NOVA ESCOLA promove encontro entre Emilia Ferreiro e Telma Weisz

Reunidas, duas das maiores especialistas em alfabetização conversam sobre ensinar a ler e escrever

POR:
Denise Pellegrini, NOVA ESCOLA, Beatriz Vichessi
NOVA ESCOLA promove encontro entre Emilia Ferreiro e Telma Weisz. Foto: Patricia Stavis
Telma Weisz (à esq.) Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), foi orientada por Emilia Ferreiro. É supervisora pedagógica do Programa Ler e Escrever da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo.

Emilia Ferreiro Psicolinguista argentina radicada no México, tem sete doutorados honoris causa. É pesquisadora emérita do Sistema Nacional de Investigadores do México (Cinvestav, em espanhol).

Há décadas se sabe que as crianças pensam sobre a escrita e querem descobrir para que ela serve e como funciona. Não pedem permissão para aprender: têm ideias sobre esse objeto de conhecimento que não foram ensinadas pela escola. Compreender o processo de aquisição da escrita pelos pequenos é fundamental e tornou-se possível com a divulgação de pesquisas de Emilia Ferreiro, referência mundial em alfabetização.

Durante cerca de uma hora e meia, Emilia conversou sobre o assunto com Telma Weisz, a convite de NOVA ESCOLA, que transmitiu o evento acompanhado em tempo real por cerca de 5 mil educadores. Entre os temas abordados estão a importância da Educação Infantil para inserir a criançada no mundo da escrita, a formação de escritores (e não apenas de leitores) e as transformações das práticas de leitura e escrita em meios digitais. Leia, a seguir, os principais trechos.

TELMA WEISZ Há, no Brasil, a ideia de que qualquer trabalho com a leitura e a escrita na Educação Infantil é uma antecipação do Ensino Fundamental. O que os pequenos podem aprender na pré-escola sobre leitura e escrita?

EMILIA FERREIRO Nessa fase, se dá a introdução à cultura escrita. Parece-nos normal comprar livros de histórias para uma criança que não sabe ler e ler para ela em voz alta. Muitas vezes, a colocamos no colo e a abraçamos, juntamente com o livro. Nesse abraço afetuoso, lhe damos acesso ao mistério. Porque a leitura em voz alta é um ato de mistério. Se a Educação Infantil vai permitir experiências fundamentais como essa, então, bem-vinda seja a introdução à cultura escrita, que para qualquer pessoa alfabetizada, de classe média, parece normal e natural. Isso possibilita à criança entender para que se lê e para que se escreve; que se queremos lembrar de algo podemos anotar; e que lendo obtemos informações que não tínhamos antes - sejam relevantes ou ocasionais. Permitir aos pequenos entender as funções da língua escrita não é antecipar o Ensino Fundamental, é contribuir para que eles ingressem nas práticas sociais pertinentes para a escrita. Nesse sentido, um dos elementos didáticos mais importantes na Educação Infantil são as bibliotecas de sala, das quais sou uma defensora convicta. Pude constatar, no México, o impacto enorme que elas têm nas turmas de 4 e 5 anos.

TELMA WEISZ Você falou da entrada no mundo da escrita pela leitura, mas uma questão importante, do meu ponto de vista, para as crianças da Educação Infantil é a possibilidade de escrever conforme suas ideias.

EMILIA FERREIRO Concordo plenamente. Estamos acostumados a oferecer cadernos, lápis e canetas e a estimulá-las a desenhar. E quando fazem uma coisa redonda, com alguns pontos dentro e umas linhas retas que saem dessa bola dizemos: "Já começou a desenhar. É uma figura humana!". Vemos com olhos positivos essa produção que, de outro ponto, poderia ser considerada feia, ruim. Quando dessas linhas retas saem outras, dizemos: "Já colocou dedos, olhos, cabelos". Ficamos fascinados diante da produção e não pensamos que ela pode começar a escrever. Se as letras não são convencionais, dizemos: "Melhor que não escreva". Aprender a escrever não é um processo idêntico, mas é parecido com aprender a falar. Se nos dissessem para não falar até pronunciarmos corretamente todos os sons, seríamos todos mudos. Faz sentido dizer que se aprende a ler lendo e que se aprende a escrever escrevendo, na medida em que enxergamos isso como um processo. Há uma maneira de escrever aos 3, 4 e 5 anos como há uma maneira de falar aos 3, 4 e 5 anos. Para a fala, não exigimos perfeição desde o início, mas fazemos isso com a escrita.

TELMA WEISZ No Brasil, existe a dúvida se há ou não idade certa para alfabetizar. Qual sua opinião?

EMILIA FERREIRO Essa é uma questão que tem a ver com decisões do país, das quais não estou informada. Mas considerando a pergunta em termos gerais, a alfabetização é um processo que pode ter início muito cedo quando são dadas oportunidades. Se ninguém escreve e lê no entorno dos pequenos e se não há livros, eles não têm condições de dar os primeiros passos na cultura escrita. Lembro-me de uma frase que escrevi: "As crianças têm o péssimo hábito de não pedir permissão para começar a aprender". Sabemos que ninguém espera ter 6 anos e uma professora à frente para começar a aprender. Os alunos chegam à escola sabendo coisas, falta reconhecer isso. Mas é válido dizer que muitos países latino-americanos, mesmo enfrentando situações de fracasso escolar, têm conseguido, em parte, reverter o quadro.

TELMA WEISZ De fato, em alguns lugares, os avanços foram grandes. Na rede estadual de São Paulo, por exemplo, com o Programa Ler e Escrever, 95% dos estudantes de 8 anos escrevem alfabeticamente e leem com autonomia. Com a entrada dos alunos no Ensino Fundamental aos 6 anos, a rede se propõe a alcançar esse índice com crianças de 7 anos. Outro dado relevante é que 10% já sabem ler quando chegam à escola. Em todas as instituições, até em regiões pobres, temos mais ou menos esse número. Devem ser feitos estudos a respeito para que os professores saibam disso.

EMILIA FERREIRO Sobre os 5% que ainda não conseguem escrever alfabeticamente e ler com autonomia você não disse que eles têm alguma patologia e não o fez pois se baseou na ideia de que todos podem aprender. O fracasso escolar não é questão de patologias nem de falta de estímulo em casa. É fácil atribuir o problema a fatores externos. Ao começar uma experiência, não devemos classificar os alunos no primeiro, segundo, terceiro dia de aula - o que vai aprender, o que vai mais ou menos e o que certamente não vai -, assim estaremos contribuindo para o fracasso escolar. Também vale considerar que os resultados em Educação vêm a longo prazo.

TELMA WEISZ O nome de seu novo livro é O Ingresso na Escrita e nas Culturas do Escrito (488 págs., Ed. Cortez, tel. 11-3611-9616, 65 reais). O que quer dizer com esse título e como ele se relaciona com a ideia de separar alfabetização e letramento?

EMILIA FERREIRO O título está centrado nas culturas do escrito, no plural, para recordar que a escrita é um produto histórico de culturas urbanas. Quando se leva a sério sua história, vemos que ela não é só um instrumento, como a colher ou a roda. É muito mais: um objeto cultural permeado por valores, a maneira de representar a língua oral que certas culturas fabricaram e transmitiram. O segundo capítulo fala da chegada às escolas europeias de milhares de imigrantes, que não falavam a língua do país e, em muitos casos de países árabes, com um sistema de escrita diferente. O que fazer com essas crianças? As melhores educadoras europeias disseram não estar preparadas. Mas aprenderam a lidar com a questão até chegar a experiências fantásticas, em que a diversidade de línguas e de escritas foi utilizada didaticamente. No norte de Itália, alunos de 4 e 5 anos têm nas bibliotecas de sala livros em diferentes línguas e sistemas de escrita, e refletem sobre eles. Sobre alfabetização e letramento, considero que essas terminologias dissociam o código dos usos e funções sociais da escrita. Ela é um sistema de representação da linguagem e está mal caracterizada quando se pensa que é um código de transcrição da fala, e a questão não se resolve dizendo que há que se alfabetizar letrando e letrar alfabetizando. Uma vez gerados dois termos, é como se passassem a existir duas maneiras distintas de abordar esses componentes. Isso contribui para considerar novamente a escrita como um código.

TELMA WEISZ Muita gente está falando em alfabetização digital. O que você pensa disso?

EMILIA FERREIRO Não gosto dessa expressão pois creio que a alfabetização no século 21 inclui todos os objetos em que circulam imagens e textos. No passado, o quadro negro era o suporte principal da escrita. Depois, foi preciso incluir outros objetos, como os livros de estudo. É necessário introduzir os alunos em uma cultura escrita que tem como principal característica a variedade de superfícies sobre as quais se realizam as escritas, incluindo todos os procedimentos digitais que conhecemos hoje e os que virão. Atualmente, existem cláusulas inconcebíveis em contratos, como a que diz "esta obra pode ser reproduzida em qualquer tipo de superfície que conhecemos ou vamos conhecer...". Ninguém sabe o que virá pela frente, mas temos de estar preparados para mudanças.

TELMA WEISZ O computador disponibiliza muitos recursos para a escrita e uma infinidade de tipografias.

EMILIA FERREIRO Exatamente, nada disso existia no passado. Eram recursos da imprensa e hoje são acessíveis para qualquer pessoa. Quantas crianças mandam mensagens de texto pelo celular e não digitam com os dedos que tradicionalmente eram usados para escrever? Elas recorrem aos polegares, que não eram particularmente interessantes para produzir letras. Agora também se escreve com as duas mãos, não só com uma. Há algumas discussões que envelheceram, como a relacionada ao ensino da letra cursiva. Em qualquer processador de textos se pode escolher a opção cursiva ou a gótica, por exemplo, ou mesmo usar caracteres maiúsculos.

TELMA WEISZ Com frequência, somos questionadas sobre consciência fonológica. Poderíamos conversar um pouco sobre a produção da escrita e a consciência fonológica, que é uma questão centrada no oral?

EMILIA FERREIRO Há muita segmentação na oralidade: é possível segmentar em palavras, em grupos sintáticos, em sílabas e, eventualmente, em fonemas, que são impossíveis de serem fragmentados em átomos de fala. Mas para que segmentar a fala? A segmentação até a unidade da sílaba pode ter funções comunicativas e não precisa ser ensinada. Por exemplo, quando uma criança pede chocolate à mãe que está longe, grita: "cho-co-la-te", separando as sílabas. Isso também aparece em jogos e brincadeiras orais com músicas, rimas etc. Os fonemas só servem para escrever alfabeticamente. E requerem uma análise própria porque muitos não podem ser ditos isoladamente. As vogais, sim, podem ser pronunciadas sozinhas, mas as consoantes são outro problema. A grande discussão é se a segmentação em fonemas, supondo que há realmente a possibilidade de isolar todos os sons das consoantes, tem de anteceder a introdução à língua escrita, se tem que ser um pré- requisito...

TELMA WEISZ Isso parece um retorno à ideia de prontidão. Durante anos, alunos foram sacrificados, jamais se leu para eles. Ficavam com a sensação de que escrever era um puro exercício motor e não aprendiam, aumentando índices de repetência.

EMILIA FERREIRO A discussão sobre pedir que os pequenos recortem os sons antes de aprender a ler e escrever é perigosa, um regresso à ideia de pré-requisitos. Por outro lado, pesquisas mostram uma estreita relação entre a evolução da escrita das crianças e a possibilidade de recorte oral. A escrita é uma atividade extremamente analítica. Escrever é colocar uma letra depois de outra e outra, o que leva o aluno a relacionar essa sequência à sequência de sons da fala. Esse trabalho de recorte da fala ajuda a pensar que letras usar e em que ordem. Então, não me parece estranha a relação entre o progresso da escrita na criança e o progresso da capacidade de compreender segmentos pequenos da fala. O recorte em fonemas serve somente para refletir sobre a escrita. Não entendo por que dissociá-lo das atividades de produção escrita.

Este texto é resultado de edição de trechos do diálogo entre Emilia Ferreiro e Telma Weisz.

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