Anne-Marie Chartier destaca a importância da prática para a formação de professores

Pesquisadora francesa fala sobre a natureza do professor alfabetizador e explica por que é fundamental encontrar o equilíbrio entre teoria e prática

POR:
Paula Nadal

Anne-Marie Chartier investiga a evolução das práticas e dos materiais didáticos empregados no ensino da leitura e da escrita. Os resultados de seus estudos como pesquisadora do Serviço de História da Educação do Instituto Nacional de Pesquisa Pedagógica, em Paris, lhe permitem afirmar, por exemplo, que as anotações feitas por um docente durante o trabalho, quando analisadas sistematicamente, são fundamentais para o replanejamento constante das aulas.

Essa análise somente faz sentido se houver conhecimento científico sobre a Pedagogia. Anne-Marie defende que o educador precisa saber relacionar a base teórica ao seu dia a dia para ensinar bem e alcançar bons resultados escolares. 

Nesta entrevista, ela fala também sobre como a presença feminina nas salas de aula altera, curiosamente, o ensino da leitura. E traça um paralelo entre as realidades educacionais do Brasil e da França, com destaque para mudanças recentes no sistema francês de formação inicial dos professores.

Um professor é capaz de alfabetizar somente com base na experiência adquirida em sala de aula?
ANNE-MARIE CHARTIER
Durante o século 20, os professores formados em escolas normais ensinaram milhões de crianças a ler e a escrever apenas com base nos chamados saberes de ação, adquiridos primeiro em estágios nas escolas de aplicação anexas às escolas normais e, em seguida, pela interação com seus pares - uma estratégia eficiente ainda hoje. Eles não tinham conhecimentos teóricos da Linguística, da Psicologia, da Sociologia ou da Didática. Hoje, é indispensável dominar esses conteúdos. Por meio deles, os professores adquirem a capacidade de análise que lhes permite discutir a própria ação. Dessa forma, eles podem tirar proveito dos materiais escritos por outros professores e das pesquisas na área para formar, de fato, verdadeiros usuários da leitura e da escrita.

Qual a diferença entre saberes científicos e saberes da ação?
ANNE-MARIE
Para se formar e poder exercer bem a sua profissão, um médico precisa dominar os saberes científicos, obtidos no curso universitário, e os saberes da ação, aprendidos durante o trabalho em hospitais. Ali, ele compartilha com médicos e enfermeiros o atendimento a pacientes. Se ele tiver somente o saber científico, pode até se tornar um bom conhecedor da medicina, mas jamais será um bom médico. Com os professores, ocorre situação semelhante. Ou seja, sem a prática, o educador não será eficiente em sala de aula.

É a combinação desses saberes que ajuda a elevar os resultados escolares das crianças?
ANNE-MARIE
Sim. Mas, antes de tudo, é preciso distinguir resultados de avaliações padronizadas, como o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) e a Prova Brasil, e resultados obtidos por meio da prática em sala, com a equipe docente da escola. Os primeiros servem para que o governo conduza as políticas públicas. E são, naturalmente, indutores curriculares. Os professores podem, assim, situar a escola em relação à média. E é importante ressaltar que as secretarias precisam ficar atentas também aos conteúdos não contemplados nesse tipo de prova. Avaliações de sistema, porém, não dizem ao professor como fazer as escolhas pedagógicas mais urgentes. Isso só se consegue por meio de um acompanhamento atento das crianças e de seus progressos e suas dificuldades. É nesse ponto que saberes científicos e saberes de ação trabalham juntos pela aprendizagem.

Como deve ser feito o acompanhamento das crianças?
ANNE-MARIE
Peça a um iniciante que escreva sobre sua prática e selecione as ações que considera mais importantes. Ao se expressar, ele se torna consciente de sua evolução. No caso dos professores mais experientes, essa autoanálise é muitas vezes uma forma de dar um passo atrás para reparar hábitos inconscientes, já incorporados à rotina. Além disso, na vida cotidiana da classe, produzimos muitas escritas que, se capitalizadas, viram suporte para a memória e para o replanejamento. Refiro-me ao planejamento da semana, aos registros individuais com os resultados dos alunos, às anotações nos boletins, às tabelas de progressão, às fotos ou aos textos fixados na sala. Esses documentos são aparentemente incompletos e díspares. Mas, quando analisadas de maneira sistemática, as escritas do professor revelam precisamente a situação dos alunos. Mostram o que eles aprenderam e o que ainda precisam aprender. Sempre encorajo os professores a não jogar fora esses registros, mesmo os escritos em estilo telegráfico. O computador também pode ajudar a organizar esses arquivos.

Como um professor alfabetizador deve atualizar suas competências?
ANNE-MARIE
As competências escolares se formam ao longo da história, o que não significa que elas mudam a cada ano letivo. É preciso compreender de que maneira elas afetam o ensino e entender até que ponto aquilo que orientava professores de uma geração continua útil ou não para a geração seguinte. As escritas de caligrafia, por exemplo, foram essenciais nos tempos da correspondência manuscrita. Ler em voz alta, por sua vez, era uma prática social generalizada quando os idosos ainda liam mal ou não havia óculos. Hoje, é evidente que as tecnologias digitais estão provocando transformações no processo de leitura e escrita. Mas essas práticas que mencionei vão coexistir e é necessário continuar o que sabemos fazer bem: ler em voz alta, por exemplo, é e será sempre muito útil para introduzir a literatura no universo infantil. Em última instância, o que visamos é a leitura autônoma, silenciosa, que permite pesquisar informações de todos os gêneros que estejam armazenadas em qualquer base de dados.

Como um docente pode despertar no aluno o desejo de saber ler?
ANNE-MARIE
Costuma-se dizer que é preciso "dar" o desejo de ler às crianças, como se isso fosse possível. O desejo se constrói, se conduz, talvez. O que se pode dar são bons exemplos do encanto que a leitura pode causar nas pessoas. A sociabilidade da leitura atrai os pequenos. Com ela, as crianças aprendem a aceitar as diferenças ao notar que nem todos apreciam as mesmas coisas.

Qual a importância dos textos informativos na alfabetização inicial?
ANNE-MARIE
Até o século 19, mostravam-se apenas livros de imagens para as crianças. Nas últimas décadas, se compreendeu que é importante ler histórias de ficção desde os primeiros anos de escolarização. Na França, porém, houve um excesso desse imaginário devido à presença de uma cultura feminina nas salas de aula, que torna onipresente o modelo de contar histórias. Faltam hoje as práticas de leitura informativa. E já há bons livros de introdução à Ciência.

Quer dizer que as mulheres interferem no ensino da leitura diferentemente dos homens?
ANNE-MARIE
Há um poder exagerado da cultura feminina na escola. A maioria das histórias contadas na Educação Infantil é ficcional. Os livros que contam histórias realistas ou documentais são praticamente deixados de lado. O caminho é alcançar um equilíbrio. E isso só se faz incluindo livros desse tipo desde a Educação Infantil, sobretudo hoje, quando a dimensão da formação científica - com a internet e a televisão - é tão evidente. Os meninos adorariam ler sobre como funciona um trator ou como um vulcão entra em erupção. E eu tenho certeza de que as meninas também.

Que influência os materiais didáticos exercem sobre a atuação dos professores em sala?
ANNE-MARIE
Todos os materiais didáticos são bons indicadores do desenvolvimento escolar. A penetração dos cadernos nas escolas no século 19 ou a introdução da calculadora nas aulas de Matemática no século 20 são exemplos da maneira como a Educação se vale dos materiais disponíveis na sociedade. Hoje, por exemplo, uma das grandes questões diz respeito ao uso das tecnologias em sala de aula. Primeiro, é preciso pensar o que isso provoca na escola porque os computadores podem causar uma grande revolução na maneira de ensinar e aprender a ler e a escrever. 

E os livros didáticos? Como devemos escolhê-los?
ANNE-MARIE
Eles devem satisfazer a duas exigências contraditórias: ser fácil de usar, tanto para o professor como para o aluno, e não reduzir a aprendizagem a baterias de exercícios padronizados que forçam um caminho predeterminado. É por isso que alguns professores ainda preferem livros antigos, que eles conhecem bem. De qualquer forma, não se pode esperar de um livro mais do que ele pode oferecer. Ele é apenas um dos recursos disponíveis.

A formação inicial de professores na França está passando por mudanças. Quais são elas?
ANNE-MARIE
O sistema todo está mudando. Até o ano passado, os professores de Educação Infantil e das séries iniciais do Ensino Fundamental eram selecionados entre os que possuíam diploma universitário, em qualquer especialidade. Nos Institutos Universitários de Formação de Professores, preparavam-se concursos regionais com provas escritas para avaliar os conhecimentos dos candidatos em Francês e em Matemática. Aqueles que eram aprovados na primeira etapa passavam por um exame oral sobre as demais disciplinas, os fundamentos pedagógicos e outras questões postas em debate - como o fracasso escolar, a leitura e as políticas públicas. Os aprovados ingressavam no instituto como estagiários e trabalhavam em várias escolas - incluindo um período obrigatório de estágio no ciclo de alfabetização. A reforma em curso vai eliminar aos poucos esses institutos e é a universidade que vai suportar a formação inicial. A parte acadêmica deve aumentar e os estágios supervisionados certamente terão sua carga horária reduzida, senão suprimida.

Isso é bom ou ruim?
ANNE-MARIE
Na minha opinião, é grave. Mas há dois fatores importantes a considerar. Hoje, para ser professor em qualquer segmento na França, passou-se a exigir mestrado. Isso diz respeito à legitimidade social do papel do educador. Para ensinar, o professor deve ter o nível mais elevado de qualificação entre todas as camadas da população. E o nível de escolarização geral na França está aumentando. Portanto, a escolarização dos professores também deve aumentar. O segundo ponto é a formação continuada. Além de deter o conhecimento difundido nas universidades, é preciso saber como levá-los para a prática. A formação profissional exige essa troca diária de informações. E isso começa nos estágios. A prática, portanto, é fundamental. A dimensão do trabalho na escola só pode ser avaliada com os colegas e os alunos.

Que diferenças é possível observar entre a formação inicial na França e no Brasil?
ANNE-MARIE
A diferença não está na formação, mas nos meios que dão acesso a ela. No Brasil, muitos dos que visam a licenciatura em Pedagogia não querem mais que um diploma - e algumas universidades privadas fazem comércio desse tipo de certificação. Na França, esse fenômeno não existe e os concursos para ingresso no Ensino Superior são muito seletivos. Inversamente, e reconhecidos os desafios educacionais que os brasileiros têm pela frente, a condição tem melhorado muito desde a minha primeira viagem ao país, há 25 anos. Talvez seja por isso que eu encontre mais entusiasmo aqui do que na França, onde os professores vivem hoje inquietos em relação ao futuro. Quando venho ao Brasil, recupero meu otimismo!

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