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Reportagens | CONTEÚDO HISTÓRIA | Reportagens


Por: Rodrigo Ratier, Lucas Magalhães e Laís Semis

Ele usou a Bíblia para ensinar História

Professor da EJA em presídio ousou tocar nesse tabu. Deu certo

"N uma aula sobre Império Romano, questionei o professor se a Bíblia poderia ser usada como fonte histórica. Não esperava que uma pergunta simples pudesse chegar tão longe", diz Evadson Geraldo, 28 anos. O livro mais vendido do mundo é uma referência para ele e seus colegas. Eles estão no 2º período do Ensino Médio da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Cumprem pena na Associação de Proteção e Assistência ao Condenado (APAC), presídio em Lagoa da Prata (MG). Muitos professores encerrariam o assunto com um veto. "A Bíblia não é assunto para a escola", diriam. Di Gianne de Oliveira Nunes, docente de História na APAC e católico não praticante, fugiu da rota de segurança. Disse que o livro sagrado tinha espaço na aula. Mas foi rigoroso e indicou o que podia ser discutido em sua disciplina. "A preocupação fundamental foi separar História e religião", conta. Isso significa que não cabe estudar, por exemplo, se o Mar Vermelho se abriu. Mas dá para aprender muito sobre os costumes das sociedades antigas. "A ideia é fazer uma leitura buscando elementos históricos, como se a Bíblia fosse um documento de época", explica Daniel Helene, selecionador do Prêmio Educador Nota 10.

Evadson Geraldo foi o autor da pergunta que motivou o projeto

Numa comparação, é como ler Machado de Assis (1839-1908) para entender melhor como era a vida no Rio de Janeiro do século 19. A diferença é que, com a Bíblia, essa separação é mais complicada. A razão é a complexidade do livro, cheio de referências a diversas culturas, sujeito a traduções polêmicas, escrito a muitas mãos e ao longo de mais de 1.600 anos. "Para fazer um bom uso do material, é preciso investir em formação e possuir informações muito consistentes sobre o tema", afirma Vicente Dobroruka, doutor em Teologia e professor do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB).

Como referência, ele sugere o livro A Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã, de Julio Trebolle Barrera, professor do doutorado de Ciências da Religiões na Universidade Complutense de Madri, na Espanha. O autor se guia por uma ideia útil para usar a Bíblia como material de aula: do ponto de vista da História, o livro é um mosaico de aspectos da vida dos israelitas na Antiguidade - hábitos, valores, cultura e relação com povos vizinhos no Oriente Médio e na Europa.

Sem pesquisa não tem milagre

Di Gianne enfrentou o desafio de não ser um especialista no assunto. "Fiz muitas leituras para encontrar esses trechos bíblicos que poderiam ser explorados. Só trouxe para a aula o que consegui confirmar em livros de História", afirma. Tão importante quanto o que entrou foi o que ficou de fora. "Não entramos na discussão sobre personagens, como Jesus Cristo, ou a veracidade dos acontecimentos descritos na narrativa, como a ressurreição. Deixo claro que essas são questões do terreno da fé", explica o docente.

Essa separação foi fundamental para indicar à turma a parte da Bíblia que pode ser discutida em sala: atividades econômicas, a dieta alimentar de cada período, as mudanças de moeda e o avanço das leis ao longo do tempo, por exemplo. Esse mergulho na história do cotidiano permitiu, ainda, traçar paralelos com a atualidade. Ao identificar passagens sobre os meios de comunicação, a organização familiar e os papéis de homens e mulheres, Di Gianne incentivou a turma a comparar semelhanças e diferenças com os dias de hoje (leia mais no quadro abaixo).

QUATRO EXEMPLOS DO PAPEL HISTÓRICO DA BÍBLIA

Aspectos dos costumes antigos podem ser comparados com a realidade atual

1. USO DE MAPAS

Citação "Ora, no décimo segundo ano de seu reinado, Nabucodonosor, que reinava sobre os assírios em Nínive, a grande cidade, fez guerra a Arfaxad, e venceu-o." (Judite 1:5)
Uso A turma quis saber onde ficam as cidades da Bíblia. Di Gianne trouxe mapas e puxou discussões sobre patrimônio histórico. Nínive, por exemplo, antiga capital da Assíria, ficava numa região do Iraque alvejada pelo Estado Islâmico em 2015.

2. COMUNICAÇÃO

Citação "E escreveu-se em nome do rei Assuero e, selando-as com o anel do rei, enviaram as cartas pela mão de correios a cavalo, que cavalgavam sobre ginetes, que eram das cavalariças do rei." (Ester 8:10)
Uso Di Gianne levou a classe a pesquisar sobre o sistema postal. Os persas aperfeiçoaram o correio criado pelos egípcios, que faziam as entregas a pé. Na Pérsia, os mensageiros iam montados a cavalo, e usavam o serviço para administrar o império. As entregas se limitavam a mensagens do governo.

3. FAMÍLIA

Citação "Quando um homem tiver duas mulheres, uma a quem ama e outra a quem despreza (...) Será que, no dia em que fizer herdar a seus filhos o que tiver, não poderá dar a primogenitura ao filho da amada, preferindo-o ao filho da desprezada, que é o primogênito." (Deuteronômio 21:15-17)

Uso O professor procurou destacar as permanências e rupturas no desenvolvimento da sociedade. No trecho aparecem menções à poligamia - então tolerada - e à primogenitura. São frequentes na Bíblia os direitos dos filhos mais velhos em relação aos demais. Esse tratamento se estendeu até a Idade Média.

4. GÊNERO

Citação "A mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição. Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio." (Timóteo 2:11-12)

Uso Eles debatem o papel de submissão das mulheres na sociedade antiga, refletem sobre os avanços e o que permanece dessa cultura.

 

Em suas aulas, Di Gianne pôs a turma para pesquisar

Como na maioria das prisões brasileiras, a sala de aula de Di Gianne é improvisada. Locais dedicados ao artesanato, à alimentação e ao futebol se transformam para receber as turmas. O acesso dos estudantes aos livros é restrito ao catálogo da biblioteca prisional, que conta com cerca de 400 títulos didáticos e iterários. E a internet é proibida, o que limita muito as pesquisas.

Curiosamente, o ócio foi um aliado. "Os reeducandos têm tempo no presídio. Em um dos dias da semana, eles ficam só na cela. Muitos transformavam o período de clausura em momento para ler", afirma Di Gianne. Grande parte das dificuldades apareceu quando a turma precisava investigar informações para o projeto. "A gente sempre anotava o que encontrava para levar para as aulas. Mas, às vezes, não descobríamos nada nos livros disponíveis", lembra Evadson.

Impulso para a infraestrutura

A carência fez o professor se desdobrar. De seu acervo próprio, Di Gianne ofereceu livros didátivos e revistas de História. A qualidade das pesquisas melhorou. Para Daniel Helene, ter a sensibilidade de refletir sobre os recursos da escola e considerar o repertório da turma, trabalhando para ampliar os dois, é um dos destaques do projeto. "Não tenho dúvida de que um livro conhecido por eles passou a ter uma outra leitura, muito nova, baseada em conhecimentos científicos. É um saber transformador", destaca o selecionador.

Aliás, esse saber começou com a pergunta de Evadson - e continuou com o professor: "Afinal de contas, a Bíblia pode ser considerada uma fonte histórica?". A inquietação disparada pela pergunta de Evadson produziu efeitos em toda a classe. "Trocávamos opiniões até com outros alunos que não estavam participando do projeto. Às vezes, a gente ouvia as pessoas comentando sobre o assunto nos corredores e no espaço de artesanato", conta Evadson. Para além do interesse na Bíblia, os alunos também mudaram sua postura em relação aos estudos. "Aqui, a gente passa por momentos difíceis. Para nós, que estamos em ressocialização, esse despertar de um sentimento de capacidade faz muita diferença. Foi o estudo que nos trouxe isso", explica. "Até nossos familiares passaram a acreditar mais na gente vendo os resultados desse trabalho. Isso é muito importante, dá uma força a mais para mudar." Palavra do autor da pergunta que ultrapassou os muros do presídio de Lagoa da Prata. Se no princípio era o verbo, como diz a Bíblia, o meio é a Educação - e o fim é o retorno à sociedade.

COMO PROFESSOR, EU FUGI DA BÍBLIA. DI GIANNE, NÃO 

FELIPE BANDONI, professor de EJA e colunista de NOVA ESCOLA

O que mais me impressiona no trabalho do professor Di Gianne é o modo como ele usou a Bíblia para disparar as investigações. Se, por um lado, pode ser vantagem lançar mão de um livro que faz parte do repertório dos reeducandos, por outro, por ser lida mais frequentemente no contexto religioso, é muito desafiador utilizá-la na escola. Como professor de adultos, sei que a simples menção à Bíblia causa a defesa apaixonada desse ou daquele ponto de vista, e mais de uma vez me distanciei dos conteúdos que retendia discutir. Di Gianne resolveu bem esse problema ao separar claramente o que é do terreno da fé daquilo que é conhecimento da História, garantindo um novo olhar sobre os textos. Nesse sentido, partir da Bíblia foi inovador e ousado, mas também um ótimo caminho para aprender a consultar fontes históricas. Durante todo o percurso de seu projeto, Di Gianne teve a capacidade de manter os alunos em primeiro plano. Deixou para eles o protagonismo da pesquisa e se colocou nos bastidores para mediar o processo, fornecendo material, esclarecendo dúvidas e promovendo condições para que apresentassem suas descobertas para outras turmas.

Não se pode ignorar que o projeto foi realizado em um contexto desfavorável: alunos malvistos pela sociedade, com baixa autoestima, em salas de aula improvisadas e com restrições como a ausência de internet. Di Gianne encarna na prática a ideia de que a escola tem um papel importante na reintegração social. Ele apostou na capacidade dos recuperandos para criar um ambiente de estudo, investigação e curiosidade. Provou que é possível driblar a precariedade e enxergar as potencialidades e os saberes dos estudantes, até mesmo por trás das grades.

 

 

Fotos: GUSTAVO ANDRADE