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Para que se cumpra efetivamente o direito à Educação científica

Mais do que explicar por que um fenômeno acontece, é necessário construir uma cultura que permita compreender processos mais complexos

POR:
NOVA ESCOLA
Luciana Hubner,

Luciana Hubner,
consultora pedagógica da Abramundo e selecionadora do Prêmio Educador Nota 10

"Seca já faz 1/5 das cidades do país decretar emergência ou calamidade." "Perda de água chega a 40% nas grandes cidades." "Governo Federal diz que crise da água em São Paulo pode se prolongar até 2016." As frases acima foram, e continuam a ser, manchetes de jornal. A maior crise hídrica vivida pelos moradores do estado de São Paulo tem sido veiculada pela mídia e é tema de discussão entre adultos e crianças. Após o verão mais quente e seco em sete décadas, o principal conjunto de reservatórios da região metropolitana chegou ao nível mais baixo. Termos como racionamento, mudança climática, escassez, precipitação abaixo da média e volume morto passaram a fazer parte do vocabulário da população. 

A crise expôs a fragilidade do sistema, a falta de planejamento, as relações políticas, as limitações humanas e até a consciência de quanto e como usamos esse recurso precioso. A água doce, indispensável à vida, é um bem renovável, mas relativamente escasso em algumas regiões. Embora 2/3 da superfície do planeta sejam cobertos de água, menos de 3% dela é doce. E a parcela imediatamente utilizável, presente em rios e lagos e nos aquíferos subterrâneos, alcança em torno de 22% desse estoque. A maior parte do restante está em geleiras, o que dificulta seu aproveitamento. 

O problema da água não é consequência apenas de fatores climáticos e geográficos, mas principalmente do uso irracional dos recursos hídricos. Entre as causas da escassez estão o fato de ela não ser tratada como um bem estratégico; a falta de integração entre a política nacional de recursos hídricos e as demais ações públicas; os graves problemas de saneamento básico e a ideia de muitos de que a água doce é recurso infinito. 

A água é vida. Primeiro, porque é o maior componente da maioria dos seres vivos. Em nosso corpo, ela corresponde a 60% ou 65% do peso. Segundo, porque grande parte das atividades humanas depende dela: cozinhar, tomar banho... Não é à toa que a vida deve ter surgido na água. Ela mistura e se mistura a muitas substâncias criando um ambiente propício para que ocorram reações químicas. Quer saber se existe vida em algum lugar? Procure por água. 

Vimos até aqui a enormidade de questões que envolvem o tema e a riqueza de aspectos que auxiliam a compreender a importância do cuidado e da manutenção dela. Faz-se necessário, então, refletir sobre a forma como esse conteúdo tem sido trabalhado pela escola. A maneira como apresentamos o assunto faz com que a turma seja capaz de enfrentar situações do cotidiano, interpretando-as por meio de modelos conceituais e de procedimentos próprios da Ciência? 

Em sala de aula, o estudo da água comumente centra-se no fator limitante da vida humana, encontrando quase ausentes as discussões sobre a crescente demanda mundial; o uso excessivo e a degradação; questões de saúde; conflitos políticos; sustentabilidade; e as alternativas para diminuir o consumo. Em grande parte, as aulas se voltam à aprendizagem de conceitos como propriedades, estados físicos e ciclos, tratados como fim e não como meio para compreender a realidade.

Ensinar o método científico 

Quais intervenções educacionais podem ajudar a superar essa limitação? Se quisermos que os estudantes utilizem, agora e no futuro, o que aprendem sobre Ciências, a solução de problemas deve ganhar maior importância e significado na formação deles. O método científico não é somente uma maneira de solucionar questionamentos, mas também de propô-los. Além de servir para responder, serve para perguntar. Costuma haver uma vulgarização e uma mecanização desse método na escola. Geralmente, tende-se a enfatizar a observação. A experimentação e a interpretação dos dados estão, desde o primeiro momento, carregadas de teoria. O método científico, em vez de ser um meio usado de forma flexível para resolver um problema, torna-se um fim em si mesmo. Fazer ciência, então, passa a ser uma caricatura da pesquisa científica, sem o conteúdo e o significado teórico da própria investigação. 

A área de Ciências e Meio Ambiente contribui para o desenvolvimento integral do aluno. O maior desafio é superar a simples transmissão de informações, a manipulação de instrumentos e a observação contemplativa. Para saber como funciona uma bicicleta, não basta explorá-la. É necessário conhecer e apropriar-se intelectualmente da lógica que rege processos, princípios e relações. O conhecimento científico pretende mais do que explicar por que algo acontece. Trata-se de construir uma cultura científica que permita participar, tomar decisões racionais e compreender minimamente processos de decisão mais complexos. 

O estudo deve oferecer oportunidades para aprendizagens que respondam a interesses e necessidades dos alunos, permitindo-lhes construir um modelo de como é e como funciona o ambiente. A aprendizagem compreende a metodologia, a atitude científica, os conceitos, os processos e fenômenos físicos e químicos e sua relação com o desenvolvimento tecnológico.

Questionar e argumentar 

O estudo das Ciências contempla também a capacidade de argumentação - expor e defender ideias com base em problemas vinculados com saúde, ambiente e as implicações do desenvolvimento tecnológico tendo o conhecimento científico como referência. O estudante pode, assim, desenvolver capacidades de análise e reflexão, compreendendo os efeitos das intervenções no ambiente. 

Coerente com essa visão, o estudo deve se voltar à ampliação dos saberes que ajudem a entender aquilo que se observa, vive ou as informações que são veiculadas. A aprendizagem precisa de uma postura dialógica aberta, curiosa, indagadora. O conhecimento não está nas respostas, mas nas perguntas feitas. Não existem questões bobas, ingênuas, nem respostas definitivas ou inquestionáveis. "Ao perguntar sobre um fato, tenha na resposta uma explicação do fato e não a descrição pura das palavras ligadas ao fato. É preciso que o educando vá descobrindo a relação dinâmica, forte, viva, entre palavra e ação, entre palavras-ação-reflexão" (Freire; Faundez, 1998). 

Para compreender a questão da crise hídrica, não basta saber o ciclo da água, suas propriedades e estados físicos. É preciso vê-la como um recurso do ambiente, entender os fatores sociais que podem ter um efeito direto e indireto, imediato ou tardio sobre os seres vivos e as atividades humanas. O ambiente não se reduz a questões da biosfera, engloba também o sistema de relações políticas, econômicas, sociais e culturais que configuram a sociosfera. 

A Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental, realizada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em 1977, estabeleceu, entre outros pontos, que a Educação Ambiental deve ser permanente e globalizada, podendo adaptar-se às mudanças que ocorrem em um mundo em constante transformação. Para a Unesco, a essência do conhecimento científico é a capacidade de examinar problemas de diferentes perspectivas e procurar explicações com base na análise crítica. 

A escola tem como importante papel a formação de cidadãos, daí a necessidade de incluir, nas aulas de Ciências, processos de debate, decisão e execução de ações para melhorar a cidade e contribuir com a sustentabilidade. A instituição de ensino é um lugar em que se pode imaginar e experimentar estratégias para viver de acordo com princípios sustentáveis. Por meio de descobertas, propostas e participação real, os estudantes podem vivenciar essas experiências.

Colocar em prática 

O trabalho com ambiente pode organizar-se com base em diferentes objetivos e características, partindo de uma questão a ser investigada, promovendo e organizando diálogos e oportunidades para que os alunos expressem opiniões e mostrem inquietações. Elaborar e planejar as aulas inclui formular os objetivos que se quer alcançar; identificar as possíveis propostas; analisar e avaliar opções; selecionar ações e materiais mais adequados; pensar no processo de avaliação; e analisar como incorporar a comunidade educativa. A forma como desenvolver o trabalho é o ponto crucial: quebrar a tradição de ensinar o que aprendemos e passar a trabalhar o que não aprendemos e pode ser descoberto. Com isso, temos a chance de criar e promover mudanças. 

Têm sido frequentes trabalhos com a temática ambiental que promulgam uma cidadania responsável, com um tratamento factual, reducionista, uma visão empírica da realidade, que separa lixo e economiza água sem jamais questionar com mais profundidade o processo todo e muitas vezes distante do vivenciado pelo aluno. 

As Ciências na escola ainda utilizam o método cartesiano e não sistêmico embora a maioria dos grandes cientistas não usasse o rigor do método, e sim a intuição e os saberes de outras áreas. Foram pessoas que observaram de forma diferente a realidade e propuseram mudança. Como disse Paulo Freire (1921-1997) , é necessário que os novos conhecimentos venham ao encontro da realidade do mundo e dos saberes que todos já trazem para a sala de aula, em uma relação dialógica de uma verdadeira comunidade de aprendizagem crítico-reflexiva, não apenas descrevendo-os conceitualmente, mas redizendo-os e ressignificando-os socio-histórico e culturalmente. 

Para que se cumpra de fato o direito à Educação científica, não basta garantir às novas gerações o acesso às informações acumuladas pelas Ciências, é preciso assegurar-lhes aprendizagens para atuar, enfrentar e modificar situações que vivenciam diariamente. Ensinar é partir da realidade e tomar os conceitos como mediadores para compreender e intervir nela. Os conteúdos são meios para compreender o mundo. Nessa visão, as teorias científicas não devem ser encaradas dogmaticamente como algo a ser aplicado de forma mecânica. Elas têm de ser vistas como capazes de auxiliar na compreensão e no posicionamento em situações múltiplas. 

Alunos e professores não são mais considerados meros receptores e transmissores de conhecimentos, mas precisam desenvolver a habilidade de construir parte dos saberes e adaptar os existentes às suas necessidades. O educador não é aquele que se coloca acima ou diante de seus alunos para instruí-los, mas quem organiza, propõe, orienta e media o processo de aprendizagem. 

O objetivo do ensino de Ciências deve ser preparar crianças e jovens para a cidadania plena. Para que possam refletir e ter capacidade de tomar decisões sobre sua própria vida, de forma consciente, responsável e cooperativa. A escola deve colaborar com sua preparação para isso, tratando as aulas de Ciências não como espaço de oferta do saber acumulado - conceito não é conhecimento que se transfere em experiências pontuais e de uma única forma - com posterior avaliação da aprendizagem. Sociedades democráticas, como a que vivemos, demandam a participação de cidadãos com conhecimentos e estratégias para interpretar, compreender e tomar decisões sobre os problemas do mundo.

Resumo

Na escola, o estudo de Ciências é comumente centrado em uma descrição fenomenológica do mundo e na aprendizagem de conceitos tratados como fim em si, e não como meio para compreender a realidade. O presente artigo discute aspectos fundamentais para que se cumpra o direito à Educação científica. Entre eles estão ensinar o método científico e levar a turma a questionar e argumentar sobre a intervenção do homem no ambiente.

 

Referências bibliográficas

FREIRE, P.; FAUNDEZ, A. Por uma pedagogia da pergunta. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.
FREIRE, P. Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar. 2 ed. São Paulo: Olho dÁgua, 1993.
FREIRE, P.; MACEDO, D. Alfabetização: leitura do mundo, leitura da palavra. 2 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994.
HENZ, C.I. Dialogando sobre cinco dimensões para (re)humanizar a educação. In. ANDREOLA, B.A. (Org.). Formação de educadores: da itinerância das universidades à escola itinerante. Ijuí: Ed. Unijuí, 2010, p. 49-62.
POZO, J.I. A solução de problemas: aprender a resolver para aprender. Ed. Artmed, 1998.

 


Foto: Victor Malta

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