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Reportagens | INDISCIPLINA | Reportagens


Por: Rodrigo Ratier, Almir Teixeira e Patrick Cassimiro

"Vou avisar: eu bagunço mesmo!”

Três educadores contam como conseguiram se aproximar de estudantes que antes desafiavam os limites - e a paciência

Quando soube que daria aula para a turma E2, do 5º ano, a professora Maria Itália Malagutti já conhecia a má fama da classe. "Impossíveis", "caso perdido" e "um bando de delinquentes" foram algumas das descrições usadas pelos colegas da EMEF Santa Helena, em Goiânia, ao prepará-la para a missão. E o primeiro contato fez jus aos temores: "Vou avisar: eu bagunço mesmo!", gritou um aluno, em tom desafiador, lá do fundo da classe. "Eu só venho para a escola porque minha mãe me obriga!"

O autor da ameaça era Clayson Pereira de Oliveira, então com 10 anos. Na sala dos professores, era descrito como "problemático" e "violento". Não sabia ler nem escrever e, para quem já tinha trabalhado com ele, não conseguiria melhorar.

Maria Itália ousou contrariar o diagnóstico. "Respondi ao Clayson que ele nem sabia quem eu era. Falei que a gente precisava se conhecer", relata. O passo seguinte foi convidá-lo para se sentar perto dela. Ele topou. "Aos poucos, ele percebeu que ficava mais fácil de acompanhar se ficasse sempre na frente. Melhorou quando comecei a passar atividades diferentes das da turma para que ele avançasse. Disse a ele que não desse bola quando alguém tirasse sarro."

Com a proximidade, Maria Itália ficou sabendo que um dos motivos da revolta do menino foi ter presenciado o assassinato do pai. Com a morte, ele passou quatro meses na rua, em 2016. Ficou sabendo também de algumas motivações positivas: Clayson gostava muito de jogar bola e queria participar de uma peneira de jogadores numa escolinha de futebol da região.

O problema, do ponto de vista do menino, é que as notas no boletim também eram um critério de seleção. Aí, o jogo virou de vez: o menino se comprometeu e passou a se dedicar não só em Língua Portuguesa mas também nas outras disciplinas. O objetivo imediato - ser escolhido pela escolinha - foi atingido. Mas o golaço foi uma mudança permanente de comportamento.

A história de Clayson é um exemplo dos conflitos que todo professor enfrenta. As experiências de dois outros educadores, destacadas nos quadros das próximas páginas, também trazem casos de alunos desafiadores. São aqueles que, por uma razão ou outra, parecem estar em sala só para provocar, nos levam ao limite da paciência e muitas vezes nos fazem jogar a toalha.

A primeira constatação é que as desavenças estão no cotidiano das aulas. "Respeitar o igual, que está em casa, é fácil. Difícil é respeitar o diferente, que a gente encontra na escola", argumenta a pedagoga Catarina Gonçalves, professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Procurando entender a história de vida de Clayson, Maria Itália venceu a indisciplina

O lado positivo, explica Catarina, é que a sala de aula é um espaço privilegiado para enfrentar conflitos. "É impossível acabar com os problemas de convivência, mas é possível diminuir seus impactos", explica. "Atitudes que no passado eram consideradas ruins - conversas em sala, por exemplo -, fazem parte do processo de aprendizagem", completa a psicóloga e pedagoga Luciana Lapa, do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem), da Unesp e da Unicamp.

Para cada problema, uma conduta

Transformar o conflito em oportunidade foi a rota de Maria Itália, que reuniu em seu trabalh um conjunto de boas práticas recomendadas por quem estuda o assunto.

Tudo começa na observação atenta dos aspectos mais complicados na postura dos "impossíveis". Cada uma requer uma intervenção diferente. A seguir, listamos os principais problemas e os passos iniciais para enfrentá-los. As informações foram validadas por Telma Vinha, professora de Psicologia Educacional da Faculdade de Educação da Unicamp e colunista de GESTÃO ESCOLAR.

  • Transgressão É a desobediência a regras, como jogar papel molhado no teto do banheiro.

O que fazer A turma precisa ver sentido nas normas e a melhor forma de fazer isso é construí-las coletivamente. Crie assembleias ou rodas e diálogo com periodicidade para que os alunos possam discutir os problemas, elaborar regras e debater a necessidade delas. Quando um aluno transgredir, converse em particular sobre o motivo da desobediência. Mostre que a regra garante a convivência justa e respeitosa.

Se precisar... Empregue a sanção por reciprocidade. Por exemplo: limpar o banheiro, que é uma reparação ao dano causado.

  • Indisciplina São ações que causam desordem nas relações pedagógicas e interferem na aprendizagem, como conversa paralela excessiva ou o desinteresse dos alunos.

O que fazer Se você estiver convicto de que houve indisciplina - debater o conteúdo com colegas, por exemplo, faz parte da aprendizagem em sala -, descreva a situação e suas consequências: "Quando vocês conversam em tom alto durante o debate, não consigo dar aula e vocês não conseguem aprender". Pergunte a eles como se sentem e peça uma solução. Ouça as sugestões e aplique o que for combinado.

  • Desinteresse ou apatia A recusa em participar de atividades não pode ser tratada como desrespeito à autoridade.

O que fazer Tente descobrir a causa. Se é coletiva, reveja o trabalho pedagógico - o que você ensina e a forma como o faz. Na apatia individual, entenda se o aluno está, de fato, compreendendo. Qual a dificuldade? Que estratégias ele usa para tentar resolver os problemas? Exercícios específicos, como os que Maria Itália preparou para Clayson, costumam ser efetivos.

O diretor Pedro: violência vencida num ambiente em que todos podem falar

Alunos contra uma brincadeira violenta

Arriar as calças dos colegas foi a violenta brincadeira inventada pelos alunos da EMEF Professor Carlos Corrêa Mascaro, no Jardim da Conquista, na Zona Leste de São Paulo. Descontentes, os próprios estudantes fizeram uma assembleia, chamando também os professores. "A gente falou bastante, mostrando que se sentia constrangida e que aquilo estava atrapalhando a escola", conta Isabella Barros Santos, 14 anos. Nas semanas seguintes, nenhuma calça foi arrancada. A escola vive um processo de democratização há seis anos. "Quando eu comecei, encontrei um grupo de professores muito bons, que queriam uma escola diferente e não tinham espaço", conta Pedro Mota Pereira (foto), atual diretor. O prédio sofria invasões e vandalismo. Mas o Mascaro foi se transformando. Estabeleceu assembleias como espaços de resolução de conflitos. E trouxe os pais e a comunidade para o processo de tomada de decisão.

 

Com um tom mais brando, a professora Luciane conquistou a confiança de Alane

 

A comunicação que aproxima e faz aprender

Quem vê a foto à esquerda enxerga duas amigas. Mas, durante todo o ano de 2016, Alane Shayene Ferreira Silva, então no 8º ano da EEEFM Marilda de Oliveira, em Montes Claros (MG), odiava a professora Luciane da Mota. Para a docente, o sentimento era de frustração. "Ela não assistia às aulas, não tinha interesse... Brigava, revidava e não obedecia." Faltava comunicação, que passou a ocorrer quando a escola desenvolveu um projeto para enfrentar a violência e a evasão escolar. Luciane percebeu a necessidade de abrandar o tom. Alane confirma: "Ela perguntava o que eu estava usando no cabelo, que batom era aquele. Conversando, fomos ficando próximas. Na sala de aula, ela passou a explicar o conteúdo com mais cuidado", diz. O resultado é uma aluna que estuda, está menos agressiva e adora Cecília Meireles, escritora que conheceu nas aulas de Luciane.

 

  • Incivilidade São as pequenas agressões cotidianas que ferem o que é esperado da boa conduta social, como gritos, ofensas e provocações.

O que fazer É importante mostrar que você não concorda com essas ações quando afetam a qualidade da convivência, mesmo quando parecem brincadeiras e são compreendidas como normais pelos alunos. Você pode levantar as incivilidades mais frequentes e planejar intervenções. Por exemplo, quando o aluno interrompe uma fala, você solicita que aguarde a conclusão para colocar a ideia.

Se precisar... Aproxime-se e pouse a mão sobre o ombro do aluno, solicitando que aguarde. Se o aluno monopolizá-lo com perguntas, peça que anote as dúvidas para esclarecê-las individualmente em outro momento.

  • Agressão. É intolerável. Quando estoura uma briga, é preciso interrompê-la na hora.

O que fazer Em seguida, é momento de considerar a mediação para substituir ações agressivas pelo diálogo. Muitas vezes, o ideal é esperar até que os envolvidos esfriem a cabeça e possam refletir sobre o que ocorreu. Ouça cada um separadamente. Depois, convide-os a participar de uma mediação. A técnica é levar os envolvidos a pensar: "Por que aconteceu a violência? Quais sentimentos a geraram? Havia outra maneira de resolver a questão? Como procederão de agora em diante?". Em seguida, os participantes precisam dialogar e chegar a um acordo. É necessário prever uma nova reunião depois de alguns dias para acompanhar se o combinado está mesmo sendo cumprido.

O que fazer "O agressor precisa reconhecer o dano e concordar em repará-lo, e a vítima precisa perceber a tentativa de fazer justiça", escreve. O bullying só acontece quando o alvo concorda com uma imagem inferiorizada. É preciso empoderá-lo, incentivando sua indignação para superar essa relação. Já os autores devem ser levados à empatia com quem sofre violência. Os espectadores, por sua vez, precisam de estímulos para se posicionar contra a agressão.

Última dica: envolva a coordenação para auxiliar na resolução dos problemas. Juntos, vocês podem criar fichas de observação dos alunos mais "difíceis". Essas fichas podem ter perguntas como: Houve momentos perturbadores? Qual era a proposta de atividade ou metodologia quando o comportamento surgiu? O que causou? Como se manifestou? Quem foi atingido? Qual a intervenção do professor? Qual a reação do aluno?

Com base num diagnóstico mais preciso, vocês podem planejar melhor a atuação. Por exemplo, se tais comportamentos ocorrem quando determinado aluno se sente pressionado ou entediado, pode-se atuar de forma a diminuir tais fatores. A ideia é: juntos, vamos ajudar. Dá para fazer mais do que o possível com os alunos impossíveis.

Fotos: RAPHAELA BOGHI, MARIANA PEKIN E NETO MACEDO