Então, a Educação aberta reutiliza, reedita e redistribui [recursos educacionais]. Você compartilha recursos comigo, eu faço uma edição e sou capaz de compartilhar com outros, não só com você.

Quando penso em aprendizado aberto, significa também ter uma mente aberta. Isso implica permitir ser criticado, apreciar o feedback e revisar o meu pensamento sobre algum conteúdo específico. É ser capaz de receber e modificar [conteúdos] para obter qualidade.

Como o professor se insere neste processo?
Os professores são aqueles que criam os recursos e as experiências. Professores devem ter a capacidade de encontrar bons recursos para aquilo que os alunos devem aprender. Na web, existem muitos recursos, mas você deve ter a capacidade, como professor, de identificar o que é bom e o que é útil no que os outros criaram, e levar isso para seus alunos. O professor deve localizar esses recursos e depois não apenas usá-los, mas contextualizar para os estudantes, combinando-os com outras experiências. Também deve estar aberto a críticas e contribuições em seus materiais.

Alguns dizem que o professor deve ser um mediador na sala de aula, com os alunos tendo acesso à informação prioritariamente online. Como isso pode impactar a autoridade do professor?
O professor não é expert em todos os conteúdos. Essa é uma das novidades que mudam com a web. Professor e aluno acessam outros materiais online e os comparam [com o que é previsto em classe]. O papel do professor não é ser uma autoridade em um assunto, mas ser um facilitador de uma boa experiência de aprendizado. Ele pode ser um expert em criar essa experiência, não necessariamente em dominar o conteúdo. O que, na maioria das vezes, eles não são. Um dos valores que o professor deve apresentar aos alunos é a humildade: "Se não sei tudo, eu posso encontrar [a informação] e posso ser corrigido." E o professor pode moldar isso. Na verdade, em muitos dos nossos projetos, queremos que o professor participe do processo juntamente com o aluno, por causa da expertise que esses alunos podem ter.

Um bom professor não diz: "Não caia no chão". Diz como você pode levantar quando cair. O professor pode olhar para o aluno e corrigir essas técnicas para criar escolhas.

A maioria das escolas públicas brasileiras tem conexão à internet sem fio, mas com baixa velocidade. Como essas escolas podem se inserir na Educação aberta?
Há a possibilidade de compartilhar recursos da internet em servidores locais. No OpenCourseWare, isso acontece em locais do Haiti ou da Índia. Nesses casos, às vezes você tem operações conectadas [à internet] em que recursos são baixados online e compartilhados numa rede interna [que não precisa de internet], como em uma biblioteca. Meu ponto é que as pessoas usam muitas tecnologias. O “aberto” não quer dizer que o sistema pede alta tecnologia. É pedagogia, é política [educacional]. É sobre compartilhar os recursos e torná-los mais acessíveis.

Participo de um projeto em escolas na Índia em que as tarefas de casa devem ser feitas com ajuda da internet, mesmo a escola não tendo acesso à web. Como isso acontece? Os alunos usam a internet de um restaurante, café ou no próprio celular.

Em sua palestra, você comentou a nossa perda de atenção em uma aula expositiva após 15 minutos. O que fazer para reduzir isso?
O que fazemos em nossos cursos online é elaborar os planos de aula com produções gráficas, pequenos exercícios e práticas interligadas. Tudo isso chama a atenção. Há um gráfico sobre a curva do esquecimento: com os exercícios intercalados, conseguimos uma melhor retenção [de informação]. Quando você cria uma aula, pode considerar essas coisas na elaboração da experiência. Você faz pequenas exposições, testes frequentes. Isso leva a um bom aprendizado.

Como você disse, muitos professores procuram materiais online para melhorar suas aulas. Como esse processo pode ser feito sem afetar negativamente o conhecimento produzido num contexto local?
Acho que a mudança é ter o professor como facilitador. Dessa forma, você respeita o aluno como ele é, com tudo o que traz para a sala de aula. É importante falar de comunidade. Quando você pensa na internet, ela não é só acesso a conteúdo, mas também a comunidades. Nos cursos edX, há mais de 600 comunidades. Isso nos permite aprender de onde as comunidades são e como elas se formam.

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