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Leitura e escrita na pré-escola

Aos 4 e 5 anos, os pequenos estão cercados por textos e têm muitas ideias sobre a língua escrita. Conheça seis condições didáticas para fazê-los avançar

POR:
Anna Rachel Ferreira

Mensagens, palavras, frases, textos. Compreender e ser compreendido por meio da escrita. Eis a magia do ler e escrever. Porém, a melhor época para se iniciar no mundo das letras tem sido um tabu ao longo dos anos. Na escola pública, defende-se que essa prática é séria demais para a Educação Infantil, muito escolar para os pequenos que merecem exercer seu direito de brincar. O inverso acontece nas instituições particulares, que defendem a alfabetização nessa faixa etária. Mas, entre a proibição e a obrigação, existe uma criança que explora o mundo da escrita e pensa ativamente sobre ela. As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil orientam a "articular as experiências e os saberes das crianças com os conhecimentos que fazem parte do patrimônio cultural". A verdade é que, desde muito novas, elas têm acesso à linguagem escrita em seu dia a dia e, aos 4 e 5 anos, estão em plena fase de investigação desse objeto da cultura, inclusive nos suportes digitais. Exploram o teclado do computador, veem o bilhete à mão preso na geladeira, reconhecem os produtos na prateleira do supermercado, os nomes dos programas na televisão e as placas de sinalização. A escrita está por toda parte. Postergar a interação com ela não é uma boa opção. 

No texto O Ensino e a Aprendizagem da Alfabetização: uma Perspectiva Psicológica, de 2002, a pesquisadora argentina Ana Teberosky e a espanhola Isabel Solé esclarecem que, nos últimos 30 anos, o avanço mais significativo na área foi reconhecer que as hipóteses sobre a linguagem escrita de crianças entre 3 e 5 anos fazem parte do processo de alfabetização inicial. Essa conclusão se choca com a visão de que a pré-escola é apenas uma etapa preparatória do Ensino Fundamental, que privilegia treinamentos mecânicos como o desenho das letras, atividades de coordenação visomotora e exercícios de cópia. Essas práticas compartimentam a escrita e ignoram a qualidade da comunicação que se estabelece por meio dela. Dividir a linguagem em etapas de pré- alfabetização, alfabetização e pós-alfabetização é negar que existe um processo contínuo de aprendizagem. Para favorecer o desenvolvimento dos pequenos, vale a pena ensinar a usar as letras em situações reais de leitura e escrita, propiciar momentos de reflexão sobre elas, conversar sobre suas denominações e promover a relação com palavras e partes de palavras conhecidas, como os nomes de amigos e parentes ou os títulos de histórias.
 

As criaças leem os nomes dos adjunates do dia e escrevem os sues nas atividades

Para explorar os textos na pré-escola 
Desse modo, cabe ao educador atuar para democratizar o acesso ao mundo da escrita, que ainda se apresenta com desigualdade para crianças de classes sociais distintas, e ser um interlocutor inteligente dessa aprendizagem, promovendo um ambiente alfabetizador. "O professor deve dar todas as condições para que a sala pense sobre como se escreve, para que se escreve e quem escreve", explica Silvana Augusto, formadora do Instituto Avisalá. As reflexões devem levar em conta as relações entre os elementos da linguagem verbal, pois é nessas relações que eles encontram significado e não em partes isoladas, como as letras. Por isso, é importante que os pequenos tenham acesso a uma diversidade de materiais escritos, ouçam a leitura de diferentes gêneros textuais, tenham oportunidade de escrever segundo suas ideias, interpretem o escrito por meio do contexto e produzam textos ditados ao docente. 

Além de inseri-las nas práticas reais de linguagem, é essencial que se compreenda a forma própria que as crianças têm de construir conhecimento sobre a escrita, conforme já demonstrado em pesquisas desde o início da década de 1980. "Quando escrevem, elas colocam em jogo tudo o que conhecem, expondo suas ideias, compartilhando-as com outros escritores, como colegas e professores, e evoluindo", afirma a especialista argentina Claudia Molinari. Ou seja, somente pensar sobre o contexto não é suficiente, devem ter a chance de escrever. "Quando dizemos: escreva do seu jeito, escreva o melhor que pode, estamos dando à criança a liberdade de se expressar da forma que sabe e de acordo com as suas capacidades no momento", explica Regina Scarpa, coordenadora pedagógica da Fundação Victor Civita no texto O Conhecimento de Pré-escolares sobre a Escrita: Impactos de Propostas Didáticas Diferentes em Regiões Vulneráveis. 

De acordo com Regina, que observou quatro turmas de Educação Infantil para sua tese de doutorado, existem situações didáticas que impulsionam essa aprendizagem. O trabalho com nome próprio - a primeira palavra com significado para a criança - fornece um conjunto básico de letras que cada um usará para compor outras palavras. Quando se promove a escrita, a interpretação e a revisão da própria escrita, a criança começa a estabelecer relações com o que quis dizer e o que escreveu. Na produção de texto coletivo, com o educador atuando como escriba, os pequenos pensam no que desejam comunicar e estabelecem diferenças entre o registro oral e o escrito. Além disso, a organização de sala em duplas ou subgrupos com acesso a fontes de informações favorece as trocas produtivas e amplia consideravelmente o repertório dos pequenos. 

Todas essas situações devem ser elaboradas levando em conta o ponto de vista da criança pequena, para quem não há distinção entre aprender e jogar. Você verá que todos vão avançar na compreensão do sistema alfabético, sem a obrigação de chegar a uma escrita convencional. Nas páginas seguintes, conheça exemplos de como garantir que eles desbravem esse universo.

Garantir a leitura e a escrita do nome próprio e dos colegas
 

Na CEI Cachinhos de Ouro, em Joinville, a 176 quilômetros de Florianópolis, Vanessa dos Santos Araújo faz questão que sua turma, de 4 anos, aprenda a escrever o nome próprio e o de alguns colegas. Há vários momentos de reflexão na rotina: "Durante a chamada, procuramos comparar os nomes de cada um". Fichas identificam os materiais pessoais e são usadas para eleger o ajudante do dia. Uma das meninas olhou para o nome sorteado e anunciou: "É a Isabela!". Quando questionada sobre como tinha chegado àquela conclusão, a pequena disse que começava com "I" e terminava com "A", observação comum nessa faixa etária e que pode ser explorada para fazer comparação entre nomes. Assim, a criança passa a refletir sobre quantidade e sequência de letras. Para aprofundar a reflexão, os pequenos escreveram com letras móveis e, muitas vezes, usavam as fichas da chamada como referência. 

Por que é importante O nome próprio exprime a diferença e a identidade de cada um. Quando pensamos em uma aprendizagem da linguagem escrita que enxerga a criança como protagonista, é natural utilizar o que a define em primeira instância. No ambiente escolar, o nome serve para marcar os objetos de uso pessoal. Além disso, costuma ser a primeira forma de escrita estável dotada de significado para os pequenos. A leitura e a escrita do próprio nome e dos colegas é um excelente ponto de partida para refletir sobre o sistema de escrita.
 

Atenção! Se a ideia é que a criança reflita sobre a escrita do nome, suas letras iniciais e finais, a presença de fotografias e desenhos pode desviar a atenção e servir como identificador, subutilizando a escrita.


 

Após dois momentos de escrita, os pequenos leem o que escreveram e fazem modificações

Dar oportunidade para escrever, interpretar e rever

A professora Maria Aparecida Gonçalves da Cruz, da EM Virgilio Pedreira, em Tapiramutá, a 350 quilômetros de Salvador, propôs situações interessantes para crianças de 5 anos. Após uma pesquisa sobre insetos, elas confeccionaram um jogo da memória. Para começar, foi feita uma votação para eleger quais animais, entre aqueles sugeridos pelos pequenos, estariam no jogo. Foram escolhidos seis, como formiga, borboleta e joaninha. Então, a professora deu uma cartela de cada inseto para que as crianças escrevessem individualmente como quisessem. Um menino escreveu BLT para borboleta. No dia seguinte, foi distribuída a segunda cartela para escrita dos insetos. O mesmo garoto escreveu BLTA. Em seguida, a docente entregou as duas fichas para cada criança e pediu que comparassem e lessem o que escreveram. "Está faltando o ?A? nesse", disse ele, que quis modificar a escrita da primeira ficha. Ao pedir que relesse, apontou com o dedinho e leu: "Borboleta. Está bom, professora". 

Por que é importante Ler o que se escreveu, com a oportunidade de alterar o escrito, permite que os pequenos percebam problemas na escrita que só aparecem claramente na revisão. Ao comparar a maneira como escreveram a mesma palavra em dois momentos, recorrem a o que os levou a cada uma das formas de escrita e, às vezes, conseguem uma terceira opção, sem a obrigação de chegar à escrita convencional.
 

Atenção! Lembre-se de que as crianças constroem a ideia de que para se escrever alguma coisa é preciso de, no mínimo, três letras. Então, a escrita de dissílabos e monossílabos pode ser fonte de conflitos.

Os bilhetes para os pais ssão escritos e revisados coletivamente par adepois irem ao caderno

Promover a produção de textos coletivos
No Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação (Cepae), da Universidade Federal de Goiás (UFG), a turma de 4 anos da professora Adriana Ramos estava empolgada com o faz de conta que realizaria: um salão de beleza. As crianças decidiram convidar os colegas da sala ao lado. "A gente pode fazer um convite igual de aniversário", sugeriram. Em seguida, passaram a ditar o conteúdo e, com base nas intervenções da educadora, inseriram informações essenciais e chamarizes para os amigos. Já na EMEI Professora Marianita de Oliveira Pereira Santos, em São José dos Campos, a 94 quilômetros de São Paulo, Zenilda Ângela D?Almeida Teles propôs a leitura de gibis, mas não havia exemplares em sala. "Eu tenho em casa", disseram os pequenos. Então, a professora orientou que eles ditassem um bilhete solicitando aos pais que emprestassem os gibis para ser usados na escola. 

Por que é importante Ao ditar um texto e revê-lo, com base nas intervenções do professor, a turma tem a oportunidade de pensar sobre as diferenças entre o registro oral e o escrito. Também observa durante essa atividade como se dá a organização da linguagem. "O que eu quero dizer?", "Para quem estou escrevendo?", "Como transmitir essa mensagem?". Tais perguntas e o próprio processo de revisão fazem parte do comportamento escritor ao qual as crianças estão se aproximando, antes mesmo de saberem escrever de forma convencional.
 

Atenção! O objetivo não é que os pequenos conversem sobre o que precisa ser escrito, e sim que produzam e ditem o texto ao professor. Assim, aprendem a diferenciar conversação e comentário de textualização.

 

Em grupos, as crianças solucionam desadfios com o que sabem sobre escrita


Realizar propostas diferentes em duplas ou grupos
No Colégio Termomecânica, em São Bernardo do Campo, região metropolitana de São Paulo, a professora Margarete Alves Molgora trabalha com uma turma bastante heterogênea, apesar de todos terem 5 anos. Por isso, ela propôs desafios diferenciados durante a atividade de escrita sobre o livro Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll (1832-1898). Após a leitura do clássico literário, as crianças foram divididas em duplas, de maneira a trabalhar junto com outras que tivessem hipóteses de escrita próximas. Assim, cada uma teve aproveitada toda a sua capacidade e se sentiu estimulada a escrever sobre a mesma temática. Uma parte da sala registrou no caderno o início da história, outro grupo foi desafiado a criar legendas descrevendo as características dos personagens e um terceiro elaborou uma lista das pessoas e dos animais presentes no livro. "Fui intervindo em cada grupinho conforme os questionamentos e as ideias apresentadas pelos pequenos", comenta a docente. 

Por que é importante Serem expostas a desafios adequados a sua hipótese de escrita faz com que as crianças se motivem a investigar. Trabalhando em duplas ou grupos com ideias próximas às delas, terão a oportunidade de defender posições e ouvir as dos companheiros, desenvolvendo novas estratégias para solucionar as questões típicas do uso da linguagem. Desse modo, meninos e meninas progridem na aprendizagem.

Atenção! As crianças já alfabéticas precisam de outros tipos de desafio para que avancem. Por isso, a necessidade de atividades diferenciadas em relação aos que ainda não construíram a base alfabética.


 

Os pequenos procuram onde está escrito  o nome do produto que será usado na receita 


Incentivar leituras com contexto verbal ou material 
Após ler algumas das historinhas da Turma da Mônica, de Maurício de Sousa, a educadora Zenilda mostrou uma lista de personagens do escritor à turma de 5 anos e anunciou: "Aqui temos alguns dos nomes dos personagens dos gibis que lemos. Vamos identificá-los?". Zenilda notou que os meninos e as meninas se apoiavam no tamanho da palavra e nas letras finais e iniciais. "Esse é a Magali porque termina com ?I?", disse uma das crianças. Já na turma da professora Patrícia Schulze, da CEI Cachinhos de Ouro, os pequenos faziam um trabalho com receitas quando usaram um catálogo de supermercado. Após selecionar os produtos necessários, a docente mostrou as embalagens e questionou onde aparecia o nome do ingrediente. "Um deles apontou para a marca e disse que estava escrito leite", comenta. Ela perguntou com que letra começa "leite" e ajudou o garoto na exploração do rótulo. 

Por que é importante Informações dadas pelo docente sobre o que está escrito e indagando onde é um exemplo de contexto verbal. Outras vezes, as características do próprio material, como fotos e ilustrações, fornecem um contexto que permite à criança tentar interpretar o que está escrito. Ela utiliza estratégias tais como antecipar o significado com base em conhecimentos prévios e reconhecer índices gráficos, como as partes de palavras conhecidas. Os pequenos também podem ler textos que já sabem de memória fazendo o ajuste do falado para o texto escrito.
 

Atenção! Deixar que as crianças fiquem sozinhas diante das letras e apresentar desafios de leitura sem contextos facilitadores leva à decifração. Dessa forma, elas soletram e não chegam ao significado do escrito.


 

Alfabeto móvel e livros são utilizados como referência no momento de escrita das crianças


Remeter a fontes de informação disponíveis na sala de aula 
Na turma da professora Zenilda, meninos e meninas têm livre acesso ao alfabeto e a letras móveis para ser consultados e manuseados quando necessário. Já os pequenos orientados por Margarete são assíduos frequentadores da biblioteca e da sala de informática: ambos espaços são utilizados para leitura de textos informativos, em momentos de pesquisa, e para a leitura de outros gêneros. A educadora Vanessa faz questão de que os materiais de trabalho e pessoais das crianças sejam identificados com o nome próprio. A turma da docente Adriana pode folhear tranquilamente os livros e explorá-los da forma como desejar. Na sala de Maria Aparecida, os pequenos emprestam livros da escola, as levam para ler em casa com a ajuda dos pais e no dia seguinte compartilham com os colegas o título do livro, autor, a história e a sua opinião sobre ele. A linguagem escrita está acessível a todo instante. 

Por que é importante Os textos utilizados em sala de aula são referências para a reflexão da criança sobre a linguagem escrita. Vale a pena expor em local bem visível uma lista contendo os nomes de todos da turma, o alfabeto, os cartazes com canções e parlendas conhecidas ou com os títulos das histórias já lidas pela classe, contendo o registro do trabalho realizado. Esses materiais constituem-se em fontes de informação para a turma em diversos momento da rotina e ajudam de forma adequada ao processo contínuo de aprendizagem da leitura e da escrita.
 

Atenção! O ambiente alfabetizador não se constitui apenas na colocação de cartazes em sala de aula, mas nas práticas de leitura e escrita em torno dos mesmos. Sem intervenções, eles se tornam meros enfeites.