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Novos olhares sobre a origem da vida

Comparar características de animais permite entender conceitos de evolução das espécies

POR:
Paula Valentim, Paula Peres e NOVA ESCOLA

As aulas sobre evolução nos anos finais do Ensino Fundamental podem ir além de apresentar as teorias de Charles Darwin (1809-1882) e Jean-Baptiste de Lamarck (1744-1829). Para Antonio Carlos Pavão, diretor do Espaço Ciência de Pernambuco, elas têm a missão de expor uma nova maneira de enxergar o mundo. "É importante mostrar uma hipótese sobre a origem da vida diferente da que geralmente é conhecida. Quando alguém constrói seu próprio conceito de evolução, revê o que pensava até então." 

As atividades em classe são momentos ideais para criar e testar teorias sobre o desenvolvimento das espécies. No Colégio Dante Alighieri, em São Paulo, o professor de Ciências Peterson Lopes problematizou com os jovens do 7º ano a evolução biológica e a adaptação dos seres, colocando-os no lugar de pesquisadores. A fantasia era se imaginarem como exploradores que estavam prestes a entrar em uma reserva habitada por animais da época jurássica chamada Pátio dos Dinossauros, onde deveriam elaborar uma hipótese sobre o sabor do filé de tiranossauro. Mas de que modo fazer isso? 

A turma foi dividida em grupos de três a cinco integrantes - e a eles foi dada a missão inicial de comparar as especificidades de quatro bichos: tiranossauro, javali, crocodilo-imperador e galo-banquiva. Para pesquisa e classificação, cada equipe recebeu um kit de materiais composto de quatro latas (cada uma delas trazendo, no rótulo, perguntas-chave e imagens de estruturas corporais e esqueletos de um dos seres), pregadores com indicações de características físicas dos seres, potes de diferentes tamanhos (para agrupar as latas de animais semelhantes) e uma bandeja (representando o universo). Clique na imagem para ver a lista de materiais usados e os conteúdos de cada item.

Usando o cladograma, os estudantes foram desafiados a repensar a evolução dos seres. Crédito: Zé Carlos Barretta

No recipiente do galo-banquiva, por exemplo, havia a pergunta "Quantos dedos há no membro inferior?" junto com imagens da estrutura corporal dele. Após a observação e análise do material, o grupo fixou o pregador na lata com a resposta "três dedos". O mesmo exercício foi feito com os outros animais. Em seguida, os estudantes dispuseram as latas dentro da bandeja e avaliaram se havia alguma característica comum presente em todos os seres. O objetivo era fazê-los perceber que todos tinham quatro membros, vértebras, ossos e bolsa amniótica e, assim, pertenciam a um mesmo universo: o dos vertebrados tetrápodes amniados.

"Os alunos entenderam que a organização evolutiva da biodiversidade acontece entre grupos inter-relacionados. Para isso, foi imprescindível levá-los a pensar no conjunto dos tetrápodes de maneira geral, por exemplo, e não nas aves isoladamente", explica Lopes. Para Pavão, pedir que os adolescentes testem e comprovem suas ideias com base em dados científicos traz muito mais sentido ao conteúdo didático. "Quando o professor ministra uma aula meramente demonstrativa, os estudantes apenas recebem o discurso, e o educador, consequentemente, acaba não os incentivando à crítica. Por isso, é indispensável que eles realizem experimentos e, assim, cheguem a uma conclusão tendo fortes argumentos para defendê-la."

Os grupos separaram os quatro animais de acordo com suas próprias hipóteses. Crédito: Zé Carlos Barretta

O docente passeou entre as equipes, atento aos diálogos que eram estabelecidos. Em uma delas, os alunos formaram dois conjuntos isolados de animais: em um pote, colocaram o tiranossauro e o crocodilo; no outro, o galo e o javali. Lopes questionou sobre os critérios usados para dispor os bichos daquela forma. "O crocodilo e o tiranossauro são répteis", explicou um deles. 

Para evitar o uso da classificação intuitiva, o educador pediu atenção às informações contidas nas latas (dados concretos) para confirmar ou negar as hipóteses. "Nós, professores, fornecemos dados, sugerimos revisões e solicitamos que a garotada preste bastante atenção a detalhes que passaram despercebidos", comenta Lopes. Quando todos entenderam as estruturas físicas, chegaram à conclusão de que, diferentemente do que pensavam, os tiranossauros eram mais parecidos com os galos. 

Assim, os jovens refizeram os conjuntos, porém repetiram a tendência de organizar os animais em grupos isolados, colocando as latas com o tiranossauro e o galo em um pote e as do javali e do crocodilo em outro. "Temos duas opções aqui: fazer o que vocês estão propondo, de deixar o javali e o crocodilo, seres tão diferentes, dentro de um mesmo conjunto, ou reconsiderar e encontrar outra formação", sugeriu o professor. Após uma nova rodada de discussões, os grupos reavaliaram a escolha inicial e chegaram à formação dos conjuntos desejada por ele: (((galos e tiranossauros)crocodilos)javalis). Essa forma de escrita parentética, isto é, com a utilização de parênteses, foi a maneira escolhida pelo professor para representar a formação final.

Dos exercícios práticos à teoria 

O passo seguinte da classificação foi transferir os conjuntos para um cladograma (representação gráfica de uma hipótese sobre o padrão de parentesco de organismos pertencentes a linhagens diferentes). O professor apresentou a estrutura, que já havia sido previamente montada por ele com pedaços de madeira. Depois, explicou que esse tipo de gráfico deve ser lido sempre da base até as pontas, e que uma mesma base significa um ancestral comum para as espécies localizadas nos extremos. "Surpreendentemente, essa ideia foi muito bem aceita pela turma", diz. "Trabalhar a questão da ancestralidade ajuda a derrubar o mito de que o homem veio do macaco, por exemplo, e não de um antecessor comum a ambos", esclarece Mario Domingos, consultor pedagógico da Abramundo. 

Lopes pediu que as equipes dispusessem as latas dos animais nas extremidades do cladograma, indicando com os pregadores as características e novidades evolutivas, ou seja, aquelas que só apareciam nas quatro espécies. "Elas acabaram repetindo, por exemplo, as informações 'bípede' e 'três dedos' tanto para o tiranossauro quanto para o galo, como se esses atributos tivessem se desenvolvido independentemente em cada um", explica o professor. 

Para ajudar a meninada, ele questionou: "O que seria mais correto: dizer que esses dois, que vieram do mesmo ancestral, desenvolveram características tão parecidas isoladamente ou pensar que o antecessor deles já as possuía e eles, assim, as herdaram?". Os estudantes concordaram que seria mais provável que o ancestral do tiranossauro e do galo já tivesse aquelas características, e então mudaram os pregadores de lugar, colocando-os na base do primitivo comum aos dois. 

Em casa, os alunos leram no livro didático o conteúdo sobre classificação dos animais, evolução e ancestralidade. Na aula seguinte, Lopes conversou com eles sobre a atividade, para que chegassem à tão esperada conclusão da pergunta-desafio: "Qual o gosto do filé de tiranossauro?". A sala entendeu, após concluir a experiência e ler a teoria científica no livro, que o tiranossauro e o galo vinham de um primitivo comum mais recente e compartilhavam uma série de características. Ou seja: havia grandes chances de o sabor do filé ser semelhante ao do galo.

A montagem do cladograma foi essencial para a correta formação dos conjuntos. Crédito: Zé Carlos Barretta

Resumo

1. Pesquisadores mirins Convide a turma para uma aula sobre evolução, transformando os alunos em exploradores de um ambiente imaginário: o Pátio dos Dinossauros.
2. Semelhanças e diferenças Forme grupos e peça que comparem quatro animais, identificando as características de cada um deles. 
3. Novas observações Ouça as discussões dos alunos e peça que repensem os critérios escolhidos para formação dos grupos de animais.
4. Montagem final Com o agrupamento definido, oriente a montagem do cladograma. Na aula seguinte, relembre a atividade para que os jovens respondam à pergunta-desafio: "Qual o gosto do filé de tiranossauro?".