Seções | Educação em Debate

Entenda por que os resultados em Ciências deixam a desejar

Falhas nos cursos para docentes, falta de clareza sobre o que trabalhar e pouca ênfase dada à área são alguns fatores

POR:
Sophia Winkel, Elisa Meirelles e NOVA ESCOLA

Os brasileiros sabem pouco sobre Ciências. Foi o que revelou o Índice de Letramento Científico (ILC), estudo realizado este ano pelo Instituto Abramundo em parceria com o Instituto Paulo Montenegro e a ONG Ação Educativa. A pesquisa concluiu que 64% dos entrevistados, de 15 a 40 anos, possuem baixo letramento científico, têm pouco conhecimento sobre a nomenclatura relativa à área e não sabem colocar em prática conceitos importantes (veja o gráfico abaixo). Esses fatores impactam diretamente na esfera social, pois um maior domínio das habilidades permite a inserção no mercado de trabalho e a incorporação ao dia a dia de saberes como entender uma bula de remédio. 

Os maus resultados mostrados na pesquisa são compreendidos quando se pensa sobre como foi, historicamente, o ensino de Ciências no país. Analisando as metodologias adotadas em sala de aula desde a década de 1950, vê-se uma série de rupturas. Sessenta anos atrás, as aulas eram pautadas pelo método tradicional, em que o professor mostrava aos alunos as informações sobre temas científicos, descritas em livros didáticos traduzidos de versões europeias. Nos anos 1960, começaram a chegar ao país linhas metodológicas tecnicistas, que iam contra o que era feito até então e defendiam a reprodução de experimentos realizados conforme instruções de quem os havia criado. Laboratórios de Ciências foram surgindo nas escolas, mas as experiências ainda eram vistas como um método rígido, que permitia pouca experimentação e investigação. O ponto era seguir as instruções e chegar a resultados predeterminados, sem procurar os porquês.

Só em 1980, a disciplina passou a ser entendida como uma construção humana e não como uma verdade natural. A resolução de problemas que exigem levantamento de hipóteses, observação, investigação, pesquisa em diversas fontes e registros ao longo do processo ganhou força. Temas como tecnologia, meio ambiente e sa

úde foram incluídos nas aulas e as chamadas situações-problema se tornaram mais comuns. A proposta era que o aluno mobilizasse seus conhecimentos e fosse em busca de novos para resolvê-las. 

Ainda hoje, os professores tentam mesclar essas metodologias de modo a estimular uma postura mais criativa e participativa da turma. No entanto, no ímpeto de levar para a sala assuntos relacionados ao cotidiano dos estudantes, muitas vezes deixam de lado conceitos importantes, e o conteúdo de Ciências fica prejudicado. Mais do que só contextualizar o assunto é preciso efetivamente proporcionar práticas que colaborem para que todos aprendam. Falta nas redes uma definição clara sobre quais as habilidades e competências que têm de ser aprendidas na disciplina e quais estratégias podem ser usadas para isso.

Falhas na formação e no investimento 

Essa dificuldade em ensinar os temas da disciplina é explicada, em parte, pela pouca ênfase dada a ela na formação docente ao longo dos anos. A maioria dos pedagogos que lecionam para turmas de 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental não teve aulas de Ciências na universidade. São raros os cursos que ensinam didáticas e conteúdos específicos da área. Muitos docentes acabam tendo de recorrer ao que aprenderam quando estavam na Educação Básica ou têm de deixar os saberes científicos em segundo plano. 

Nos anos finais do Ensino Fundamental, o problema é diferente. Há professores formados em Biologia, Física ou Química, mas poucos recebem uma formação que permita a eles transitar entre essas três áreas, pré-requisito para dar boas aulas da disciplina. Como cada licenciatura é ministrada separadamente, os educadores se especializam em um único assunto e têm dificuldades para ensinar os outros dois. 

Soma-se a esse quadro o grande contingente de docentes sem formação alguma na área. Segundo o estudo Professores do Brasil: Impasses e Desafios, do Fundo das Nações Unidas para a Educação Ciência e Cultura (Unesco), são poucos os interessados pela carreira: o número de alunos inscritos em cursos em licenciatura ligados às ciências está abaixo da oferta de vagas. Esse déficit faz com que, em muitas redes, pessoas habilitadas em outras carreiras - incluídas as de humanas e exatas - lecionem a disciplina, agravando os problemas e deixando claro que as aulas de Ciências não estão entre as prioridades dos gestores da Educação. 

 

Outro fator apontado como prejudicial à aprendizagem é a falta de infraestrutura. Segundo informações do Censo Escolar 2013, somente 8,2% das escolas públicas do país possuem laboratórios de Ciências. Além disso, esses espaços demandam técnicos para manusear equipamentos e auxiliar os grupos nas experiências, suporte que também é bastante raro. 

A maior presença de laboratórios nas escolas isoladamente, no entanto, não resolve os problemas. Esses espaços propiciam maiores possibilidades aos professores e colaboram para que os alunos sejam mais autônomos na aprendizagem, mas só atingem essa potencialidade com educadores preparados. As aulas práticas devem ser incluídas em uma sequência didática. 

É parte da função docente refletir sobre o trabalho em sala e contextualizar o ensino de diferentes formas, buscando recursos que estimulem a curiosidade, a investigação e o aprendizado científico. O ideal é que exista infraestrutura para isso - e esse ponto deve ser defendido e colocado em pauta - mas enquanto as mudanças não ocorrem, os educadores podem buscar alternativas. 

Diante de todos esses desafios, fica a questão: o que os alunos estão aprendendo sobre Ciências hoje no país? Até o fechamento desta edição, os resultados da Prova Brasil 2013, a primeira a avaliar a disciplina, ainda não haviam sido divulgados. A resposta, então, vem do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2012. Ela mostra que 55,3% dos alunos alcançaram apenas o nível 1 de conhecimento, o menor da escala. Ou seja: o cenário apresentado no início desta reportagem, infelizmente, parece se perpetuar.

Compartilhe este conteúdo: