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Este aluno também é índio

Projeto mostra como a Arte pode quebrar estereótipos sobre os indígenas e ampliar o repertório dos estudantes

POR:
Paula Peres, Leandro Beguoci e Victor Malta
ENTRE A TRIBO E A ESCOLA
Luciélio Teixeira Filho de 15 anos, mora no Recife, pertence à etnia xucuru e afasta-se por uns dias da escola todo ano para participar dos rituais de sua aldeia em Pesqueira, a 219 quilômetros da capital.

E m 2013, a professora Flávia Roberta Alves Costa teve de enfrentar um desafio. Recife mudou o currículo. Por isso, ela precisou falar sobre arte indígena com suas turmas do Ensino Fundamental 2 na EM Divino Espírito Santo. Mas, quando foi atrás de referências, teve um problema. Não havia material disponível sobre os povos do estado de Pernambuco.

Ela poderia ter desistido e partido em busca de referências sobre outros povos, já bastante estudados. Porém, em vez de se basear em uma visão estereotipada dos indígenas, Flávia elaborou uma pesquisa acadêmica sobre a produção cultural de quatro etnias de Pernambuco e região: fulni-ô, kapinawá, pankararú e xucuru. Ao olhar de perto para a cultura local, um mundo de possibilidades se abriu para o trabalho.

De volta à escola, Flávia levantou uma discussão sobre os índios com as turmas do 6º ano, e viu que havia muitos preconceitos a quebrar. "Vieram respostas prontas, de que os índios viviam na mata, caçavam, andavam nus", conta Flávia. "Além disso, alguns alunos tinham ascendência indígena, mas esconderam na conversa", conta. O problema era mais embaixo.

Flávia então se aliou ao professor de Matemática. Juntos, e com a turma, fizeram uma pesquisa com todos os alunos da escola. O resultado surpreendeu: 6% declararam ter parentes indígenas, 9% afirmaram conhecer alguma comunidade indígena, 12% se consideravam índios e 56% se reconheceram parcialmente indígenas. Um aluno do 9º ano, em especial, chamou a atenção. Ele mora na capital e participa dos ritos de sua etnia. Porém, a turma não conseguia identificá-lo como índio, porque ele parecia branco. "Ele deixou de ser índio quando veio para a cidade?", perguntaram os alunos, e eles não estão sozinhos nessa indagação. "É comum, inclusive em espaços educadores, que os índios sejam tratados como pessoas do passado", explica a professora Lucia Gouvea Pimentel, da Faculdade de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Uma pesquisa tão rica poderia ter levado a professora a um erro comum: sair completamente do foco da disciplina. Isso não aconteceu. Melhor ainda, Flávia alinhou o ensino de Arte às discussões mais modernas sobre a área.

Para a especialista Marisa Szpigel, selecionadora do Prêmio Educador Nota 10, "na hora de elaborar o estudo, Flávia soube fazer o recorte e identificar as temáticas que são especificamente do campo da arte". As trocas entre as disciplinas serviram a um propósito muito claro, e isso teve impacto no resultado. A partir dos dados, Flávia conheceu profundamente tanto arte indígena como seus estudantes. E então propôs algo novo: em vez de copiar as etnias, os alunos deveriam entender o que eles fazem - e se inspirar a produzir. Deveriam ser artistas.

As pinturas corporais dos índios serviram de inspiração para os alunos criarem suas pinturas de protesto

Chapéu de palha versus cocar

Depois dos estudos, veio a mão na massa, no papel e na tinta. Os artefatos e objetos dos quatro povos, como instrumentos musicais, cachimbos e objetos ritualísticos, foram observados e analisados. Neste ponto, um novo desafio. Para mostrar que esses itens também são arte, Flávia teve de explicar que os povos têm diferentes visões do que é artístico - e como isso é diferente da nossa própria concepção, de origem europeia, de arte como algo para ser desfrutado esteticamente.

Neste processo, os estudantes perceberam que os materiais usados nessas obras, como palha, penas escuras de animais da região e o barro, eram bem diferentes do que imaginavam. "Os kapinawá, por exemplo, usam um chapéu de palha para proteção ao sol. É um de seus símbolos, muito diferente do estereótipo do cocar", conta Flávia. Em vez de apenas copiar o trabalho, ela optou por usar essas e outras referências como ponto de partida: os alunos fizeram desenhos de observação dos objetos usando lápis, canetinha e tinta aquarela. "Flávia usa um procedimento científico de apreciar e fazer desenho de observação, que é um conteúdo da arte", elogia Marisa.

Mais tarde, a escola recebeu a visita dos índios fulni-ô. Os jovens, de 17 a 21 anos, chegaram pintados com desenhos que representavam animais, símbolos e valores como "força" e "coragem". Eles ainda apresentaram e ensinaram algumas de suas danças, explicando o seu significado. "As crianças ficaram encantadas com aqueles índios jovens, antenados com a tecnologia. Vários se tornaram amigos nas redes sociais", diz a professora. "É bonito ver o respeito com os saberes indígenas passados por gerações. Os fulni-ô se tornaram os professores daquelas turmas", elogia Lucia.

Como os desenhos corporais se transformaram num grande assunto, a professora resolveu trabalhar o tema. Os alunos pesquisaram a respeito e elaboraram pinturas em si mesmos usando tinta guache. Eles podiam se basear nos fulni-ô, mas também eram livres para criar. "Como é a primeira vez, é normal que haja reprodução, faz parte da aprendizagem. O importante é dar espaço para que eles criem, e Flávia fez isso", diz Lucia.

A ressignificação também aconteceu em uma atividade com tramas e tranças. Os alunos trabalham combinação de cores e padrões, elementos presentes na cestaria indígena, mas com outro material: tiras de papel que iriam para a reciclagem. "O que importa é o conhecimento procedimental desenvolvido", explica Marisa.

Ao final do processo, os 100 alunos da EM Divino Espírito Santo concluíram que ser índio é ter descendência dos povos que habitavam a América antes da chegada dos europeus e ter orgulho de sua identidade. Eles também foram antropólogos e artistas, aprendendo e criando obras que desfizeram seus próprios preconceitos. Flávia levou o grupo de estudantes a viver uma das experiências mais bonitas propiciadas pela Arte. Eles olharam para algo muito comum para eles - e viram o extraordinário.

O estereótipo construído

O livro e o quadro Iracema mostram a mesma visão romântica e idealizada dos índios

O quadro Iracema (acima) foi feito por José Maria de Medeiros em 1884. Inspirado na protagonista do livro de José de Alencar, mostra uma índia bela e sensual. É um clássico das artes nacionais. Ele diz muito sobre como o Brasil vê as pessoas que já estavam aqui, influenciado pelos europeus. Ao longo dos séculos, duas ideias se consolidaram no imaginário nacional: ou índios são seres degradados ou bons selvagens à espera da salvação. A primeira nasceu dos relatos dos portugueses pioneiros e voltou com força depois da Constituição de 1988. A criação de reservas, como manda a lei, levou ao conflito com fazendeiros que usavam essas áreas. A segunda ideia inspira ações do governo e o trabalho de missionários. O quadro ao lado, aliás, é uma versão dela. No século 18, os iluministas viam no índio o "bom selvagem", um ser puro capaz de salvar a humanidade corrompida. Essa ideia influenciou os escritores brasileiros do Romantismo, como José de Alencar. As duas imagens são equivocadas. Elas partem do princípio de que os índios estão congelados no tempo. Ninguém espera que um descendente de italianos se vista como um florentino de quatro séculos atrás para honrar seu sobrenome. Porém, espera-se algo semelhante dos indígenas. O trabalho de Flávia ajuda a ter uma imagem mais realista dos índios. Eles mudam, usam tecnologia e vão continuar mudando. Mas também querem ter o direito às suas terras e tradições respeitados. 

 

Fotos: LANA PINHO e JOSÉ MARIA DE MEDEIROS/WIKICOMMONS