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Por: Sophia Winkel, Elisa Meirelles e NOVA ESCOLA

Estudantes e autistas

Saiba como três professores superaram barreiras de contato e garantiram a inclusão

Ao observar Arthur, Clarissa foi descobrindo do que ele gostava e como ajudá-lo em sala. Foto: Tamires Kopp

O autismo é uma síndrome que afeta o desenvolvimento em três importantes áreas: comunicação, socialização e comportamento. Dentro das Desordens do Espectro Autista (DEA), a síndrome pode se manifestar de forma leve a severa e, normalmente, as alterações comportamentais já podem ser notadas nos primeiros anos de vida (até os 3). Não há estatística oficial entre os brasileiros, mas especialistas acreditam que a proporção seja semelhante à encontrada em outros países: uma em cada 50 crianças tem o transtorno, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), agência do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos. 

Os professores podem ficar atentos às mudanças comportamentais, como comprometimento na interação social e na comunicação, além de interesses restritos e repetitivos. Mas não é responsabilidade da escola fazer o diagnóstico. "Se o docente observar esses comportamentos, deve falar com a coordenação pedagógica e com a família para encaminhar a criança para avaliações profissionais, com exames genéticos, neurológicos, psicológicos, pedagógicos, fonoaudiólogos, entre outros", diz Isabela Barbosa do Rego Barros, pesquisadora na área de aquisição e desenvolvimento da linguagem, com ênfase em autismo. 

O que cabe à escola é incluir a criança da melhor maneira possível. Na Lei nº 12.764/2012, que instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, fica assegurado a ela o direito à Educação em todos os níveis de ensino. Garanti-lo não é tarefa simples: faltam profissionais habilitados, o número de alunos em sala é grande e ainda não há muitos conhecimentos consolidados sobre o tema. O que existe são bons exemplos de práticas pedagógicas que funcionaram em determinados contextos e podem ajudar o educador e refletir sobre o processo de inclusão.

Observar a criança 
Um exemplo interessante é a história de Arthur Silva Insaurriaga, 7 anos. Quando chegou à escola EEEF Olegário Mariano, em Porto Alegre, no início deste ano, o contato com os colegas e o tempo em sala eram uma tortura para o garotinho. "Ele gritava muito, recusava o toque e não ficava sentado durante a aula", conta Clarissa Sombrio, professora da Sala de Recursos e responsável também por acompanhar o aluno em classe. 

A educadora conta que, nos primeiros 40 dias, foi tentando descobrir como trabalhar com Arthur. Começou a observar as atitudes, buscando pistas. Notou, um dia, que ele sempre procurava um rádio que a professora titular usava em sala e guardava no armário. Foi então que a música virou uma grande aliada de Clarissa. Na sala de recursos, ela passou a intercalar as atividades propostas com as canções que Arthur tanto gostava. Gradativamente, a educadora foi diminuindo o tempo das músicas e aumentando o das atividades. Maria da Paz Castro, especialista e formadora em inclusão, comenta as tentativas da professora: "Cada criança com autismo tem particularidades. É importante investigar ao máximo o que funciona com cada uma. É um processo complexo, com base na experimentação, de muitos erros e acertos. Por isso não existe uma receita". 

A música foi também uma ferramenta importante em sala de aula, ajudando o aluno a participar das atividades de alfabetização propostas. Clarissa sugeriu que ele usasse um fone de ouvido, mas a ideia não foi aceita. Ela passou, então, a colocar o rádio ao lado dele com o som bem baixinho. A estratégia ajudou o garoto a permanecer mais tempo em sala. Os momentos de irritação ainda aparecem, mas com menor frequência. Quando o menino fica muito nervoso ou grita, a educadora e ele saem do ambiente, vão ao corredor e conversam até que se acalme e volte. "No começo, Arthur ficava muito pouco na classe, cerca de meia hora por dia. Com o esforço da equipe, hoje ele permanece de duas a três horas estudando", comemora Clarissa.
 

Adaptada à escola, a pequena Mariana escreve com o auxílio da professora Mara. Foto: Tamires Kopp

Ter a turma como parceira 

Já para a professora Mara Brum, da EE Monte Líbano, também em Porto Alegre, a chave do trabalho foi a aliança com a turma. Diferentemente de Clarissa, a educadora é responsável pela classe regular e não conta com auxiliar em sala. Quando soube que receberia Mariana Borges Sutelo, 7 anos, ficou preocupada em como dar conta da aprendizagem da menina sem deixar os outros alunos de lado. A solução foi abrir o jogo com eles e pedir a ajuda. "A Mariana chegou em março e já tínhamos iniciado o ano escolar. Contei às crianças que ela viria, falei sobre diferenças entre pessoas, li histórias e expliquei que ela precisaria do nosso auxílio para participar das aulas", relata. 

Quando Mariana chegou, foi bem recebida pelas crianças. A primeira barreira foi a fala, ela tinha dificuldade para se expressar e babava. A professora passou a repetir o que dizia, a classe foi tentando conversar com ela e a menina começou a imitar. Maria Eugênia Pesaro, psicóloga do Lugar de Vida - Centro de Educação Terapêutica e doutora em Psicologia Escolar do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (USP), destaca como essa interação tem resultados: "As trocas entre as crianças são poderosíssimas. Não se sabe ao certo explicar, mas o efeito da tentativa de uma criança de passar uma mensagem a outra com autismo, se comparada à de um adulto, é muito maior. Esses combinados com a turma são importantes". Hoje, Mariana ainda tem dificuldades, mas todos a entendem. 

A parceria com os alunos contribuiu também para a gestão de sala. A docente começou planejando atividades diferenciadas para a menina, mas se deu conta de que ela podia acompanhar a turma. Passou, então, a trabalhar em grupos de quatro crianças, colocando-a junto. "A classe está sendo alfabetizada, alguns chegaram já sabendo as letras, outros não sabiam nem segurar o lápis. A classe já era diversa e com ela não foi diferente", explica. A garota demanda mais atenção, mas foi aprendendo a respeitar os colegas e esperar. Quando surge uma dúvida e Mara está atendendo outros alunos, pede que ela espere e, em muitos casos, as próprias crianças ajudam. A aliança com a classe tem dado resultados. "Ao final de um ano, todos aprenderam mais. Mariana já está silábica com valor sonoro, quase alfabética." 
 

Após aprender Libras com o professor Genisvaldo, Danilo pode se desenvolver. Foto: Arquivo Pessoal

Entender os desafios do estudante 

Em muitos casos, o autismo é apenas uma das barreiras que o aluno tem de superar. "O Danilo é um caso bastante especial", conta o professor de apoio Genisvaldo Rafael Mourão de Almeida, da EE Beira Rio, em Palmas, ao comentar o processo de inclusão de Danilo Ribeiro Miranda, do 7º ano. Ele é surdo, tem deficiência intelectual e é autista. O quadro impedia-o de se comunicar, socializar com os colegas e participar das aulas. 

Genisvaldo viu que o ponto de partida era a interação social. Começou, então, um trabalho contínuo para ensinar a língua brasileira de sinais (libras) ao aluno. Com a ajuda de imagens, mostrava a palavra e ensinava o sinal. Danilo foi aprendendo e agora está sendo alfabetizado. 

Acompanhando os avanços do garoto, Genisvaldo viu que teria de ensinar gestos a outros estudantes e funcionários da escola para que pudessem conversar. O professor lançou o projeto Falando com as Mãos, que consistiu em ensinar um vocabulário mínimo de cumprimentos, que passaram a ser habituais: "Bom dia", "Boa tarde" e "Como vai?". A proposta foi o ponto inicial para que Danilo começasse a interagir. Uma conquista enorme para quem vivia só até então.