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Aprender regras para aprender a jogar

Ela não precisou virar ditadora. Com naturalidade, Cristiane ensinou as regras para jogar bolinha de gude

POR:
Wellington Soares, Lucas Magalhães e Nairim Bernardo

Quando Cristiane Pereira propôs que as crianças do 1º ano da EE Antonio de Oliveira Bueno Filho, em Araraquara (SP), jogassem bolinha de gude do jeito que soubessem, aconteceu de tudo: as pecinhas foram arremessadas e chutadas, como os alunos estavam acostumados a fazer com bolas maiores. Para transformar a bagunça em jogo, a professora criou uma sequência didática em que as crianças tiveram contato com as regras, entenderam que há diversas maneiras de brincar e até criaram novos modos. "O habitual nas aulas de Educação Física é o professor explicar o regulamento e os alunos apenas reproduzirem seus comandos. Em vez de focar nisso, Cristiane se preocupou em aprender como a criança aprende", explica Marcos Santos Mourão, selecionador do Prêmio Educador Nota 10.

A principal atividade do projeto foi a investigação de diversas possibilidades de jogos em vídeos do YouTube e em entrevistas com conhecidos. "Queria que os alunos vivenciassem a brincadeira também fora do ambiente da escola. Escolhi as bolinhas de gude por serem de fácil acesso e bastante baratas", conta Cristiane.

Aos poucos, eles fizeram uma transição da brincadeira (sem regras fixas e formas preestabelecidas) para o jogo (com regras que precisam ser respeitadas, porém flexíveis se os participantes estiverem de acordo). Nesse processo de descoberta, as ruas foram uma das fontes de pesquisa. Ao ver outras crianças brincando com as bolinhas, elas se aproximavam para explorar aquele jeito de jogar e depois compartilhavam com o restante da turma. As famílias se juntaram ao projeto, ensinando, aprendendo e criando novas regras. "Muitos pais não conseguem acompanhar a vida escolar dos filhos por não terem formação. Mas como era uma brincadeira, eles se sentiram mais à vontade para se envolver", diz.

A professora atingiu um dos objetivos mais ousados para alunos de até 7 anos: fazer com que eles não apenas entendam as regras mas vejam sentido nelas. "O trabalho explora a autonomia da criança e a construção de normas, que não geram envolvimento quando impostas", defende Marcos. É o caso da regra de que meninas não poderiam participar do jogo, levantada nas primeiras etapas do trabalho, mas logo derrubada.

Gradualmente, as crianças passaram a dominar os gestos e as regras para jogar

DO CAOS AO JOGO EM 4 PASSOS

  1. Exploração livre Deixe as crianças brincarem como souberem. É normal que maneiras nada convencionais apareçam.
  2. Pesquisa Peça que elas procurem vídeos na internet e entrevistem pessoas para descobrir maneiras de brincar. Depois, faça um momento de experimentação dessas maneiras.
  3. Criação Proponha a criação de novas regras e jeitos de jogar. Intervenha discutindo a pertinência da regras.
  4. Jogo livre Novamente, deixe que as crianças brinquem livremente. Avalie a transformação ocorrida desde a primeira atividade.

 

FOTOS WILIAN OLIVATO