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Aprender a ser autor com Clarice

Leitura e análise de bons textos fez a turma de Diogo planejar, escrever, revisar e publicar histórias divertidas

POR:
Patrick Cassimiro e Maggi Krause

Por que um texto é excelente? Responder a essa pergunta não é fácil para ninguém, quanto mais para uma turma de 5º ano, que está começando a explorar textos mais elaborados! Por isso mesmo, a ousadia do professor Diogo Fernando dos Santos de ler os contos infantis de Clarice Lispector e analisar com os alunos a narrativa, as descrições de personagens, a ironia e até figuras de linguagem mereceu elogios de Andréa Luize, selecionadora do Prêmio Educador Nota 10. "Ele aposta no potencial de reflexão e de apropriação dos alunos. Faz discussões que permitem às crianças compreenderem recursos linguísticos para depois usá-los na hora de escrever", afirma.

A leitura inaugurou as etapas do trabalho. Enquanto o professor lia em voz alta, os alunos percebiam o ritmo, a sequência lógica, a construção da narrativa e relações de causa e consequência. Com a ajuda de questões, observavam como a pontuação, o uso de conectores (mas, além disso, mesmo que...) e de verbos de enunciação (explicar, suspirar, cacarejar) funcionavam no texto. Além de contos de Clarice, a turma analisou a obra Os Bichos Que Tive, de Sylvia Orthof, comparando os estilos de escrita. "Embora as autoras sejam excelentes, foi o texto que eu coloquei em primeiro plano", explica Diogo. "Acompanhei as reflexões das crianças para entender junto com elas o que qualificava esse texto bem escrito."

A obra infantil de Clarice é um convite para refletir, segundo a professora Maria Zilda da Cunha, líder do Grupo de Pesquisa Produções Literárias e Culturais para Crianças e Jovens da Universidade de São Paulo (USP). "Ela estabelece diálogos com o leitor, deixando vazios no texto para que seu interlocutor pense e responda. Daí, encanta a criança e o jovem que se vê respeitado e convocado a participar do ato narrativo, assumir um ponto de vista e pensar junto", explica. Os contos de Clarice também inspiram a interlocução do adulto, como contador de histórias. "O tom de seus textos é desejante: pede que uma voz leitora revele o segredo que sua escrita guarda." Maria Zilda lembra que enredos aparentemente simples trazem temas complexos, como a morte, a inveja, a vingança e a ausência de liberdade. Nas conversas com o professor, a turma infere as ideias que a autora quer comunicar em cada história.

Como objetivo final do projeto, que foi realizado na EM Odete Correa Madureira, em Pindamonhangaba (SP), ele propôs que os alunos criassem uma história instigados por uma pergunta do conto O Mistério do Coelho Pensante, de Lispector. Além das produções publicadas na parte Quem Escreve Sou Eu! do blog Escritores Mirins (escritoresmirins.blog), dá para ler anotações dos cadernos dos estudantes com planejamento, versão original, dicas de colegas e reescrita de contos.

O professor checa as produções dos alunos, que discutem sobre os textos em grupos

AS PALAVRAS E SEU USO

Trechos de contos de Clarice Lispector e intervenções de Diogo provocam reflexões sobre o sentido dos elementos no texto

A leitura do conto A Vida Íntima de Laura é seguida de uma conversa com a turma

Vídeos e muita reflexão

Na rotina de Diogo, a dedicação aos estudos é contínua. Depois de cursar Pedagogia, se especializou em gramática na Universidade de Taubaté (Unitau) e em alfabetização no Instituto Vera Cruz, em São Paulo. Atualmente, faz mestrado em Linguística Aplicada na Unitau. Na escola, organiza um diário do processo e filma as aulas com o celular. "Ele usa os registros para se autoavaliar, refletir sobre a prática e replanejar suas estratégias", conta Andréa. Para isso, o professor revê os vídeos e as intervenções que fez em sala (leia algumas delas acima).

Sem usar as terminologias da gramática, ele conseguiu que os alunos entendessem qual o sentido de usar uma conjunção, um advérbio ou um pronome. "A gramática passa a ser desejada e interessante quando se percebe seu uso. Esse trabalho mostrou como os elementos linguísticos permitem melhorar a escrita. Entendê-los é um saber que os alunos levarão pela vida", comenta Rita Jover-Faleiros, professora e pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Outro mérito do projeto foi desmistificar um texto excelente. Ler Clarice não deixou nas crianças a impressão de que elas nunca escreveriam assim. Pelo contrário, ao ensiná-las a planejar a história, fazer revisões e opinar sobre o texto dos colegas, Diogo passou a ideia de que escrever bem não é um dom, e sim algo construído. Exige dedicação, claro, e o resultado pode ser motivo de orgulho, não só para escritoras reconhecidas mas também para o autor que existe dentro de cada um.

FOTO DIEGO MIGOTTO. ILUSTRAÇÃO RAFAEL NUNES