Marisa Valladares: "A universidade crê que seu docente é superior aos demais"

Professora de Ensino de Geografia e estudiosa da relação entre universidade e escola fala sobre formação de professores e a importância dos estágios

POR:
Anna Rachel Ferreira
Marisa Valladares. Arquivo pessoal/Marisa Valladares
Marisa Valladares Fundadora do Laboratório de
Ensino e Aprendizagem de Geografia da 
Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)
e professora de  Ensino de Geografia na 
Universidade Federal Fluminense (UFF)

A distância entre academia e escola é grande, clara e antiga. Apesar de os docentes da Educação Básica terem passado pela universidade e de ela ir à sala de aula pesquisar ou levar seus estagiários, algo acontece que não permite uma comunicação frutífera. Em muitos casos, o que se mostra é uma troca de farpas e desentendimentos que resultam em prejuízo para a Educação como um todo. Segundo Marisa Valladares, professora de Ensino de Geografia e estudiosa da relação entre universidade e escola, é preciso uma mudança de postura dos dois lados. Nesta entrevista, a pesquisadora discorre sobre o tema, tomando como ponto de partida a formação docente na Geografia e a organização dos estágios, e apontando aspectos comuns às demais licenciaturas.

Qual é a grande lacuna na formação inicial dos professores de Geografia?
MARISA VALLADARES Eu diria que é a dissociação entre as disciplinas do curso de graduação, separando aquelas voltadas aos conhecimentos geográficos e as relativas à didática da área. Há uma ruptura entre dois tipos de professor. Um deles, o da ciência geográfica, entende que conhecer o assunto é mais importante do que saber como ensiná-lo. Durante muito tempo, essa visão se cristalizou hierarquicamente dentro da universidade. Muitos ainda acreditam que quem sabe o conteúdo consegue lecionar. Quando, na verdade, o que e como ensinar são necessários.

Essa visão está relacionada à formação dos docentes que lecionam no Ensino Superior?
MARISA Sim. Como no Brasil não há uma legislação sobre a formação pedagógica do professor universitário, podemos nos deparar com profissionais que fizeram graduação em Geografia, mestrado em climatologia e doutorado em outra área, mas nunca tiveram contato com a didática. Como, então, esses docentes vão fazer um trabalho de integração curricular, de compreensão do cotidiano da escola e dos processos cognitivos? A realidade é que muitos só conhecem o dia a dia da Educação de forma teórica.

Como reverter esse quadro e aproximar o futuro professor do conhecimento didático?
MARISA Existe uma proposta de as graduações terem cursos com entradas separadas. Teríamos, assim, turmas diferentes para bacharelado e licenciatura. Eu defendo esse formato, pois a maneira como o licenciando vai aprender climatologia, por exemplo, não é a mesma que a do bacharel. Em termos de corpo epistemológico e cognitivo, ambos vão estudar o mesmo conteúdo, uma vez que a Geografia é uma ciência. Agora, a forma como se vai lidar com esse tema muda. Para aprimorar a formação docente, os responsáveis pelos cursos de licenciatura têm de entender a área como tão importante quanto o bacharelado e rever os currículos para dar conta das didáticas específicas.

O título do seu doutorado traz o termo "zonas de fronteiras" como analogia à distância entre a academia e a escola. A que você atribui esse distanciamento?
MARISA Ainda hoje, a universidade crê que seu docente é superior aos demais. É como se o professor universitário fosse o que conhece realmente a Geografia e estivesse em um status superior ao que está no dia a dia das crianças e cuida da aprendizagem. Isso tem mudado, felizmente. Mas, ainda, é um entrave sério. Ao mesmo tempo, a Educação Básica tem muitos problemas a resolver e está fechada em si mesma. Essa distância entre as duas esferas faz com que, quando a academia vai ao chão de sala, pesquise sobre ele, mas não com ele. Resultado: os licenciandos tornam-se críticos ferrenhos à escola - entram nela, veem problemas, mas não conseguem articular o que aprenderam na universidade com uma ação concreta para a melhoria do ensino.

O estágio é o principal elo entre universidade e escola. Ele pode ser usado para aproximar as duas instituições?
MARISA Sim, ele é um lugar privilegiado para que as duas trabalhem em parceria, favorecendo a transição dos hoje estudantes para a docência. Se um aluno de licenciatura começa a trabalhar com um professor da Educação Básica e leva para ele aquilo que está aprendendo e produzindo na universidade, pode promover mudanças. Do mesmo modo, ao compartilhar com a academia as questões pertinentes à escola, contribui para aprimorar a formação docente.

Existe um sentimento de angústia do estudante universitário por não encontrar seu lugar na escola. Por que isso ocorre?
MARISA A angústia vem da falta de reconhecimento do estagiário dentro da instituição escolar e de supervisão por parte da universidade. Na primeira, ele acaba sendo visto como um estorvo, um quebra galho ou alguém que só fica ali olhando. Na outra, cai em uma ação meramente burocrática, de apenas levar as horas assinadas para a secretaria da graduação, sem que tenha um retorno concreto sobre o que fazer com o que observou na sala. O apoio do orientador, nesses casos, faz toda a diferença. É ele quem articula a parceria com a instituição e mostra caminhos ao estagiário. Caso isso não aconteça, cabe ao aluno cobrar a universidade e a escola. Se ele é negligente, passa a ser cúmplice da situação.

O que deve ser feito para reverter esse quadro e fazer com que o estágio tenha impactos positivos na Educação?
MARISA É preciso que ele seja um momento de pesquisa e ação. Ou seja, é necessário ir à escola, vivenciá-la e criar um projeto de pesquisa considerando o debate sobre o ensino da Geografia - ou de outras disciplinas - como integrante da instituição. Dentro de um programa consistente de estágio, é interessante realizar oficinas pedagógicas com os educadores da escola e estabelecer parceiras com as secretarias e diretorias para colocar o que é estudado em prática. Desse modo, conseguimos disseminar a ciência geográfica de ponta e os últimos estudos sobre ensino e aprendizagem ao mesmo tempo e trazer a experiência dos educadores para a universidade. Todos repensam suas convicções.

Essa visão mais completa de pesquisa e ação já está em curso no Brasil?
MARISA Algumas universidades têm realizado bons projetos nessa linha. Na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), em que trabalho, os estagiários são organizados em grupos dentro de cada instituição. Eles detectam uma dificuldade e propõem um projeto à equipe docente. Outras faculdades têm estágios multidisciplinares, reunindo os estudantes em escolas polos, sob a orientação de um professor universitário.

Até onde o aluno da graduação pode interferir na prática da escola?
MARISA Isso depende da proposta de estágio definida por aluno e supervisor, em parceria com a instituição e, principalmente, de como ela é acolhida pelo professor que vai recebê-lo. É preciso que esses acordos sejam feitos. Mesmo que a ideia seja apenas observar a turma, o estagiário pode estabelecer uma relação de troca com o docente da escola, aprender com ele e dar sugestões. Quando conseguimos estabelecer essa parceria, cai por terra a divisão entre formação inicial e continuada e passamos a falar sobre "formação de professores" - termo que inclui tanto o novato quanto o mais experiente. Essa ideia de que ambos aprendem e ensinam é um ganho extremamente forte para a Educação.

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