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01 de Dezembro de 2017 Imprimir
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Educadora do Ano de 2017 sofre atentado (e a Educação indígena também)

Para os indígenas, o direito à terra - possível motivo do ataque - é parte essencial da cultura

Por: Paula Peres
A professora Elisângela e seus alunos mostram o material que desenvolveram para a alfabetização em paiter-suruí (Thiago Flor)

A professora Elisângela Dell-Armelina Suruí, eleita Educadora do Ano no Prêmio Educador Nota 10 de 2017, sofreu uma tentativa de homicídio na madrugada desta quinta-feira (30) em Cacoal, Rondônia. De acordo com informações do G1, o atentado aconteceu quando ela e seu marido Naraymi Suruí, cacique de sua aldeia, voltavam de moto para a Aldeia Paiter Suruí.

Elisângela, seu esposo e seu cunhado voltavam de moto para a aldeia quando foram seguidos por dois homens, também de moto. A dupla parou lado a lado com a moto do casal e deu diversos tiros em sua direção.

Quando deram o primeiro tiro a gente caiu e ficou por trás da moto e eles continuaram atirando. Quando estavam descendo do veículo para ir em nossa direção, o cunhado de meu marido, que estava para trás, se aproximou e eles se assustaram e correram”, contou Elisângela à reportagem do G1.

Apesar do ataque, o casal não se feriu e está sob proteção da Fundação Nacional do Índio (Funai) no momento, de acordo com a coordenadora de Educação escolar indígena de Cacoal.

PROJETO VENCEDOR: Eles produziram o próprio material de alfabetização

O caso ainda está sob investigação, mas desconfia-se que tenha sido uma retaliação de madeireiros da região, que estavam derrubando ilegalmente árvores castanheiras na terra indígena Sete de Setembro e foram expulsos. “A família da professora viu os madeireiros tirando as toras de castanheira da mata com um caminhão e foi tirar satisfação, brigar. Por isso seu marido foi ameaçado”, afirma Luiz Suruí, professor de Cacoal que também foi premiado no Educador Nota 10, mas em 2016.

Segundo o professor, tais atentados eram frequentes há 15 anos. “Já mataram um índio que foi reclamar com um madeireiro que estava roubando as toras de madeira. Ficou por isso mesmo, nunca resolveram”, conta.

A importância da terra no ensino

Luiz é da mesma etnia que a professora Elisângela, mas de aldeia diferente. Ele conta que o problema com a extração ilegal de madeira é complexo. Há, inclusive, muitos indígenas que apoiam a extração em troca de dinheiro. “Tem alguns que entendem que terra é cultura, é identidade, mas outros índios não entendem que não ganham tanto com as atividades ilegais quanto os madeireiros, eles só servem de intermediários do que é extraído da sua própria terra”.

Escola indígena em São João Missões (Marcelo Sant'Anna / Imprensa MG)

Para ele, a questão está diretamente ligada com a Educação indígena. “Isso afeta muito as escolas, porque nós trabalhamos com os alunos a questão de sustentabilidade e da nossa cultura, então, quando questionamos os trabalhos ilegais, somos perseguidos”, revela. "Os professores indígenas são muito enfáticos em dizer que não se separa a Educação das demais questões existenciais: cultura, terra, identidade, tudo isso é um caldo só que está articulado", explica André Lázaro, pesquisador de políticas públicas e professor de comunicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e ex-secretário de Educação continuada, alfabetização e diversidade do MEC.

LEIA MAIS: Como os conflitos entre indígenas e ruralistas afetam a Educação

Não à toa, Luiz foi mais visado depois que ganhou o prêmio, e acredita que o mesmo esteja acontecendo com Elisângela. “Quando recebi o prêmio, teve gente que reconheceu meu trabalho, mas também teve quem deu meu nome para ser mais um alvo, dizendo que eu já estava ganhando dinheiro, então não tinha que impedir o sustento dos outros. Eles não entendem que podiam permitir que seus filhos seguissem meu exemplo.”

O momento, segundo Luiz, é de silêncio. “Eu não posso chegar brigando, senão sou ameaçado. Então tento trabalhar com esse medo, de uma forma que não deixa claro que sou contra nem que sou a favor”, lamenta.

Procurados por NOVA ESCOLA, o escritório da Funai em Cacoal e a Polícia Federal de Ji-Paraná não retornaram o contato. A reportagem também tentou conversar com a professora Elisângela, mas ela encontrava-se sob proteção da Funai.

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