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Seções | MUDANÇA DE HÁBITO | Artigo


Por: NOVA ESCOLA

Por que teoria e prática são inseparáveis na formação do professor

A reflexão constante sobre o que fazemos é o jeito mais eficaz de aprimorar nosso trabalho.

Alunos se preparam para aula na Universidade de São Paulo (Tânia Rego / Agência Brasil)

Aos 21 anos, comecei a dar aulas num curso de redação comunitário para o vestibular. Ensinava como havia aprendido: falando muito, puxando lousa atrás de lousa numa sala enfileirada. A evasão foi grande. Iniciei o curso com 13 alunos e terminei, se não me engano, com seis.

Intuí que precisava mudar. Encontrei o ponto de inflexão em Pedagogia da Autonomia, último livro que Paulo Freire publicou em vida. A obra traz exemplos concretos, mas é essencialmente filosófica. Percebi que havia uma outra forma - hoje sei que há muitas outras - para ensinar. E que, dependendo do propósito de cada aula e da relação que se estabelece com os estudantes, a Educação podia ser mais potente.

Procurei trazer temas da atualidade e entender os interesses dos alunos. Compreendi que eu ajudaria mais orientando e dimensionando os desafios que eles deveriam superar. O que, aliás, não é pouca coisa: exige um trabalho de planejamento muito maior do que apresentar uma aula já roteirizada, com material estruturado.

Os resultados apareceram nas turmas seguintes. Quase nada de evasão, maior engajamento. Anos depois, aprofundamos a ideia de educar para a autonomia: o curso deixou de ser "para o vestibular" e virou "para a cidadania". Passamos a enxergar a leitura e a escrita como formas de melhorar a vida dos estudantes, enfatizando o uso social da linguagem. Nossas aulas passaram a focalizar a análise de acontecimentos, a expressão de opiniões e a reivindicação de direitos.

Conto essa história porque já virou lugar comum dizer que a formação de professores no Brasil é muito teórica. Disciplinas como Sociologia, História, Psicologia e Filosofia da Educação são desprezadas por estarem "roubando" o tempo que deveria ser dedicado à prática. Entendo de onde vem a queixa: falta espaço para as didáticas específicas (que apenas à primeira vista são "práticas": sem teoria, elas não se sustentam). Mas a saída não é eliminar as matérias conceituais da Pedagogia. Considero a teoria fundamental. Ao menos um tipo dela: a que está a serviço da prática, que funciona como ferramenta de trabalho.

Não estou defendendo aquilo que no bom humor popular a gente chama de "viajar na maionese". Ok, confesso que gosto de viajar e gosto de maionese: tenho uma quedinha pela reflexão teórica pura (acho um lindo exercício intelectual). Mas reconheço que ela, muitas vezes, não é tão útil à formação docente. Só que o reverso da moeda - a prática sem teoria - é tão desprovido de sentido quanto a teoria sem a prática. Ensinar é muito mais do que atuar na base da imitação, da tentativa e erro ou da mera adaptação de exemplos consagrados. Quando a teoria nasce da prática e retorna a ela constantemente, entendemos as bases conceituais de nosso trabalho. Isso é fundamental para avaliar o que estamos fazendo e, se for o caso, buscar novos rumos.

Rodrigo Ratier, editor executivo de NOVA ESCOLA e doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP)