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Por: NOVA ESCOLA

Coragem, substantivo coletivo

Os projetos vencedores não iriam longe se não houvesse um grupo disposto a comprar o risco da mudança.

RODRIGO RATIER,

RODRIGO RATIER,
editor executivo de NOVA ESCOLA e doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP)

Há um questionamento, que julgo pertinente, quanto a premiações de professores. Dizem os críticos que esse tipo de concurso contribui para perpetuar a narrativa do "professor herói". Trata-se daquele personagem que supera as mazelas da Educação pública brasileira ("precária", "sem salvação") e triunfa sobre as adversidades. A coragem, nessa história, seria uma qualidade individual, atributo de seres especiais que, contra tudo e contra todos, resolvem mostrar a luz aos colegas desafortunados do Brasil.

É muito bom constatar que o Prêmio Educador Nota 10 de 2017 desconstrói esse enredo tão estereotipado quanto fantasioso. O que temos entre os premiados deste ano são homens e mulheres de carne e osso, com projetos lindos e consistentes. Mas sujeitos a fragilidades, com etapas que não funcionam tão bem quanto o planejado, pontos de evolução e questões ainda em aberto.

Em resumo, são projetos reais, como os seus. São bons exemplos, é verdade. Mas interessam não apenas pelas qualidades que inspiram. Importam também pelas dificuldades. É nelas que, eventualmente, identificamos problemas do nosso cotidiano. E sentimos que os eleitos, assim como nós, têm a necessidade da evolução constante. Todos em busca do melhor jeito de ensinar.

Penso que a noção de coragem também recebe uma abordagem mais pé no chão. Entre os dez projetos, o destemor de enfrentar situações difíceis não é uma característica exclusiva dos premiados. Se você ler com atenção, vai perceber que as grandes inovações em estrutura, conteúdo e método que os trabalhos apontam só ocorreram porque um grupo comprou o risco da mudança.

Foi o diálogo entre gestão e equipe docente que mudou a escola da Denise e da Adriane. O protagonismo dos alunos fez brilhar os trabalhos de Di Gianne, Diogo e Elisângela. Roseli teve apoio do professor de informática - ela própria diz que o projeto é dos dois. Na parceria com a universidade, Flávia aprimorou sua atuação. Os funcionários da escola de Luana deram asas às investigações dos alunos. E, sem as famílias, as conquistas de Cristiane e Gislaine simplesmente não teriam sido possíveis.

Não pretendo com isso afirmar que o indivíduo, sozinho, nada pode mudar. Sem dúvida, o impulso e o entusiasmo dos Educadores Nota 10 foram a fagulha que acendeu a chama das transformações. Elas, porém, teriam sido fogo de palha se não houvesse um grupo disposto a apoiar seus projetos. E também a aperfeiçoá-los. Quando ameaçamos fraquejar, o ombro a ombro é o que nos sustenta. Quando desviamos perigosamente da rota, é a inteligência coletiva que nos auxilia a voltar aos eixos. Isso quer dizer que cada Educador Nota 10 é feito de outros 10, outros 100, outros mil. A essa multidão de corajosas e corajosos, nosso muito obrigado. O prêmio deste ano também é de vocês.

Ilustração: ADRIANA KOMURA