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De qual passarinho é aquele ninho?

A turma da professora Luana não perde a chance de observar as aves no entorno da escola. E ficou craque nos processos de investigação científica

POR:
Larissa Darc, Lucas Magalhães e Maggi Krause

"V ocê sabia que o beija-flor move as asas mais de mil vezes por minuto?", perguntou Katlyn Mendes, orgulhosa de seu vasto conhecimento sobre o passarinho. Ela também sabia falar sobre o bico esponjoso dos tucanos, a alimentação curiosa dos urubus e a razão dos pica-paus fazerem tantos furos nas árvores. Segurando seus cadernos com as anotações sobre essas aves, conversava com a amiga Beatriz Nicoli sobre as características do ninho do bem-te-vi.

Parece papo de gente grande. Mas a conversa surgiu entre duas garotas de 8 anos. Alunas da Escola Colibri - coincidentemente, outro nome para beija-flor -, instituição particular e filantrópica, elas participaram do projeto Conhecendo as Aves do Entorno, um dos vencedores do Prêmio Educador Nota 10 de 2017. A professora Luana Portilio conta que a ideia de lecionar sobre as características desses animais por meio da observação surgiu em uma formação.

Ela usou a diversidade de fauna e flora da escola, situada junto a um pedaço de Mata Atlântica na periferia de Embu das Artes, cidade da região metropolitana de São Paulo. Luana construiu sua proposta para fazer com que as crianças do 1º ano aprendessem os procedimentos da pesquisa científica enquanto avançavam em suas hipóteses de leitura e de escrita. "O objetivo era ensinar Ciências por meio de levantamento de hipóteses, coletas de dados e leituras técnicas em material informativo. Tudo feito em grupo, misturando crianças que estão em diferentes momentos da alfabetização", conta Luana.

Há quatro anos, quando iniciou o projeto, a professora buscou dicas de ornitólogos na internet e mobilizou a escola para implantar comedouros com frutas maduras, alpiste, milho e semente de girassol. Todos os anos, o primeiro passo com os alunos é a pesquisa em sites e blogs especializados, para entender como funciona a atividade, antes de saírem de binóculos e câmeras.

Atenção e enxurrada de perguntas

Nas primeiras explorações, a empolgação coletiva fazia com que as aves se assustassem. Com o tempo, as crianças aprenderam a como se comportar diante dos bichinhos. "A regra para ser um bom observador é ficar em silêncio, sem gritar ou cutucar as pessoas. Também não devemos pisar em folhas secas, para não espantar as aves", ensina Miguel Xavier, 8 anos. As perguntas que surgiam durante essas saídas pela trilha na mata ao fundo ou junto da entrada da escola norteavam os rumos das atividades. Utilizando livros de referência, como Aves Brasileiras, de Johan Dalgas Frisch (leia entrevista mais abaixo), os alunos tentavam desvendar a origem das penas encontradas pelo chão, além de confirmar o que tinham lido sobre o comportamento dos pássaros. Todas as descobertas eram registradas em uma ficha técnica, que serviria de base para a comprovação das hipóteses. Durante todo o processo, os estudantes precisavam checar em livros e enciclopédias na sala as informações colhidas. Luciana Hubner, selecionadora do Prêmio Educador Nota 10, conta que o método adotado é o grande destaque. "É um bom projeto para crianças pequenas porque incentiva a investigação e provoca os alunos para ampliar os conhecimentos deles." No processo, a turma é muito ativa e todas as etapas importam: observar, registrar com fotos ou desenhos, buscar respostas para dúvidas e reunir informações para apresentar a outras turmas.

Procurar ninhos no alto das árvores é uma atividade comum para as crianças da Colibri
Os alunos mostram seus achados: penas de sabiá branco, rolinha, pomba-do-mato e bem-te-vi

FALA DO ESPECIALISTA

JOHAN DALGAS FRISCH, ornitólogo brasileiro

 

Parte das questões foi feita pela turma de Luana, acostumada a buscar dados nos livros de referência editados pelo estudioso, que tem 87 anos. Durante sua trajetória, Dalgas fez gravações do som de várias aves brasileiras, como a do raro canto do uirapuru.

Como você começou a pesquisar a vida dos pássaros?

Quando eu era jovem, não existia faculdade para isso. Aos 14 anos, inventei de matar passarinho com estilingue, o que era comum na época. Meu pai me deu um livro de aves brasileiras e não parei mais de estudá-las. Um dia, fui pego caçando. Fiz um acordo com um museu de que os pássaros encontrados seriam estudados. Passei anos lá fazendo isso.

Por que é importante ouvir o canto das aves e como se faz para identificá-lo?

Os brasileiros formam um povo sensível. Se perdermos o contato com a natureza, perderemos a poesia. Quando reparamos nesses sons desde a infância, passamos a valorizar o meio ambiente. E não é difícil identificar um canto porque temos uma memória sonora, basta prestar mais atenção.

Você tem uma espécie preferida?

Não tenho. O pássaro favorito é o que estiver cantando na minha frente no momento. Cada um tem a sua personalidade e a sua simpatia

Como atrair passarinhos para o entorno da escola?

A forma mais efetiva é plantando árvores, como amoreiras, e flores. Para atrair bem-te-vi, por exemplo, o ideal é colocar frutas maduras. Os comedouros ajudam, mas é necessário prestar atenção na higienização. Se não forem limpos a cada três dias com cloro, os fungos entram em contato com a língua do animal, levando-o à morte.

 

A educação científica permite que os alunos entendam conceitos complexos com base em situações cotidianas, buscando a solução de problemas. Luisiana Carneiro, doutora em biodiversidade pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), explica que "enquanto eles praticam as etapas, criam um repertório que possibilita compreender o seu papel no mundo". A consciência ambiental foi consequência natural do envolvimento com o tema e fez as crianças negociarem com a diretora um prazo para a remoção de uma árvore doente - teria que ser depois que o bem-te-vi cuidasse dos filhotes e abandonasse o ninho.

Ao contrário do que se imagina, o projeto pode ser replicado até em grandes cidades. "Somos levados a pensar que só encontraremos aves na natureza, por isso precisamos treinar os nossos olhos e ouvidos. Mas temos parques, árvores e espaços que permitem que você encontre diversas espécies, como pardal, sabiá e quero-quero", ensina Luisiana. A professora concorda, ressaltando que qualquer pássaro pode ser estudado. "O mais importante é a pesquisa. Meus alunos observaram urubus e adoraram. Se nós investigarmos o organismo e a função de cada pássaro, até pomba vale estudar", incentiva a educadora. Ela também não hesita em parar uma aula para observar um visitante do bebedouro na janela. Quando isso acontece, os alunos pegam imediatamente os seus binóculos e olham atentos em direção ao beija-flor, antes que ele dispare para a mata vizinha.

Fotos: FÁBIO NASCIMENTO